o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Dreambook

Era amplo e claro. Havia, ao redor, em estado de guarda do espaço, uma natureza firme, alta, caminhando em direção aos céus e cerceando o berço subterrâneo, pelos arredores contínuo. Nas proximidades da percepção, fundo fora, um pouco para as bordas do coração, erguia-se uma estrutura limpa, elementar, com madeiras simples e rígidas - uma casa aberta. Um terraço preenchido e vazado subsubia às nuvens. O azuléu amoroso convidava à luz para a sacada. Andando em direção a ela, eu seguida de mim que me observo, dou-me a sentir que estava em família, porque a convoquei e ela comigo, onde, na beira, abaixo havia água. As bases da estrutura repousavam sobre um verde camuflado por detrás da lente. Mas, aos olhos enraiarados, no vislumbre do recostar-se à frente, estávamos dentro de casa, acercando-nos, por meus dedos plenos, do mar, do rio embaixo do rio, os nossos vínculos profundos.


Ergueu-se, por sobre ramagens desconhecidas, o interior de um edifício vertical, vertido para cima. Dentro era estreito, uma composição de cômodos pontuais, cada qual à sua maneira acolhedor, e de escadas construídas à maneira de possibilitar passagens interseccionadas. Nós nos reuníamos quando retornávamos à casa para compartilhar o descanso. Não havia como dizer de onde morávamos, porque isso não importava. À noite vínhamos curar-nos, estar presentes como entrega a estes conhecimentos nossos. Tetos e intervenções suportavam os múltiplos espasmos, a inquietação do expansivo em nós. Dizíamos livres, porque queríamos responder ao outro inteiro. Nosso espaço nos devenia. Era dentro de nós, um e os outros comigo, vozes vivenciadas como as vivencia o universo, e ali era todo o mundo, até que acabasse. 


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

trajeto 1

Pelo princípio do desvelar contínuo ao território, permaneço escrevendo cartas desde o dilúvio, expandindo à continuidade a morada de nosso contato, pelos átomos que se abraçam, até o dia em que se azulear a borda do horizonte. Compadeci ao lembrar-me que, deste anterior, já contemplavam nereides da descoberta, e já revolvia a terra desde o amálgama do âmbar. Surgiram faíscas no formato do céu por entre a chuva refletida nas lagoas de cristais, no meio de uma árvore atravessada, e revelou-se a flor do apaixonado, dissolvida por tons azularroxeados em verde sagrado. O corpo resplandeceu para sua manifestação e quis colher das pedras seus fungos, um por um, enquanto eu concebia a paciência exercitada em nossas distâncias e crenças por sobre a realidade processual do movimento. Permaneço escrevendo para que permaneças espiral, e re-gire a participação nos trajetos do vento, nesses dias tomados pelo humor das folhas, por entre nós e tantas noites afirmando a vinda do sol. Na coragem do mergulho, sendo por dentro à água da porta aberta, esses raios trouxeram a graça do respirar em constante decisão ao convite de escrever-te. A travessia para o próximo momento veio com a cura do choque térmico, e registrei minha presença inteira em meio à confusão expansiva do espaço. Cantou conosco uma arara colorida de atmosfera, no topo do ar - um sonido pungente do céu à primeira comunicação para que descessem os raios do leque da mãe, iluminando o que se pode ver. Com o rugido anunciado pela torrente-que-cai, ao nosso vento liberto, corremos ao encontro de abrigo enquanto choram os que necessitam e circulam os lençóis que nos alimentam. Segui passo pelos lares que surgiram, certificando-me de cuidar da liberdade desenvolvida em nossa linguagem, que nunca soube dizer o que éramos. Quando o sol ressurgiu, segui e, agora, com esse presságio, escrevo isenta de necessidades, mas no poder de meus quereres, movendo-me demoradamente até você, só para, no meio do caminho, percorrer a todo o universo.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

foi este encerramento, a que me tomaram
os caminhos longos por seguir?

seria esta súbita compreensão um aceitar
da beleza e seus descaminhos?

os círculos entremeiados à rede expansiva
expulsam lenta cinza ao desenrolar minucioso?

veios da voz expostos
ao pulso sutil, o peso necessário
para pertencer ao outro,
e ele, que te fita?

toque restando às descobertas recontínuas?

quarta-feira, 30 de abril de 2014

round and round and round

[right now it flows into mind something related to that girl with really big beautiful red hair and that handsome man who once touched my guitar, and i was playing like i meant it, the sounds and words just sliping out overcoming language because right now i feel like my fingers and this ink over white paper are creating something out of thin air just expanding all of us that were already existing together because this love can never leave us, it's inside of us. and growing.]

A luta

Quando aquele momento a momento
Me escolheu
Descumpri a segurança do sentido
E atentei-me ao horizonte nestes olhos.

Devagar,
Transmutante o traço
Se pondo por-trás
À Irmã-Cinza da Sabedoria.

E esta pausa precisa
Reencontrou o criador
Que disse: vá embora,
Realize sua passagem.

Entardecendo às cores
Pôs-se o tempo
Concluindo aqui
E agora.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

nossa existência

[escritos destroçados com o tempo, abril de 2014]


quando a pele esfria por baixo dos caminhos ensolarados, necessita-se pausas dentre ruas, uma esquina que te encontra frente ao desespero enérgico gerado pelos sons dos raios, luzes mal acostumadas, pobres de gente, abandonadas desde a infância. os olhos semicerrados erguidos para o teto de toda fraqueza embebida, filtrando cores em branco-caído, poros desempedidos, boca sentido gosto de peças desencaixadas e a sinceridade emergindo nos rostos aos poucos avermelhando-se. o instante de carinho doado por existir este corpo de gente em traço no dia em que se escolhe o afeto, a luz transfigurada, mãos dadas com o vento.


[francis, há muito vejo o vento e é inteiro, todo entre-dedos, entre sorrisos e cada singelo ser no momento do sorrir me toca em cheio antes de dormir. e penso em ti, azul, vermelho sangue, amarelo olhar em corpo fundido invisível no querer sempre resposta e peso de dor. estou aqui. estou aqui vendo tanta lua por entre esses cabelos desalinhados, por passos desejosos de caminhos tantos e descaminhos mais que nos cruzam e não nos repartem, porque nossos fragmentos já se são. esse carinho nascido desde a vida nos constrói células braços e pernas socorrendo-se. meu coração dói e agradece.]

tanto descaminho desconstrói nosso abandono
nossa liberdade pertence a estas mãos


devo libertar esta figura de minha lembrança para permitir fluidez ao transformar ininterrupto. devo aceitar cada passagem de tempo aos longos dias fatídicos e permitir-me o esquecimento às tuas distantes palavras transparentes, felizes, silenciosas. devo dissolver o rosto nesta imagem concreta aqui há dois palmos gritando e negligenciando tua viva sensação.


e quando percebo tua iminente partida todo suspiro já é, memória; a loucura desta meia-vida sonhada, por jovem toque, fino aos dedos docemente empenhados a encontrar-te, semi-luz, horas poucas, instantes amedrontados. já passou por mim o distante rosto de voz e caminhar a passos pés livres e em verdade. deixou-me tranquilamente, confortável por esvaziar a presença, transformar escorre-tempo pela abertura deste rio que me atravessava. sentirei saudade quando lembrar-me que, ali, podia deitar a cabeça naquele peito desconhecido, para então recuperar o espírito viajante, víscera que não cessa de sufocar; ainda assim, não o fazia, tinha medo do meu corpo movendo-se para fora, receio de assustar arrepio, por afeto, querendo estar perto, mas longe ao momento da despedida, terminada nesta mesma pequena carta que você me entregava às pressas, não querendo-me olhar o rosto infeliz, tremendo de acontecimento, sem fé, para nunca mais observar carinhosamente tua consistência. assim o resto aparecia nesta parte fria, oca, mesmo quando gritava com os outros membros, e mesmo com tuas cautelosas manifestações de bem-querer. life goes on for all the daytrippers. 

then, seatted with your eyes hurting, you hear this ancient song, coming through your left ear and pulling down the feeling of walking alone and loving the lost. when a scream rises, you hear a new instrument and a familiar voice. and that keeps on coming 'till you have no choice but to fell in love with the moment and pretend you can't see the hearts of ghosts. 

espero verte pronto,




terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Chamado

A pausa estampada
Em branco, clareza, embalo
Chama ao instante memorial
Amassado, destituído
Que arranca pulso
E faz crer.

Nossas quentes neves
De sol acompanham nascimento
A cada troca de sangue com o vento.

Desperdício de presença
Violenta a voz do carvalho
E eis que as loucas batem à porta.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

the beginning

ancient animals sometimes scare those who can't pay enough attention to their steps. these animals are strong because they urge a wisdom that comes from the movements of the earth. they are pure instinct, senses, and act according to their deep eyes and expansive souls. they are not sweet and receptive, but hard to reach and even harder to face. although, once you are in front of them, you are captive, you realize their oppening, and you are confronted with a feeling of life and death's relevance. you will never be the same. everything will be destroyed, fluxes will turn upside down, and what you thought you understood will turn into chaos. you will be called to deal with your own fragilities. of course, you can take a chance and run away. be back on a ground that appears to be quiet and safe. but, once you decide to stay, moved by the incredible amount of life carried out by it's breaths, you feel calm, and suddenly able to comprehend silence. you feel humble, with a sudden disposition to learn, and recognize the independence of changes, along with your own capacities of choice. you start to see yourself as a moving body, that integrates nature within every single step, that is pure change, pure matter combined beautifully and not randomly into that person that you are. and, from that day on, meetings will no longer be in vain, because the amount of life you recognized on the wild animal as belonging, also, to yourself, you rage out from everywhere, from everything that exists, as movement, possibilities, chaos, changing matter, responsability of choice and universal knowledge. you will no longer waste meetings, you will feel a deep power to fight for them, just because they happened, and, specially, you will be forever brave as it turns to facing your own fears and not letting them be mistreated, as strangers, or locked up into a small box. 



so... are you gonna face and learn, or are you gonna run into an apathy abyss?

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A antiga psique

O tempo parece absoluto. Às vezes, da janela, entra a sensação de um cheiro distante. Meus caminhos, pelas ruas desertas, distanciam-se das pessoas daqui, que estes passos não pertencem a meus pés. Quando tomada de um novo dia, respiro rarefeito ar, transpasso portões enferrujados e busco nos papeis antigos, escondidos em prateleiras altas, a poeira que modifica meu presente.
Neste dia, algo aconteceu. Um cruzamento de esquina tomou conta daquele segundo destrutivo, que adentrou o domínio de minhas pernas. Então, seguido do limite à branquidão, expus-me ao esquecimento deste mundo para a lembrança de um outro, pertencente ao cumprimento de meus dedos, enraizando-me em sopro de origem.

Era tarde da noite quando fui deitar-me, mais a pedidos deste forte corpo enfraquecido por violência atmosférica que de sonolência propriamente. Na verdade, não havia necessidade de sono. O que havia, em minhas vísceras, era uma estranheza diferente, que nunca havia sentido, mas que parecia natural, à maneira daquilo que acontece porque deve acontecer. Removi meus sapatos apertados, o sutiã desnecessário, e deitei-me esticada, encarando o teto, na tentativa de atentar-me aos sons de natureza que havia colocado pra tocar no aparelho fechando a esquina de meu quarto. Durante a madrugada, transitei entre alfa e vigília, dormi com um dos olhos abertos, mas permaneci imóvel, pregada ao colchão. Num específico momento – não posso dizer quando tudo começou – a pele de meu corpo esparramou-se pelos lençóis, escorreu no chão da casa, esgueirou-se por debaixo das frestas e ganhou a rua. Lá fora, já pertencida ao asfalto, notei que o tempo do mundo não mais estava preso às horas das semanas, ou aos meses do ano. Agora, tudo funcionava numa amplitude fantasmagórica, e a nitidez corpórea daqueles que passeavam pela cidade tomava força. Enquanto rastejava, eu percebia as pessoas pelo ângulo mais baixo, seus narizes farejando odores atraentes, seus queixos erguendo-se para acanhar os demais, numa tentativa de impor espaço para desenvolver a própria sobrevivência. As articulações dos corpos ao redor comportavam-se de modo esdrúxulo, virando do avesso sempre que estimuladas. E eu, assustada, mas embriagada por uma sabedoria misteriosa, não era capaz de retornar. Foi então que tomei consciência muscular, por trás do glóbulo do olho, de que não deveria retornar, mas seguir adiante. E acordei, as cinco e quarenta e dois, enrijecida, coberta de dores.
Segui atordoada pelo restante da semana. Noites como essa tornaram a repetir-se, a cada possível descanso. Atreladas à causalidade, transferiram-se para a vida acordada, e passei a enxergar com os pelos que me cobriam. Já não era capaz de encontrar-me em paz. Mesmo quando longe daqueles que me indagavam a percepção aparentemente vaga, as profundas olheiras, e o cheiro de transformação, eu sabia que, paralelamente aos monumentos que me cercavam, havia outra coisa. Mais perto de mim, grudada às minhas mãos, por trás de meus ouvidos, agregada à minha pessoa, inerente a esta passagem, dentro em minhas vísceras. Os membros amputados começaram a aparecer, e eu a sentir-lhes ausência – em mim, nos outros, nos postes, nas vias e nos domingos. Certa monstruosidade rugia. Eu não podia escapar a ela; e, para ser sincera, não parecia querer. Um senso de veracidade apoderou-se de minha alma no minuto em que soltaram os tigres. Notei que já não era tempo de conservá-los enjaulados.
Estava frio. Encontrava-me nas ruas não podia medir a quanto. O tempo deslocava-se furioso, atropelando-me os passos. As ondas de um inexistente mar arrebatavam-se. Estava frio, o vento cortava, eu seguia. No entanto, nada disso era suficiente à minha lucidez. Germinando, a caça me impulsionava. Eu sabia que estava participando de um longuíssimo nascimento. Então, agredida de uma vitalidade desmedida, corri, seguindo devir-destino, em busca do perdido, inteiramente envolvida, desde o osso, nesta missão antiga que havia me encontrado. Precisamente, ocorreu. Sei, pois jamais fui enganada por minhas lembranças. Um cruzamento de esquina tomou conta daquele segundo destrutivo, que adentrou o domínio de minhas pernas.
Adanna. Mulher. Trinta e três anos. Traumatismo cervical. Mil novecentos e noventa e seis. Cinco e quarenta e dois. As vozes brancas continuavam dizendo essas palavras. Eu estava acordada, como nas últimas semanas. Porém, havia um deslocamento irreparável de minha solidez em ruína. Não sabia se estava deitada, esticada encarando o teto, ou se conseguia me mover, rastejando por entre a selvageria. Não sabia se estava morta. Permaneci ali décadas contadas para trás, esburacada, vazia, apática e insone. A catástrofe era iminente ao apito em minha consciência, mas nada podia ser feito para que mudássemos de passado. Na escuridão, porém, pela primeira vez, da janela entrou a sensação de um cheiro distante.
Desprovida de corpo, vi fiapos de luz e cor. As ondas festejavam a epidemia, as casas moviam-se em agitação febril, e uma mulher urrava na concepção de um milagre. Notei que seus gritos saiam de minha garganta, e que seu rosto me era espelho. A atmosfera turva que me cercava urgia desespero, mas não havia a escolha de ceder. Ali, tratava-se da escolha por ambos a criação e o sacrifício. Estava quente, embora os raios anunciassem uma tempestade, pois o ar mortificante comprimia-me o fôlego. Uma forte pressão sanguínea violentava-me o coração a cada segundo. No entanto, a criança que viria dependia de minha responsabilidade por respirar. O esforço por manter o oxigênio fluindo progredia com forças extraordinárias. Ao redor, muitos eram mortos para que outros sucedessem à vida. Naquele instante, porém, apenas uma vida me interessava. E minha missão era fazê-la acontecer.
Sozinha, nascia uma criança em meio à destruição. A visão, então, de mim mesma, embaçou-se ensanguentada, e eu, estendendo o frágil e novo corpo, disse a um homem que devia estar ali: Leve-a para o barco e chame-a Olga. Com um longo suspiro de espanto, segui à consciência e eu logo soube onde me encontrava. Olga era o nome de minha mãe, e eu estava no hospital para aprender as consequências da minha história.
Logo fui exposta à liberdade. Agora, movia-me com o auxílio de rodas. Os papeis guardados tornaram-se meus companheiros, e não demorou até que eu pudesse compreender. Barbados, mil novecentos e trinta, o mundo acabava para aquela gente e começava para quem me trouxe a ele. Antes, eu não podia valorizar o trabalho dos antepassados. Agora, sentada infinitamente para observar com mais atenção, contemplo os documentos envelhecidos, que sussurram: sua importância, feito a minha, depende da importância reconhecida nos olhos dos condenados.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

um

Atrás das cortinas vislumbro um nome. Esse nome é desprovido de história, cuja inteira ancestralidade provém dos ossos e células mortas que iluminam o céu. Para os ausentes, agora transfigura em instante solto o que vem ao corpo como pedra memorial, estátua, projeção do desejado. Suspiro. E o sopro move os membros para sua suficiência. Trata-se do que se basta enquanto múltiplo vulnerável, por destruir ao solo, concretude, e aprofundar encontros para deles jorrar, empatia, rosto, buraco aberto e seguro de toda dor, mão no peito, arrebate à pele com fios azuis. Esse é meu coração aberto. E a inquietação ao triste perceber desviares me serve para dizer – aquele único nome. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

despedida

O retrato que me afasta é aquele do contato com o espelhado de uma flor-de-maracujá, aquele que relembra o movimento sutil dos pés e o peso do chão que o confronta. Para além do olhar-se, mas o tato da própria pele, retorna ressurge como ínfima parte ou gota escorrendo pelo espaço. Meu ato de observação escolhe uma e torce pra que ela vença a corrida pelos vidros que repartem o quente do frio. Quanto tua casa é grande demais, com paredes e piso e teto de madeira, algumas brechas por debaixo, fechaduras complexas, a tempestade que ameaça invadir aterroriza os membros para que trabalhem, e o esforço resguardará a casa. Não se trata de uma escolha; falo aqui de sobrevivência. As partes frágeis e instintivas, os animais menores e os maiores, têm um cômodo central transparente e de única entrada. O tempo se esvai sempre na iminência do porvir, a grande água que lavará todas as coisas, queira tu apegar-se a elas ou não, pois não há critério. Cada agora insistente em permanecer torna-se epifânico quando os olhos refletem a importância de todas as coisas, morrentes, mas ainda respirando. Passa-se a encarar a casa, esburacando para a abertura de cada gesto, em estático tremer-se, à medida que cada detalhe merece olhadelas aprendidas de cor. A violência depende do limite entre a invasão e o cuidado com os seres frágeis. Encontrar-se em transbordância, para esvaziar-se de si e dar lugar ao novo, na manhã seguinte os raios solares penetrarão a casa pelos lamentos da destruição, para aos poucos secar o ambiente. Todas as coisas terão cheiro de umidade e calor, mesmo a madeira podre que segurava o chão longe do despenhadeiro. Será, então, natural respirar, e mover-se pela casa desconfigurada, sentindo sua organicidade, sem preocupar-se com o momento de reconstruí-la. O silêncio ressoará metálico pelos cantos alagados e a luz inevitável. E teu corpo, então, participando do momento complacente pós-morte, oco, rasga-se desde o entre, para ser novamente invadido, já prevendo antes mesmo de ao começo dar-se início, a vinda do perigoso futuro. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Toda gente mexe o traço.
toda parte movente,
feito caminho repartido
feito aquele que chega
para desmentir tormento,
desmentir falso inventar
antigo pulso em mãos,
compasso repartido,
múltipla onda.
sim.

Testemunho secular
de membro sorvente
com água gélida
e frio ar

Toda a gente
todo o entre
expurgar.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

parceria com João Foti



parceria com João Foti
O arregalo tormento 
no estar;
a árvore tinha galhos,
tinha
a árvore já
de mil galhos
- não se vê o sol,
galhos, nenhuns.

Nenhuns lugares além
descaminho arvorear
troncos, partes
cedendo rente...

es-
pec-
tral, tral, trrrrrr: diz o sol
por
detrás
da seiva -
imagem minha
em teus olhares -

em dentro salivar espectro
luminoso - veios, veias
corrente, ponto
onde ver precipício
ali-de-si, que limite
expurga?

E, de
repente, um
círculo de almas,
um -----------

és,
e sou,
como ontem,
ontem de ontem,
apenas... ontem.

Um próximo
sussurro?

A voz dilacerou certeza
nos tijolos de teu peito,
e pó, nos tormentos,
pó de luz à brisa:
perdão.

Necessidade
aqui ----------
de pernas per-fazer
traço, ruído
delicado perigo

(sus-
surramos
a noite, em nós)

ver

pouco desencontro
fugidio de outro
sim.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Do nascimento

(Biografia, parte 1)

Os caramujos dos cabelos vieram em inconstante ventania de fim de tarde, quando todas as coisas viram luz. Não há olhos com mais miudezas infinitas que estes olhos nascidos do buraco do mar, onde há terra solta e os bichos se escondem. O sorriso doce comporta palavras ditas em segredo, explosivas pelo caminho natural destes pés. Ela é filha de sereia mitológica com mago dissolvido, e existe por todos os lugares. Todos os sentidos do mundo remetem a seu abismo, aberto e invisível pela altura do peito, de onde brotam os eternos cordões tangíveis.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Pés

Essa luz que me serve bem, torneando por trás de nuvens sombreadas, agride a escuridão destes traços. Pontos de luz balouçantes por sobre o ar, dentre troncos e verdências, em manifestação singela da destruição, das cinzas emotivas por cada mover. Não é assim que confesso essas sombras, não posso esquecer esses traços no céu acinzentado, de azul fosco inflamado luz reprimida, contida no pano que encobre. O desenho destes galhos relembra o retorno, de coração, o dolorido caminho dos pés, perto daquele outro que me sorri-resposta. A qualquer momento as nuvens que não posso ver, por sobre as estrelas, por trás da minha cabeça, o fogo azuleante negociará o calor.
Da forma que o fizer, não o faça, o buraco dos meus olhos segue o fim da luz por sobre o pano, por trás do ouvido, que não quero te dizer, por causa da minha dor, isso é dolorido, eu confesso a você.
Quero concretizar para o fim, com este instante, a dor nesta pele e não mais no céu, a permissão do calor, do rastro que o fogo toma por dentro dos seres quietos. Escolhe ser frio, azuleante em morte daquele que se deteriora nessas vozes familiares, cai pelas pedras e desmaia, nunca mais.
Os detalhes de cada entre, em sua singularidade explosiva, não cabem ao infinito olhar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Branco

O movimento por preencher o céu
é eterno
branco-pérola as gotas d'água nunca se são,
mas ao azul de líquida forma.

Cada piscar é um risco
que a sutileza do caminhar
como trago devagar e constante
não deixa vestígios do passado.

O instante
é a coisa ela mesma
em sua memória, com a origem do Mundo
de chuvas e destruição.

A nuvem se dissolve, então,
em invisível motivo de vida
para ser com as partes primordiais
o dia
e o retorno.

sábado, 18 de agosto de 2012

De oito a treze

1. Embaixo da terra foi quando o mundo se percebeu quadrado, devagar, em força de coisa dura. Não foi diferente que senti os pés pelas mãos, fora de presença, mas tomados por olhos vermelhos. Sua existência em maciez me acalenta apenas a verdade do corpo, pra desorientar o vazio da destruição. Não foi da voz do outro lado da vida que surgiu nuvem, que veio raio de sol para curar a cabeça. Foi, ao contrário, aqui nos dedos firmes como vontade única que flor desabrochou para vulcão consumado em cor. As coisas doces vêm em cheiro, por ar desinibido, mas montanha não caminha à toa. É abaixada e sem pressa, para não mover o chão. O tempo só passa quando o vento aparece, mas disso se sabe. Certas luzes brancas devem ser apagadas, qual desapego em sonho, movendo poeira.

2. Não escondo a palma do pé de monstro que mora em umbigo. Cada folha perdida já foi embora com o vento de agosto, como se os planetas se alinhassem por dentro, em nós, tomando espaço. Há algo no tempo que concentra certeza de vida, feito fio, como que conduz tinta, que tem corpo, surge, feito acontecimento em ação, em movimento, no simples passo, construção desolada, ruínas, noite escura, mas estrelas. Palpitar, mesmo tremido, mesmo sem ver, mesmo descalço, correndo, com tempo no rosto, em rugas, de dia, sorrindo feito tartaruga, mas de verdade, sutil, em presença, de carne e osso e cor e som e voz, dá pra pegar, é invisível, devir-existe. Não é um sonho. Os braços são fortes, os olhos gentis, a pedra é cristal, café forte, mão trêmula, gente derretida, nariz repartido, como observação de velhinho se olhando no espelho. Dorme, pequena. Isso aqui é poeira do céu. Ninguém vai te atrapalhar, porque eu não deixo. Tenho em mim, pra ti. No sangue. Na íris. Porque se tudo não desfosse, não haveria pele. Se não jorrasse movimento, não haveria pausa.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Del Rey de Pororoca

Era onde sono e natureza arranhavam pra despertar e som só vinha com miado de gatinho. Neste tempo, menino se alimentava em preguiça e todo cheiro era de folha amassada. Por lá só se chegava quando pássaro tirava furta-amor do bolso e canela com cravo sabiam esquentar. O caminho já bordava vestígios do vento em aparições do grotesco.
De passos vagarosos por amanhecidos, o longo descampado de poeira e gente desenrolava-se para a entrada. A atmosfera rangia de desconhecido, atiçava menino dormente. Por todo lado os olhos vagavam de mentira, pra inusitar quem observava, de tanto procurar em-cacho. E os sorrisos espectantes eram por surpresos da quantidade de beleza acidental.
A vida ia passando devagar, e a compreensão atingindo o nível das tripas. No cangaço de Macondo é que se achava gente chorosa, apertando o peito com fulgor, feito canção que tomava conta dos miolos. Os envelhecidos de juventude desapareciam como rei, mas os embriagados de coração é que sabiam parabenizar com verdade. Profeta de mãos pra cima predizia o caso do bonitão e a princesa, e a dona do puteiro dançava com o cafajeste afeminado por companhia da noite. Era mistura de dor com complacência, o rosto do dono das cordas. E o rebolado sincero de quem anunciava sentimento levava a multidão ao ensurdecer do grito.
Na tonteira do vai-e-vem, os oito anos do menino auto-explicaram um quarteirão pra quem não tomava banho e xingaram todas as palavras grandes capazes de seus ossinhos. Com título verídico de embriaguez, as moças tornaram o sabido da rua ex-sabichão e foi-se embora a história de Pororoca. 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Acidente de cor desgovernada em palavra passageira

(Parceria de Fanfarrão, Ilhabella e o lápis mágico)

Maracujá escorregou
Inefável bate asco
Bradando girafas
Saculejo de coco
Arrasta o silêncio.

Chute de ser
Dói devir,
Ir.

Naturalmente eu,
Nós,
Nunca tu.

Lhes

Mas vosso,
Aquele ou aquilo,
Perene nosso,
Constante tu.

Cheiroso maracujá
Gordo inefável
Asco colorido
Amarelo girafa
Completo coco
Bobo silêncio

Chute, devir.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Efêmero

Qual a condição de espremer o dia em susto?

Aconteceu daqui a pouco, neve em flor.
Como de mão nasce escama quando vento vira pedra.

Desdobra morno de morte, céu de ir-se à sorte.
Assopra viagem entre olhos baixos, escapam os dedos ao punho.

Fui amanhã, o sonho.

Com cílios em lascas de vento
E parte estática em vão
É que movimento cresce pra espasmo

A teia aparece em sigilo
Por tristeza de solidão necessária.