o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
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sábado, 17 de dezembro de 2016

as cavidades da lua
- sombras etéreas da memória -
esvaziadas do tempo.
o corpo sem presença habita
esse espaço inerte, que se desenrola entre as moléculas caóticas
um giro planetário
um ser humano que é planta (eu quero água, sol e que conversem comigo pela manhã).
toda manhã o sol aparece
e os olhos podem ver os contornos
das mentiras perpetuadas
as ilusões do paraíso
(ah! um lamento pelas edificações sempre sempre arruinadas);
essa impermanência inevitável do rio
e a origem de todo o movimento
vem da solidão duma pedra que pesa entre o estômago e o coração.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

o eu instantâneo - esse único que existe - não teria como saber por onde começar
ele vive o rio e a tontura do movimento
e também sente a aparente estaticidade dos corpos silenciosos derramados
dentro das noites solitárias, dos sentidos atravessados.
o começo pode ser uma constante impermanência,
essa vasta neblina sobre o jardim insone,
os cheiros e ruídos que não são identificados
e os passos por sobre a solidez assoladora da terra.
é o desespero espiral de contatos ininterruptos,
sempre um desconhecido, um eterno desconhecimento que pulsa pelos buracos no chão.
essa voz é uma ilusão, é o segredo tentando desabrochar
num renascimento descontrolado,
o poder das mãos vazias
a realidade assombrada pelos sinais nos raios de sol,
a luz o ar os papeis os objetos as sombras
não é possível fazer perguntas
o espelho carrega seu truque do avesso
tudo já é um reflexo sensível de tudo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

este sentido doado à matéria afetiva esticando-se por estar vivio
já foi devorado pelos rodopios do tempo, as tantas deformações inexatas
dessa entrega à mitose dos magnetismos.

não há como proteger o dia do dia, todas essas notas fictícias transgredindo
o interior dos abismos esquecidos. aos olhos de dentro não se pode velar
a fatalidade da experiência.

todos os escritores agora nas dimensões de outrora sussurram nas vozes dos
amigos corajosos e perdidos sobre as pedras do rio - nós escrevemos o nosso
medo da morte.

explorar o oceano é uma aventura infinita,
aqui se revela a realidade do invertebrado e a visão da terra encoberta pelos
bosques silenciosos.

as folhas estarão emendadas pelas teias das aranhas transparentes do esquecimento;
está profetizada a minha resposta, mesmo que eu não possa contar a verdade,
a fênix dos sonhos nos reinos dágua.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

a consistência da página
caminho da memória para
dentro da Terra
meu ofício dos pés
no caldeirão das magníficas
                 dispersões
               obscuras                                                                                                      pelo Sol
infinitas

partes do vivo
pertencendo então ao instante
este fulmilento relâmpago
nos corpos extremos em proximidade

CÓSMI
CA

é o crescimento dos ciclos do tempo
uma memória daquele quarto no qual a fumaça
esvaía o espaço
pelas bordas
de nada


quinta-feira, 31 de março de 2016

Neblina nas borras da xícara

O café já estava esfriando há 50 anos desde a juventude da ninfa de cabelos vermelhos. Um buraco no tempo sabotou os conectores e nada mais pode-se transformar. Ela quis abdicar de sua vidência e rogava à natureza para que emudecesse diante da orquestra de pássaros que surgia com a noite; mas todas as manhãs se levantava ciente de sua voz, comunicando os sinais da Lua ao Sol que lhe banhava de calor. Sua testa pulsava diante do Nada mesmo dos dias roubados. Fios brancos que pendiam da cabeça denunciavam a insistente vontade, uma fome voraz que restava no âmago da Terra. Diante da morte e do renascimento, a ninfa debulhava sua inevitável voz nas horas consumidas enquanto bordeava, entorpecida, os troncos das árvores. Cantava palavras que ainda não existiam para preencher o eco da floresta. O som enigmático da madeira estalando junto às folhas assopradas pelo solo respondia à voz da ninfa como um órgão vivo. Suas mãos transparentes iam segurando os cipós que pendiam do céu e desenhando símbolos do ar. Por toda a extensão da floresta abriam-se as portas celestes do tempo corrompido. Por cada entrada ressoava o ruído magnético de um organismo infinito, e a floresta se reproduzia num dominó de retratos espelhados. A voz da ninfa era maior que seu corpo; o abandonava para participar de seu Destino. Seu corpo diluía-se na respiração da floresta, que ligava as sombras e a luz entre os dias emendados.

Buraco

O disparo do tiro foi úmido e saiu pelo outro lado. Ouviu-se um ruído fantasma eclodindo sob luzes alaranjadas. A regeneração da terra era um processo contínuo e invisível, demorado, resiliente. O eco da explosão abriu um vão inconcluso por baixo da pele do plexo solar e deixou uma cicatriz circular nas vísceras do tempo. Um buraco negro dedicado ao imemorial rastreado pela magia e conjurado por todas as células que formam as veias. Gritar de boca fechada, ou escutar o silêncio dos rodopios divinos, cores inventadas por fragmentos de sol. O abandono da paciência universal reverteu os raios pelo reflexo das direções e o buraco para dentro. Havia muitas paredes na casa de Saturno encobrindo os quartos onde ele devorava os próprios filhos. Cada passo é uma parede um muro uma construção de concreto. As pedras na montanha são tão estreitas quanto as ruas com cartas penduradas nos postes. Era vertiginosa a mirada das árvores tão embaixo, pertencendo ao solo fértil que sustentava as pedras e o carvão das palavras entalhadas. Eu seguia evitando minha evocação própria, meus caminhos abertos pela memória de um rio. Estava diante de uma bifurcação irredutível...

Perguntei à mulher de xale na rua sobre uma jornada inominável e ela esteve meditativa e receptiva. Os oráculos beberam minhas lágrimas como se fossem milagrosas e eu chorei mais e mais e mais muito forte muito recolhida, até que todos os símbolos desaguassem meus ossos abaixo e uma correnteza distribuísse novamente os pesos às coisas da matéria...

Os grãos do solo aos poucos se foram assentando para a nova seca que viria com a mudez das palavras esgotadas. A companhia de seu próprio reflexo é o inverso da realidade, os dias param de contar os encontros entre os corpos. Então, chega o reino das poeiras das cinzas, da poeira cósmica espelho do passado. Um ciclo um ciclo um ciclo um ciclo de palavras expelidas pelos poros cheios de terra marrom, os rastros dos pés mal contando sua história interrompida. Era o meu futuro recorrente, uma visão de um sonho enquanto levitava na casa das luzes melancólicas. Eram visões dos lugares enterrados, dos mistérios lentos, na umidade nutritiva. Quando acordei já tinha outros olhos e sentia outro gosto na boca, a cada vez enfrentava a casa e a constante busca pelos sinais, pelos símbolos dos arcos de luz, pelas vozes dos feitiços antigos.

A janela

A sensação de observar a janela do trem que percorre caminhos desconhecidos já assimilados em memórias dessas luas revoltas é como a imagem que tenho de um corpo que talvez seja o meu correndo pela natureza aberta de nenhum lugar, a pele debaixo do sol e o suor escorrendo pelas costas em contraste com o vento em movimento, rindo ou chorando até o desaparecimento do corpo, que aqui sentado perante a confusão absoluta de um instante sublima-se ao etéreo, engole-se a si mesmo numa lágrima seca que transformou a luz, o medo, a viagem, o tempo e a proximidade.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Leaves

Here we go again. I remember this moment while interrupted by a happiness that can only be seen when a color is honored on its greatness. I watch a little plant receiving a caring lash of clean water bellow a warm light crossing the horizon. These clouds dawned by a soft wind, I can remember from another bench, sat in a reverse glance, so that I could stare at a daily star illuminating such immense creatures. We come here to find lifes simplest form, a continue growing of love reflected on the leaves. It has been a while, but I can still find myself in love, for all that matters. The vivid grass roars a beautiful silence. And, now, I become a part of that.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

interrupted page

aqui é reivindicada a página pausa, que acredita-se ser para configurar a continuidade, na ausência de uma outra palavra:

agarro-me ao corpo das transformações: vou escrever para explicar todas as partes que aconteceram e trazer ao presente meu inteiro eu, perdido, camuflando-se ao fluido percurso.
a experiência será o objeto do livro. o livro será o projeto das residências. procuro as moradas donde habite o coração. a origem do trabalho é esta decisão.
[os meus pés são a minha casa e esta linha só pode ser lida quando for permitido o choro].
o que quero de meus olhos é que expliquem a luz que absorvem. quando tudo acabar, outro tudo já estará enganchado.

you can survive experiences

é o acontecimento. você estará sempre dentro
entre o mar, imenso contrário
primeira ruptura, reino das expedições.

be brave to space travel time travel through every gone second going in reverse

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

when you say you remember me from another life, i know that you are actually feeling something at the right now; we are such a huge reflection it pushes you ahead, projecting your heart, your blood and bones into the spaces occupied by a glance. your forgotten existences gets justified by your imense expansive recognition, a wisdom so deeply felt and so old it ages the moment with our crossed looks, and it makes you wanna say impossible words like forever.
lets admit how it launches us into the opening perception, an infinite mirror-travel - this window.
this possibility gets our hands to became all the hands we need on those two unique pair.

Notas del mar y otros viajes

La explosion sigue estes compasos generados por el agua infinito; los siento en los reflejos de venas y contornos del sol adentro mi piel que el inmenso abraza.
We are made of this ancient impulse, and harder we shall shout our silences in their majestic power. They carry across through our bodies and range our beats.
Esto me cuentó el mar y el abierto.


Também existe um universo submergido, de seres que compreendem outra respiração, que acompanha as correntes. Estar longe da terra e perto do mar aproxima o coração do imenso pelo batimento ritmado com os balanços desta força inapreensível. Essa mudança se dá pela reconfiguração sutil dos fluidos corporais e energias redirecionadas pelo vento. O resultado, ao vislumbre da plena possibilidade, o berço e o túmulo, que gera a consequência de, é a coragem para te dizer que o resto da minha vida me assombra, em todas as direções que se deve direito, e que tenho desconhecimento, mas que isso é abertura quando vejo a luz que sai dos seus olhos. Encarei o infinito da solidão desconhecida, e ainda assim pude encontrar a coragem para virar a água assombrosa, deixar que me batizasse, recorrer a seus braços e sentir-me contemplada para dizer de minhas vontades, num tempo arquetípico, no sorriso que dividimos, mesmo solitários e temerosos das confissões, tomando cuidado para não transformar nossas palavras em promessas. Quis ser dragada quando o mar me mostrou o ínfimo e a força que desemboca deste mistério. Mas estivemos lá juntos, estamos aqui, e estamos dizendo nossas palavras com a mesma justiça que desenvolve o sol para que o céu seja também a casa da lua. Ambos se manifestam no azul, e assim é comigo e com você quando dizemos que confiamos em quem estamos vendo, acariciando o seu rosto confio em você, desde a manifestação crua e gentil em seus batimentos.

Eu sinto o desenrolar da sua pele como desmonta agora meu peito em total entrega; enconsto-me sobre seus batimentos mesmo quando estou longe de seus dedos convidando-me a permanecer. A certeza que tenho de uma existência compartilhada perpassa estes olhos refletidos do calor, entorpecidos pela certeza da lua em sua distância exata e sua presença dentro de nós, simultaneamente, nas correntes que ditam as ondas e conduzem nossos passos desde os furiosos corações. Às majestosas imagens apreendidas e reveladas pelo olhar às sombras e contornos, como as gaivotas cortando tamanho imenso desde a sua naturalidade, eu sei desta mesma força pelo ritmo. Você é a confiança do calor e de sua vida aprendo a respeitar o mistério da gravidade como força.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Outono III

a renovação da árvore

Da perspectiva que assumi ao encontrar-me vivendo as escolhas tateadas aquém dos calos nas mãos, agora vejo este espaço com a transmutação dos temporais em água bravia do horizonte. A expansão nos olhos para as extremidades não acompanha a infinitude por caminhar. Agora estou demonstrando o legítimo desmaio ao vislumbre do que é real. As reconfigurações requerem novos preparos. Sigo coletando o material de preparo, entre experiências cristalinas ao desterritório vivo onde sou lançada, há dias e meses para trás, além dos outros fugidios do escapismo, junto ao vazamento descontrolado dos limites hominídeos frente à impossibilidade de colecionar, aqui, pertencendo a este corredio tempo, da escrita, à face da palpabilidade. O desmantelamento da pele ardendo em descamação espalhara-se comigo, e eu revolvendo junto ao mar, por sobre um cavalo submergido, empunhando a espada dos olhos vigilantes. Seguia o peito aberto e os propósitos para cada instante fantasmal - a palavra que acontece e o novo não experienciado antes, o imprevisto, que traz as notícias do bordeado.

[deve ser por este motivo que levo chuva e duendes comigo; pelo coração sempre próximo às fertilidades, ao amor pelo crescimento dos cabelos e da intimidade. você comprova, a cada embalo novo do respirar, a existência do universo].

Outono II

a renovação da árvore

Venho sentindo moverem-se as águas desde o virar das luas, o torpe giro do sol; estou submersa ao toque do raiar entre sóis e luas concomitantes. Ao deserdar o caminho de casa, onde se pode desaguar, o mecanismo elementar do ato em escolha por entregar-se ao caminhar, o descontrole desapropria-se, a todos os nomes se esquece e o caminho translúcido reaprende o respirar. Há que recordar-se do ato, e seguir por qual pisada? Aparecem aqui no papel delineadas as perguntas, o reencontro fracassado, a aparição do descaminho. A perspectiva lançada à necessária conclusão, o momento da chegada, extrapola o espelho. Não sei do que se tratam essas colocações frente ao exposto, à tempestade. Quando se espera pelo fim do precipitado, o infinito desague, sobem os raios, desviando a sensação de frescor. Por essa perspectiva, é preciso dizer, para além das sabedorias concebidas pelos sentidos. A possibilidade de dizer sempre outras coisas é o que opera em desanuviar o espaço e reconhecer o caminhar. A floresta é densa e o percurso se desconhece. Venho entrando em moradas, ao custo de um pé, movida pelas luas que viram o rio por baixo. 

Outono I

a renovação da árvore

O ar fresco que respiro para poder contar do que é real vem do grandioso vasto espaço, lá fora, desde o vácuo expansivo. O corpo orbital reconhece o ir-se aproximando, mas tateia o aberto em cada gesto. Desde o completo esvaziar nas mãos inerte, uma suspensão luminosa do tempo - aqui, onde parecem haver pés sobre a calmaria - busco relembrar o agora. Tudo dorme e o encontro ao papel consola da imensidão, abajo el cielo azul, conjurando a deusa desde o labirinto.

Nenhuma palavra pronunciada
Alcança o fundo deste coração
Que as deforma, esticando
Os limites do vislumbre.

Assustado o tempo,
Conjuro a passagem tranquila
Para um lado com sol e luz
Dos respirares uníssonos.

Escrevo para desemaranhar
As pontas dos teus olhos
Que miram a mesma lua
Recebendo o uivo da loba velha.

Assim vem o meu silêncio
Com as dobradiças ondeadas
Pela espera e o lançamento
Ao destinatário do outro lado.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Quedate Luna

relatos do mar

Apesar dos ruídos vindos das bocas e olhos que dão à areia seus caminhos, a infinitude quebra na orla e dá mover-se aos pássaros planando no espelho. Pode-se ouvir o quebrar, as águas furiosas redobrando-se em nuvens. Era um momento só com o mar o contemplar o infinito e a força do submundo, mas me sentia sozinha como consequência das presenças desconhecidas e da observação entre o bambu e o carvalho.
Existe outro lado. Isso sei. Existe presença ausente? Existe mais gente, ou menos gente?
A cada novo tijolo sinto-me só, mas não contra o mar e o céu, que contornam a distância. É o tecer por entre ambos, onde tudo precisa ser real, estar relacionado ao bombear. O carvalho, ou o bambu? 
Quem mora no mar conversa com todas as árvores quando fica em silêncio. Quem encontra-se com o som debaixo da terra, vê o murmúrio que traz o marejar de todos os lugares. Das pessoas aqui, a linguagem só responde às águas, para dizer-lhes que aguarda todas as luas (uma para cada coisa). Na chegada das luas, o mistério se desfaz e o amor pode enfim ser doado. Acontece, porém, o dia, quente e iluminado, quando surge o entendimento da aparição inevitável, que mora no espaço e reluz. Neste momento é que a lua se faz desejada e o chamado é lançado. A clarividência transforma-se em ponto magnético, o outro lado, que está lá na afirmação do mar, profundo, secreto, impetuoso.
Encontrei as criaturas da água durante a noite; apaixonei-me pelo outro lado. Deste lugar vem tudo, e com tudo é que localizo a extensão alcançada por minhas veias, fazendo correr o fim do sol, o início da espera, a capacidade de te espreitar no reflexo do além, e a vontade de nadar até lá para aprender com a imensidão.

A fluidez do retorno acontece quando a noite cede, e as estrelas dão lugar aos contornos abstratos dos montes no horizonte. Ocupam diferentes estares os níveis sutis das montanhas, que se dissolvem quando adentram às nuvens. Aqui existe um tempo que ainda não é dia, mas já abandonou a clarividência da noite: é uma pausa que não tem nome, para que dialoguem os sábios dos céus em sua linguagem sublime. Para dentro e para cima (desde debaixo para fora), o imenso, a explosão gloriosa do espaço - onde, ali, você também existe. Aí reside uma verdade, as cores estão aí também; as palavras têm poder para curar. 
O limite é o mar. Existe o outro lado, o sol virou, a lua já é outra novamente. O círculo flamejante que desvia a retidão do olhar enfim surge, como única palavra que é repetida e anuncia, por detrás da pedra, no fim do mar. Existe vida do outro lado.

Era como se o vento entrasse na casa com a força do mar bravio que me despertou essa manhã. A troca inevitável de instantes surpreende ainda quando olho a inundação translúcida. 

(Esta série de reflexos do mar contrasta rapidamente com o calor nas peles coloridas transitando pelos cantos. Passam os olhos pelos sons transformados ao longo da noite. Passa a gente e para no dia para olhar. Começa a vivificar a onda desde o centro do movimento. O estômago do mundo; daí vem a força).

Em alguma parte enterrada faz morada o medo de aceitar este momento, sua beleza insondável e a passagem da realidade. A gente que para pra ver, encontra. E leva pra casa, deixa a onda vir, inunda tudo, nota as expressões lançadas à sincera manifestação das mãos que criam por fora o caminho mesclado de dentro. Surpreender com o pungente som parece claro, direto. Estou surpreendendo junto às sutilezas, sabendo que tudo participa do mesmo lugar, e estes caminhos se completam. 

Fazer do mar casa é um movimento perigoso. Não há mais do que descaminhos nessa força que desemboca. O mar é casa em suas profundezas, quando não mais pesa a presença do abandono, só existe amplitude no âmago do mundo.

O bendizer do
Horizonte, encontro
das forças calmas,

Desagua perto
sobre os pés
Para anunciar

Que arrastará os corpos
para o fundo, onde
reside o rio

Sob a terra, a alma
do mundo, o buraco,
indundado;

Este lugar esconde
o amor, a desolação
e a entrega absoluta
ao movimento do tempo.

A maior extensão medida pelos sentidos, a fúria dos últimos três dias, filtrada pelo coração, traz ao dizer impossível, o inconcebível futuro. Passam todos os planos e meus esforços estão prontos para escapar aos pulmões em forma de grito mudo na direção de todo o vazio.
Eis a mensagem para a garrafinha lançada.

O coração e o mar fazem movimentos correlatos:
para dentro, uma profundeza inestimável.
para fora, uma força que ninguém alcança enquanto sabedoria.
Só vem o suspiro abstrato.
Trata-se de uma unidade imperiosa que acolhe e atrai tudo que ainda não participa nesta fúria.
Só os contém quem ama abertamente.
Só os que enfrentam as questões da alma.

O despertar tranquilo respirando todas as células acontece desde a água e aí desemboca quando o coração fica suspirando. As memórias ficam então abertas à construção para afirmar que existimos todos juntos. Cada onda que volta, já vem de outro lugar, transformada pela inteireza do porvir.
Ficam pegadas no úmido do chão. E outra vez existe o perigo no desejoso espírito.

O antigo com o novo num retrato que ainda não se pode ver. Está no filme enrolado dentro dos olhos, compreendendo os relatos do mar à toda profundidade. Agora só se pode dizer do movimento das estrelas e que, na falta de morada, há o mar para hospedar os movimentos que rebentam sem que os esperemos. Há a mãe da alma para cuidar da paciência necessária ao encarar a impressionante existência. Este aprendizado, de compreender a casa em movimento, abre um espaço no centro do corpo para que circule o ar. Demanda troca incessante, respirar com o meio desimpedido, aceitar a despedida. Compreender o retorno serve para cumprir um destino do coração. Não há como impedir o contínuo bater e o desaguar. É necessário receber o que vem do profundo mar. I dont have a choice, bu I still choose you.

Eu escolho recebê-lo feliz e grata, ciente da força arrebatadora, ciente da transformação irrevogável. Não existe reviver, só traço, seus desenhos do rosto que não formam imagem são feito sonhos, dando sinais ilegíveis, tornando realidade um caminho ao revés.

Alto, alto, alto estou só, sentindo esta linha invisível de extensão infinita. Não importa aonde estivermos pisando. Estou  no ar e te sinto presença  real, porque a lua fica, e o mar é a única realidade inquestionável.

A lua revoga a claridade para abrir o despenhadeiro da terra e o encontro com a sombra vislumbrada. A penumbra nebulosa convida para dentro o desenrolar deste destino.



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

trajeto 1

Pelo princípio do desvelar contínuo ao território, permaneço escrevendo cartas desde o dilúvio, expandindo à continuidade a morada de nosso contato, pelos átomos que se abraçam, até o dia em que se azulear a borda do horizonte. Compadeci ao lembrar-me que, deste anterior, já contemplavam nereides da descoberta, e já revolvia a terra desde o amálgama do âmbar. Surgiram faíscas no formato do céu por entre a chuva refletida nas lagoas de cristais, no meio de uma árvore atravessada, e revelou-se a flor do apaixonado, dissolvida por tons azularroxeados em verde sagrado. O corpo resplandeceu para sua manifestação e quis colher das pedras seus fungos, um por um, enquanto eu concebia a paciência exercitada em nossas distâncias e crenças por sobre a realidade processual do movimento. Permaneço escrevendo para que permaneças espiral, e re-gire a participação nos trajetos do vento, nesses dias tomados pelo humor das folhas, por entre nós e tantas noites afirmando a vinda do sol. Na coragem do mergulho, sendo por dentro à água da porta aberta, esses raios trouxeram a graça do respirar em constante decisão ao convite de escrever-te. A travessia para o próximo momento veio com a cura do choque térmico, e registrei minha presença inteira em meio à confusão expansiva do espaço. Cantou conosco uma arara colorida de atmosfera, no topo do ar - um sonido pungente do céu à primeira comunicação para que descessem os raios do leque da mãe, iluminando o que se pode ver. Com o rugido anunciado pela torrente-que-cai, ao nosso vento liberto, corremos ao encontro de abrigo enquanto choram os que necessitam e circulam os lençóis que nos alimentam. Segui passo pelos lares que surgiram, certificando-me de cuidar da liberdade desenvolvida em nossa linguagem, que nunca soube dizer o que éramos. Quando o sol ressurgiu, segui e, agora, com esse presságio, escrevo isenta de necessidades, mas no poder de meus quereres, movendo-me demoradamente até você, só para, no meio do caminho, percorrer a todo o universo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

flores

Hay desajustado espacio en mi corazón,
aumenta y diminuye con
el espacio del tiempo
si me quedo lejos de mi casa,
ese cuerpo solemne que a todas las cosas quiere contestar,
como al sol que se muestra para hacer claro
todo el camino desde que llegue a este suelo rico y capaz.

Estoy escapando de las palabras desconocidas
asi que me siguen todos los dias
y los trazos de rostros
en mis sueños más reales que todas las memorias combinadas a las ganas en las vísceras
de ver esta gente esta ciudad llena de amor
y estranhamento, porque no conozco las
palabras que ahora diseño
y aventurome por un territorio con aspecto de abrazos y palabras deformes.

La mixtura de colores por las arboles en la primavera son
el alimento de una descubierta
del vacio y del lleno
cuando me recuerdo que la realidad es mi vida
y que los encuentros se pasan para que no me olvides
donde estube
en los descaminos ensiñando
la fragilidad de mi casa aqui y ahora.

(quis proteger minhas memórias quando tranquilizei-me nas possibilidades das novas terras serem anêmicas e vazias. era improvável que às afecções não fechasse a garganta para uma ruga na testa e choro sem lágrimas. lugares por onde nunca se pisou são solos inesperados, embora de loucura antevista, com o presságio daquilo que vem desconhecido, e se supõe desmerecido, não iniciado. todo caminho que se pisa é solitário, só há certeza no solo revolto, que evolui a novos buracos, cada vez, atingindo uma instância de movimento, desde a vida, os fluxos por dentro, líquidos corporais e lençóis de terra, abundância de descontrole, parto amanhecido, desdobramento para outro tempo).

Me quede muy apasionada con mi partida. No puedo mirar mis ridiculas palabras en castellano, pero me importa mirar a las calles y ver como todo me recuerda el tiempo, mi casa sobre los pies, y que ya extraño a esa rara lengua, la riqueza de sus personas, los edificios y marcas en sus ruínas, como me siento tan vieja volviendo al caos de esa existencia unica, que por mil motivos nos muestra encuentros, muchas gracias, y, por supuesto, tanto tanto amor. Hay mucha felicidad donde esta su corazón. No te olvides las luces, las calles, las plazas, el viento, los nombres que tienen las cosas, como llaman los espacios, el color del sol, aquellos ojos, todo que probastes, las sequencias, el cariño, los nuevos amigos, los pajaros que cantan siempre, cada esquina, los confrontos, el extraño, su suerte, los libros, el suelo y el olor. No te olvides de tu soledad cuando recordar todo lo que tocastes, pero también no te olvides del movimiento inevitable, en su cuerpo, en todo afuera, porque ahora tienes más trazos, más historia y más coraje.


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

seca pt 1


equinócio de primavera: súplicas

[sabia que havia esperando ao longo de toda esta vida durante as delongas dos mesmos tempos infinitos que ressoaram baixo à medida que me lembrava
os espaçados sons reverberavam para todos os instantes até aqui, a oportunidade irremediável para onde desaguam todas as escolhas desde o anterior nascimento, que já então vislumbravam essas palavras, desatolando-me às tantas experiências de quando pude antever a terra já acontecida, os acidentes sempre já soando ao limite pelo movimento ininterrupto dessas mesmas palavras já antes muito muito antes para sempre reescritas e rearranjadas novas outras, por mim, frente à extensão do som
que à gaguejante potência não se faça só ode pelo pensamento da linguagem que se constrói sabedoria, mas ao descontrole pela compreensão, o traço pelo traço, os movimentos estendidos dos dedos sobre a pele os olhos frente aos quais o sentido falha em acessar este segredo de abismo, mas ao qual se percebe diante do compartilhar, já que não posso existir isenta ao grito que urra desde o primeiro alambique, pelos olhos
o furioso desaguar desimpedido horrorizado pelo instante submerso às entranhas atravessando-se para expulsar o acúmulo do aumento pela desintegração que não cabe ao que solidifica inteiro desvio de propósito à totalidade
estas palavras esvaziando-se para que nunca morram, desde o toque apaixonado pela descoberta
desde o vislumbre pela destruição da necessidade à verossimilhança enrugada, um sopro de ar ou silêncio por entre os acordes, uma direção aberta, tantas mãos, e o que se faz, pelo que se é
frente ao incomensurável desdobrar desta envergadura, no solo, nos entres, entranhas aparecidas pelo contemplativo agradecer, renascido pelos segundos triturados em distensão
desde todas as medidas desmentidas pela verdade escorrendo veredas
porque sim].

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Navio

Duzentos dias no barco. Nesses tempos, arrastei minha âncora pelo alto-mar que perdurava em todas as direções e desconfigurava os limites quando o sol movia cada milímetro na expectativa de chegar ao outro lado, por detrás à imensa aguidão, adormecendo o calor e despertando as criaturas vicejantes do imaginário, os monstros cujos olhos estupram o medo. As bravias águas continuaram existindo amplo, para destruir os vestígios do tempo, espaçando-o entre afogamentos e respostas a cartas que não eram para mim. Abandonei a terra sobre o lugar anterior para subverter este território que não cabe o meu corpo. Passaram-se todos os dias necessários entre a tempestade e o silêncio do que renega a coragem, dada à imensidão inconsolável frente à pequenez dos membros e das mentiras. A água esmagadora repetia a constância do infinito e minha invisibilidade, de corpo livre. Fui visitada por anjos espelhados no céu, que colidia com o horizonte para liquefazer-me parte indispensável, nos dias em que pude pacificamente derreter os sonhos da noite em balouçante consciência. Ao navegante que sobrevive, porém, há inevitável aparição das desconhecidas terras, que arrancam a esta inundação. O naufrágio não durou mais que duzentos dias, desde que saí sozinha e queimei aquilo que ficou. Avistando, ao longe, respirares descompassados, doses cavalares de palavra, cores além-azul e chuva, percebo-me deixando o deserto à medida que se aproximam, agitando as mãos antes do fôlego, despedindo-me do mar todo por dentro para penetrar novamente o subterrâneo, quando meus pés o tocarem. O horror do último suspiro para que o ar divida-se em milhares de respirações assombra-me, que me encaro neste limiar reflexo do infinito, há duzentos dias, para lembrar-me novamente. A abundância da terra envolve seus desperdícios, e a pouca atenção não vale para quem deseja se perder. O instante inteiro é o mar, e a terra é feita de caminhos. Lá, precisarei escrever de novo a outros ninguéns e suportar o peso do desdizer. É de destino pisar no chão e estranhar o pé que afunda devagar. Adeus casa flutuante, estômago do mundo, a terra que chega está me pedindo para descer à superfície. Assim que a chuva cair, no primeiro dia, profetiza-se que o barco colidirá com o concreto, à falsa segurança, para que eu encoste o rosto ao chão, de novo, e ouça, nos passos e mudanças, o coração que bate desde o centro do peito, o magma por debaixo do solo, as palavras em gestação, por dizer, vulcanizadas de um jeito ou de outro, para compreender, naquele ato, a importância do que vou encontrar. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

foi este encerramento, a que me tomaram
os caminhos longos por seguir?

seria esta súbita compreensão um aceitar
da beleza e seus descaminhos?

os círculos entremeiados à rede expansiva
expulsam lenta cinza ao desenrolar minucioso?

veios da voz expostos
ao pulso sutil, o peso necessário
para pertencer ao outro,
e ele, que te fita?

toque restando às descobertas recontínuas?