o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
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sábado, 17 de dezembro de 2016

I misplaced myself
I was unsure
I embraced silence
I looked under the bed
I was nowhere
I wrote to a friend
I lost a call
I was looking inside my organs
I was empty
I had no face
I was a blur
I became nostalgia
I shattered the universe
I colapsed into time
I was responseless
I lost track
I had no shadow
I misplaced the sun.

O ANIMAL BEBE ÁGUA DO RIO E VÊ O SEU REFLEXO

a densa imagem espectral daqueles próprios olhos desconhecidos
prevendo o recuo do corpo diante do impossível

e uma menina sonhava sonhos da noite
seus labirintos reais do interior
enquanto as pedras rolavam pelas veias da mãe oceano

o animal descia com a cabeça para si próprio
engolindo traços de sua pele a cada gole
dentro das entranhas absorventes de dentro

um dia verdadeiro se desenrola
em direção às galáxias

na sala uma mulher repleta de cristais 
conjurava um pêndulo azul
o animal acordava, então

os dias secos rio abaixo
num movimento necessário.
aqui o universo sustenta um momento
para vicejar. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

este sentido doado à matéria afetiva esticando-se por estar vivio
já foi devorado pelos rodopios do tempo, as tantas deformações inexatas
dessa entrega à mitose dos magnetismos.

não há como proteger o dia do dia, todas essas notas fictícias transgredindo
o interior dos abismos esquecidos. aos olhos de dentro não se pode velar
a fatalidade da experiência.

todos os escritores agora nas dimensões de outrora sussurram nas vozes dos
amigos corajosos e perdidos sobre as pedras do rio - nós escrevemos o nosso
medo da morte.

explorar o oceano é uma aventura infinita,
aqui se revela a realidade do invertebrado e a visão da terra encoberta pelos
bosques silenciosos.

as folhas estarão emendadas pelas teias das aranhas transparentes do esquecimento;
está profetizada a minha resposta, mesmo que eu não possa contar a verdade,
a fênix dos sonhos nos reinos dágua.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Buraco

O disparo do tiro foi úmido e saiu pelo outro lado. Ouviu-se um ruído fantasma eclodindo sob luzes alaranjadas. A regeneração da terra era um processo contínuo e invisível, demorado, resiliente. O eco da explosão abriu um vão inconcluso por baixo da pele do plexo solar e deixou uma cicatriz circular nas vísceras do tempo. Um buraco negro dedicado ao imemorial rastreado pela magia e conjurado por todas as células que formam as veias. Gritar de boca fechada, ou escutar o silêncio dos rodopios divinos, cores inventadas por fragmentos de sol. O abandono da paciência universal reverteu os raios pelo reflexo das direções e o buraco para dentro. Havia muitas paredes na casa de Saturno encobrindo os quartos onde ele devorava os próprios filhos. Cada passo é uma parede um muro uma construção de concreto. As pedras na montanha são tão estreitas quanto as ruas com cartas penduradas nos postes. Era vertiginosa a mirada das árvores tão embaixo, pertencendo ao solo fértil que sustentava as pedras e o carvão das palavras entalhadas. Eu seguia evitando minha evocação própria, meus caminhos abertos pela memória de um rio. Estava diante de uma bifurcação irredutível...

Perguntei à mulher de xale na rua sobre uma jornada inominável e ela esteve meditativa e receptiva. Os oráculos beberam minhas lágrimas como se fossem milagrosas e eu chorei mais e mais e mais muito forte muito recolhida, até que todos os símbolos desaguassem meus ossos abaixo e uma correnteza distribuísse novamente os pesos às coisas da matéria...

Os grãos do solo aos poucos se foram assentando para a nova seca que viria com a mudez das palavras esgotadas. A companhia de seu próprio reflexo é o inverso da realidade, os dias param de contar os encontros entre os corpos. Então, chega o reino das poeiras das cinzas, da poeira cósmica espelho do passado. Um ciclo um ciclo um ciclo um ciclo de palavras expelidas pelos poros cheios de terra marrom, os rastros dos pés mal contando sua história interrompida. Era o meu futuro recorrente, uma visão de um sonho enquanto levitava na casa das luzes melancólicas. Eram visões dos lugares enterrados, dos mistérios lentos, na umidade nutritiva. Quando acordei já tinha outros olhos e sentia outro gosto na boca, a cada vez enfrentava a casa e a constante busca pelos sinais, pelos símbolos dos arcos de luz, pelas vozes dos feitiços antigos.

Luz barroca

o que desespera os braços decididos a acolher caminhos tão errantes é a assustadora naturalidade do caos. o vasto abismo vislumbrado num portal à meia luz na janela abriu-se quando eu não pude entender somente a presença da claridade, mas também as sombras antigas que um desvio revelava. o reflexo de meus próprios cílios em nebulosas espelhadas mostrava o traço em entalhado na pupila. os corpos reconhecem uns aos outros quando se desidentificam de si mesmos e aceitam que invadam suas cavidades líquidas. a fragilidade de cada gesto sempre foi proporcional à sensação de uma imensa continuidade, um parentesco órfão, de suas partículas históricas soltas e enterradas. a tranquilidade de encarar qualquer metamorfose é uma decisão pelo enfrentamento que não se envergonha das paredes de madeira da casa. cada detalhe transversal do teto contribuía para embaraçar as coisas invisíveis próprias do mistério da matéria. o tudo é forte em seu esvaziamento constante nos passos entre tantas conexões e o meu rosto dormente reagir à poeira soprada dentro duma entrada. estávamos pertencidos naquele instante fito entre si mesmo e o seu limite.

a lentidão daquela noite já concedia às turvas formas lugar no espaço junto à sensação de infimidade. os lugares ocos de você estão abarrotados de caricaturas e símbolos flutuando. tudo é uma mentira e também é a única forma possível, tão aberta e tão inverossímil, palpável e estrangeira.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O ar confrontou-me à pisada
Quando notei que nada separava
O vento de meu corpo amplo
Que sabe dos redemunhos
Espiralados reconfigurando as
Presenças, tantas estilhaçadas
Pelo alambique mesmo
De meus olhos, a morada
Humilde do regurgito
Embalo, meus dias frios
Desalocados de mim já que
Meu corpo é calor e o pulso
Segue contraindo meus lugares
Por dentro, o que resta deste
Buraco que escancara também
Estes dedos, com o rugido distante
Da quietude mesma -

Meus cabelos de árvore seca,
As vozes interiores enlouquecidas,
A lua que se põe
Dormitando o horizonte
Dormente de mim -
E eu feita de matéria crua
Do meu instantâneo,
De nome já eu cindida
Pelo Sol que me enrola
Na clareira fantasmal do
Outro dia;

Sorrateiro um desespero vacuoso
Virado relógico e máscara.
Mas o estômago draga as
Mesmas fumaças, o ininterrupto
Carregar das coisas mareadas
Nos desentornos.

Eu recebo uma jornada
Para que evidencie-se a
Potência do corpo desregulado
Pelos pés enterrados.

Movi agora um limiar,
O vale, o esmagado,
No apagar-se de uma
Luz horizontal.
Morta, vivi para estar aqui.

Sou saturado vazamento,
A própria Terra genealógica
Feia, inteira, extensa,
Aberta ao giro corporal
Do que nos encontra.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

trajeto 1

Pelo princípio do desvelar contínuo ao território, permaneço escrevendo cartas desde o dilúvio, expandindo à continuidade a morada de nosso contato, pelos átomos que se abraçam, até o dia em que se azulear a borda do horizonte. Compadeci ao lembrar-me que, deste anterior, já contemplavam nereides da descoberta, e já revolvia a terra desde o amálgama do âmbar. Surgiram faíscas no formato do céu por entre a chuva refletida nas lagoas de cristais, no meio de uma árvore atravessada, e revelou-se a flor do apaixonado, dissolvida por tons azularroxeados em verde sagrado. O corpo resplandeceu para sua manifestação e quis colher das pedras seus fungos, um por um, enquanto eu concebia a paciência exercitada em nossas distâncias e crenças por sobre a realidade processual do movimento. Permaneço escrevendo para que permaneças espiral, e re-gire a participação nos trajetos do vento, nesses dias tomados pelo humor das folhas, por entre nós e tantas noites afirmando a vinda do sol. Na coragem do mergulho, sendo por dentro à água da porta aberta, esses raios trouxeram a graça do respirar em constante decisão ao convite de escrever-te. A travessia para o próximo momento veio com a cura do choque térmico, e registrei minha presença inteira em meio à confusão expansiva do espaço. Cantou conosco uma arara colorida de atmosfera, no topo do ar - um sonido pungente do céu à primeira comunicação para que descessem os raios do leque da mãe, iluminando o que se pode ver. Com o rugido anunciado pela torrente-que-cai, ao nosso vento liberto, corremos ao encontro de abrigo enquanto choram os que necessitam e circulam os lençóis que nos alimentam. Segui passo pelos lares que surgiram, certificando-me de cuidar da liberdade desenvolvida em nossa linguagem, que nunca soube dizer o que éramos. Quando o sol ressurgiu, segui e, agora, com esse presságio, escrevo isenta de necessidades, mas no poder de meus quereres, movendo-me demoradamente até você, só para, no meio do caminho, percorrer a todo o universo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

luna llena

segurei essas mãos até que a caneta errou o papel e verteu em direção à boca, tamanha a fome de tinta azul e intoxicação por outra coisa que não a porta do elevador fechando, os espelhos sucumbindo a caretas tediosas no momento em que me encontram, as unhas delatando a derrocada falha ao processo dos pormenores, a mesma tinta da caneta arroxeando linhas de expressão, casca de árvore, fibrosas feito meu coração insistente em dar voz à vitalidade que me lembro quantas cartas de amor ainda estão por escrever, todas destinadas aos mesmos olhos e enviadas a desconhecidos na solidão de suas casas esperando até que morram de desgosto mastigados pelos próprios tecidos, dentre todas essas imagens que recortei a esmo na companhia de amigos inteligentes que revelam a realidade, pois me apegava às texturas da mesma maneira que faço nas noites à lembrança dessa loucura nas vísceras debaixo, encatatoneando o olhar para os seres de cima, todos os espelhos daquele encerramento como o mesmo infinito repaginado por si mesmo, e eu encontrando alimento num livro que deveria estar em outra língua passando por desejos súbitos de calma e contensão enquanto me doem os nervos da mão e os papeis caem e descubro formigas que não existem e sonho e desperto cheia de vontade de dançar com os gatos, explodir de felicidade e urgência, renomear cada uma das memórias, presentificar a saudade que sinto a daqui uns meses, quando se tornar insuportável consultar o passado nos oráculos e ver a permanência da confusão indecifrável para nenhum código possível esfaimada que fico no interior já ciente em incertezas disfarçadas por possibilidades que insistem em esmiuçar a coragem mas eu não deixo não porque preciso buscar o ar quando vem o tempo e a morte anunciada pela luz do farol no mar esverdeado pela respiração da terra e enternecido quando fecham os cílios dessa lembrança. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

about the exercise to find conciousness

às possibilidades (ao impossível)
fazem-se infindos movimentos
escolhidos pelo tempo
no espaço dilatante
de conjuntura singular.
neste traço,
acontecido devastador,
o segredo provém continuidade
à matéria.


As paredes erguidas afastavam o fora do dentro para que o ar instalado, desprovido de por-do-sol, sufocasse o desdito, na expressão transfigurada, ao homem que trancou as portas e proibiu que o cheiro das calçadas atrapalhasse sua transformação. Quando deixou claro que não havia portas, com os dentes arrebatados ao olhar, as pernas, decididas a respirar, percorreram todos os pedaços de chão entrecortados paredes sucumbindo ao teto esmagador. O descaminho inevitável jazia aos pés, excessivos pelos passos, e às mãos que esmurravam o concreto entre uma circunstância e outra, os cabelos desfaziam-se pelos escombros do coração, enjaulado, a cabeça de um lado ao outro, a boca mastigando o abafado, umedecido pelo suor e pelo choro. A vã manifestação do sofrimento redobrou o pisar, que ia decidido a encarar seus limites, o rosto impávido daquele homem por sobre lonas pretas, e exigir a verdade deste delírio, incumbir sua presença de poder, para fora, onde esperava antiga ferida, o buraco, ainda por cuidar, àquela mulher cujo útero era palco da vida, para que ao perdão houvesse continuidade. 
À noite, quando já doía o peito renegado, por sob soturna luz que atravessava a parede, chegou um contorno familiar de sombra palpável, bioluminescente pelo centro, de onde um círculo verde esmeraldava fios de luz permissiva. O traço moveu-se em direção aos pés então repousados, pelo machucar de suas correntes, para que o seguissem pelos corredores. Desde o silêncio instaurado, caminharam, acompanhando a matéria negra à frente, quase integrada à escuridão ruidosa do isolamento. À finura com a qual surgia a realidade, naquele ponto verdejante, deu-se a ver uma abertura para um cômodo com janelas. Lá estava um contorno maior, preenchido por carnes do vácuo, onde brotam as estrelas do passado imemorial. 
Quando saíram do labirinto, de imediato requereu-se respiração forte para suportar o que estava embaixo da janela. A inconsolável imensidão de águas próprias ao mar ou rios infinitos, revolvendo sob os pés, aos gritos daqueles dentro de casa. O redemunho convidava ao meio e ao fundo, prometendo ser morada daqueles rostos na lembrança, um sempre muito jovem, outro envelhecendo, entre as gargalhadas e as bolsas debaixo dos olhos. Sorvendo, escancaradas, as águas pertenceram-se fluindo, e assim o tempo findou para o seu reverso. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Navio

Duzentos dias no barco. Nesses tempos, arrastei minha âncora pelo alto-mar que perdurava em todas as direções e desconfigurava os limites quando o sol movia cada milímetro na expectativa de chegar ao outro lado, por detrás à imensa aguidão, adormecendo o calor e despertando as criaturas vicejantes do imaginário, os monstros cujos olhos estupram o medo. As bravias águas continuaram existindo amplo, para destruir os vestígios do tempo, espaçando-o entre afogamentos e respostas a cartas que não eram para mim. Abandonei a terra sobre o lugar anterior para subverter este território que não cabe o meu corpo. Passaram-se todos os dias necessários entre a tempestade e o silêncio do que renega a coragem, dada à imensidão inconsolável frente à pequenez dos membros e das mentiras. A água esmagadora repetia a constância do infinito e minha invisibilidade, de corpo livre. Fui visitada por anjos espelhados no céu, que colidia com o horizonte para liquefazer-me parte indispensável, nos dias em que pude pacificamente derreter os sonhos da noite em balouçante consciência. Ao navegante que sobrevive, porém, há inevitável aparição das desconhecidas terras, que arrancam a esta inundação. O naufrágio não durou mais que duzentos dias, desde que saí sozinha e queimei aquilo que ficou. Avistando, ao longe, respirares descompassados, doses cavalares de palavra, cores além-azul e chuva, percebo-me deixando o deserto à medida que se aproximam, agitando as mãos antes do fôlego, despedindo-me do mar todo por dentro para penetrar novamente o subterrâneo, quando meus pés o tocarem. O horror do último suspiro para que o ar divida-se em milhares de respirações assombra-me, que me encaro neste limiar reflexo do infinito, há duzentos dias, para lembrar-me novamente. A abundância da terra envolve seus desperdícios, e a pouca atenção não vale para quem deseja se perder. O instante inteiro é o mar, e a terra é feita de caminhos. Lá, precisarei escrever de novo a outros ninguéns e suportar o peso do desdizer. É de destino pisar no chão e estranhar o pé que afunda devagar. Adeus casa flutuante, estômago do mundo, a terra que chega está me pedindo para descer à superfície. Assim que a chuva cair, no primeiro dia, profetiza-se que o barco colidirá com o concreto, à falsa segurança, para que eu encoste o rosto ao chão, de novo, e ouça, nos passos e mudanças, o coração que bate desde o centro do peito, o magma por debaixo do solo, as palavras em gestação, por dizer, vulcanizadas de um jeito ou de outro, para compreender, naquele ato, a importância do que vou encontrar. 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

[não posso dizer como é doloroso mudar a toda eterna morte, confiada ao espaço entre as palavras, nada disso é tão real quanto o suspiro-desespero que agora vem me situar em vazio preenchido simultaneamente, e não sei porque choro, porque vazo por todos os buracos quando sinto tanta dor no incessante esgotamento destas já escritas, para ninguém, vê-se que meu corpo tem várias entradas e saídas].

estou sempre tentando dizer
do que não posso
porque preciso fazer algo
com minhas mãos
para que essa sensação não
me arrebate
ao fundo deste oceano
que toca as nenhumas partes em seus intervalos
onde tem permissão para
não existir essa cortina de memórias
que aproxima o há tanto perdido

escapa o instante da descoberta
que nunca envelhece, mas sempre muda
silenciosa expansão

quando aparece em longo respirar
o corpo esquenta desde dentro
a uma cortante memória
que não mais importa como toque
e deve ser abandonada ao
seu renascimento
neste passo sempre apagado por
sua própria natureza
ao ir embora
como parece ser destino de tudo
que é capaz de amar

não há como parar a dor
mas há como aproveitá-la

hoje, não há carta alguma endereçada
a um novo ninguém que
sequestre a possibilidade da divisão
para um lugar menos solitário
que a beirada da floresta
onde a seus pés só é possível
pertencer ao solo
e o resto desta confusa e desistente
corajosa existência
saudosa do futuro
e, no meio termo, entre
caminhos, entre corações
entre tempos, na infinitude
deste rosto molhado, por
lágrimas velhas, traços finais
do momento para sempre doloroso.

a constatação do real, em
contemplação, que existe
sem justificativas, para
me permitir sentir seu horror

não há como dizer do vazio
nesta passagem, espiral
de algum lugar para outro,
nenhum lugar nesta bolha
o navio em alto mar
alto castelo distante
para urgir esta
brevidade
do contorno ao mutante
às luzes espalhadas pelo céu
infinito e ininterrupto.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Destinatário: ausência

[cartas fracassadas, dezessete de junho] 


Só há começo possível, para então atingir este vazio trôpego, naquele instante há tanto vivido, sem que percebesse, onde escrevia sobre seus olhos de árvore esburacados como quem ama ao respirar. Enquanto soam sinos, barcos e trombetas, transpasso objeto momento definitivo, posto que à mudança iminente ininterrupta ruptura. À sombra desta fina insegurança, face corada por saber, aberta por criar, em fertilidade, a passagem do dia, deu-se sua urgência, que também é minha, pela superposição dos encontros, o tempo errado, para destruir sempre, na força desta terra movente, o fundo do ímpeto, a nossa união. Colapsando em abismo certeza, mas de cada respiração, virou-se em fugitivo teu nome, escapou-me para a chocante colisão entre o vidro real e este espelho, na decisão pelo indeciso, por assim dizer, desdito. E a sua loucura me protegia desta espada, a minha, empunhada contra os redemunhos do mar. Eu, por minha vez, desejava que ao redor eles parassem de quebrar tudo. Já não podia mais suportar a perigosa vontade destas palavras que tornavam em grito canto silencioso do apaixonado. E havia o arfar sobre toda a existência daquele lugar. À abertura última debatia-se repulsando meu exposto interior, para valorizar, em absurda fractal, palavra.
Perdão, pois culpo-me por insistir nestas figuras sígnicas, como se fossem já uma raiz secreta para a distância, que temem ao diferente, pela exigente compreensão. O que aconteceu foi que eles precisavam saber, pois eu já não mais aguentava a solitária cadeira do café e do cigarro, esperando o destino que viria com a vontade daquele que vem. Este foi o frio quarto em que você apareceu. Olhar selvagem vindo do bosque sobre a pedra, suas quatro patas cruzaram por debaixo na cachoeira, para chegar até mim, encolhida à beira, sobre a terra, em estado de atenção. No entanto, foi desta dor ancestral que me surgiu o substituído, vazio de afirmações, para nunca ser hospedado. Eu o amava por recepção incomensurável, mas ali não havia como falar alguma palavra. Assim, desejei desaparecer, como se os sons lá fora não fossem diferentes dos que ouço dentro de casa, no que os percebo iguais, dividindo. Ele se recusava a despertencer-se, ao passo que os sinais por todas as partes urgiam cautela sobre as patas compartilhadas. 
E o meu espaço foi para contemplar o horrível estilhaço, como surpresa antecipada aos seus toques sem amor, escassos da sua inteireza. Observo o lento estilhaço dos braços indômitos, todas as redes aos corações. A boca entreaberta, os olhos enrugados para dentro em choroso reconhecimento. Paro, finalmente, para vislumbrar a catástrofe. 
Ao centro do seio, então, germina a mulher-sob-a-lua, transfigurada, em aceitação ao caos, por sabedoria, desde a continuidade daquilo que se dá à morte. O horrorizado rosto sublimando toda a dor, presente na voz suave que demonstra o instante final, para que se adentre à floresta, desde a coragem nas maçãs e o sangue corrente para o princípio cósmico, o Chaos de toda beleza, pelo que vale, em gratidão. Assim, me vejo perante estas carcaças com ainda a infinitude por te escrever.

Sua,


segunda-feira, 28 de abril de 2014

nostalghia e outros desamores

a fumaça trêmula em frágeis círculos, esvaindo-se à contra-luz, alcançando, no desfazer de sua existência, moradas de silêncio e reinos de chuva gelada. enquanto as pessoas acontecem lá fora, eu, de dentro do quarto, encaro os pés do menino, cujo corpo, estendido sobre o meu colchão, cheira à sombra de terra úmida.

beatriz bandeira


Eu, que de dentro da casa admiro o mover-se, 
lentamente inalo o ar. 
À cada uma de suas aparências nomeio suavemente, 
o abafado, o recorrente, esse nome tão seu que derradeiro, 
entregue ao mundo, secular. 

O seu rio me causava espanto, e eu seguia acompanhando as bordas de longe para não cair por esta fundação. Os passos dados pelos meus pés não eram violentos, qual o fluxo destruidor do que gerava sua nascente. Dentro do meu rosto provia aquela água sua, vida, morte. E, um cigarro após o outro, eu queimava cinzas adentro minha verdade por dizer. Sonho último, última noite, por suas transbordas, irrompia de mim o grito inundado, último perdão, sangrava, em desespero. Pois eu não entendia a sua distância, as nossas diferenças de tamanho. Eu não entendia a ininterrupção desta existência. Era empurrada entre extremidades, para poupar-me, para que eu não fosse engolida. Bruto, terreno irregular, encontrei a mim mesma anos depois parada, pelos órgãos e membros, pelo ar inalado, parada no mesmo lugar remanejando suas bordas. Cuidava com cautela à terra fértil de suas unhas, às intempéries do espírito. Mas a ventania era inevitável, mesmo frente ao meu desgosto, posto que vinha para arrastar-me. Era real o que estava acontecendo. Quando abria os olhos, via luzes refletidas pelo chão, sentia frio, encontrava um livro, nesta ordem de procedimentos. E, então, quando procurava reerguer-me pelas paredes arrebatadas, tocando firme pelos apoios desmantelados de ontem, encontrava sempre o começo do dia, e o processo se repetia.


Este momento passou a me repetir, e repetia sempre que possível, para que eu tomasse vivência de meu tempo. Mas, alguma coisa naquela casa eu não podia lembrar-me, embora fosse a única que eu quisesse lembrar. O eterno jorrar, como se fosse. Eu tentava alcançar, para remendá-las, aquelas misteriosas luzes coloridas que povoavam o terraço da casa. Algo a respeito do instante não me permitia a lembrar, assim, não me deixando esquecer. Constante, eu seguia pelas bordas do rio, compelida a me afogar, desejosa por movimentar a corrente, saudosa de casa.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Beyond your scared bed
I decided to emerge from ink
Through a soft beginning
And old feet.

The clouds remained the same
As movements of steel
But something was change
Inside, creation and drops of tear

Fear - I feel
Your yellow eyes and heavy breath
And honor, by facing
A passage and a pain: Death

Alive and awake
Blood on my cheeks
I chase your heart
Truly, under-ocean
I believe.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

the beginning

ancient animals sometimes scare those who can't pay enough attention to their steps. these animals are strong because they urge a wisdom that comes from the movements of the earth. they are pure instinct, senses, and act according to their deep eyes and expansive souls. they are not sweet and receptive, but hard to reach and even harder to face. although, once you are in front of them, you are captive, you realize their oppening, and you are confronted with a feeling of life and death's relevance. you will never be the same. everything will be destroyed, fluxes will turn upside down, and what you thought you understood will turn into chaos. you will be called to deal with your own fragilities. of course, you can take a chance and run away. be back on a ground that appears to be quiet and safe. but, once you decide to stay, moved by the incredible amount of life carried out by it's breaths, you feel calm, and suddenly able to comprehend silence. you feel humble, with a sudden disposition to learn, and recognize the independence of changes, along with your own capacities of choice. you start to see yourself as a moving body, that integrates nature within every single step, that is pure change, pure matter combined beautifully and not randomly into that person that you are. and, from that day on, meetings will no longer be in vain, because the amount of life you recognized on the wild animal as belonging, also, to yourself, you rage out from everywhere, from everything that exists, as movement, possibilities, chaos, changing matter, responsability of choice and universal knowledge. you will no longer waste meetings, you will feel a deep power to fight for them, just because they happened, and, specially, you will be forever brave as it turns to facing your own fears and not letting them be mistreated, as strangers, or locked up into a small box. 



so... are you gonna face and learn, or are you gonna run into an apathy abyss?

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A antiga psique

O tempo parece absoluto. Às vezes, da janela, entra a sensação de um cheiro distante. Meus caminhos, pelas ruas desertas, distanciam-se das pessoas daqui, que estes passos não pertencem a meus pés. Quando tomada de um novo dia, respiro rarefeito ar, transpasso portões enferrujados e busco nos papeis antigos, escondidos em prateleiras altas, a poeira que modifica meu presente.
Neste dia, algo aconteceu. Um cruzamento de esquina tomou conta daquele segundo destrutivo, que adentrou o domínio de minhas pernas. Então, seguido do limite à branquidão, expus-me ao esquecimento deste mundo para a lembrança de um outro, pertencente ao cumprimento de meus dedos, enraizando-me em sopro de origem.

Era tarde da noite quando fui deitar-me, mais a pedidos deste forte corpo enfraquecido por violência atmosférica que de sonolência propriamente. Na verdade, não havia necessidade de sono. O que havia, em minhas vísceras, era uma estranheza diferente, que nunca havia sentido, mas que parecia natural, à maneira daquilo que acontece porque deve acontecer. Removi meus sapatos apertados, o sutiã desnecessário, e deitei-me esticada, encarando o teto, na tentativa de atentar-me aos sons de natureza que havia colocado pra tocar no aparelho fechando a esquina de meu quarto. Durante a madrugada, transitei entre alfa e vigília, dormi com um dos olhos abertos, mas permaneci imóvel, pregada ao colchão. Num específico momento – não posso dizer quando tudo começou – a pele de meu corpo esparramou-se pelos lençóis, escorreu no chão da casa, esgueirou-se por debaixo das frestas e ganhou a rua. Lá fora, já pertencida ao asfalto, notei que o tempo do mundo não mais estava preso às horas das semanas, ou aos meses do ano. Agora, tudo funcionava numa amplitude fantasmagórica, e a nitidez corpórea daqueles que passeavam pela cidade tomava força. Enquanto rastejava, eu percebia as pessoas pelo ângulo mais baixo, seus narizes farejando odores atraentes, seus queixos erguendo-se para acanhar os demais, numa tentativa de impor espaço para desenvolver a própria sobrevivência. As articulações dos corpos ao redor comportavam-se de modo esdrúxulo, virando do avesso sempre que estimuladas. E eu, assustada, mas embriagada por uma sabedoria misteriosa, não era capaz de retornar. Foi então que tomei consciência muscular, por trás do glóbulo do olho, de que não deveria retornar, mas seguir adiante. E acordei, as cinco e quarenta e dois, enrijecida, coberta de dores.
Segui atordoada pelo restante da semana. Noites como essa tornaram a repetir-se, a cada possível descanso. Atreladas à causalidade, transferiram-se para a vida acordada, e passei a enxergar com os pelos que me cobriam. Já não era capaz de encontrar-me em paz. Mesmo quando longe daqueles que me indagavam a percepção aparentemente vaga, as profundas olheiras, e o cheiro de transformação, eu sabia que, paralelamente aos monumentos que me cercavam, havia outra coisa. Mais perto de mim, grudada às minhas mãos, por trás de meus ouvidos, agregada à minha pessoa, inerente a esta passagem, dentro em minhas vísceras. Os membros amputados começaram a aparecer, e eu a sentir-lhes ausência – em mim, nos outros, nos postes, nas vias e nos domingos. Certa monstruosidade rugia. Eu não podia escapar a ela; e, para ser sincera, não parecia querer. Um senso de veracidade apoderou-se de minha alma no minuto em que soltaram os tigres. Notei que já não era tempo de conservá-los enjaulados.
Estava frio. Encontrava-me nas ruas não podia medir a quanto. O tempo deslocava-se furioso, atropelando-me os passos. As ondas de um inexistente mar arrebatavam-se. Estava frio, o vento cortava, eu seguia. No entanto, nada disso era suficiente à minha lucidez. Germinando, a caça me impulsionava. Eu sabia que estava participando de um longuíssimo nascimento. Então, agredida de uma vitalidade desmedida, corri, seguindo devir-destino, em busca do perdido, inteiramente envolvida, desde o osso, nesta missão antiga que havia me encontrado. Precisamente, ocorreu. Sei, pois jamais fui enganada por minhas lembranças. Um cruzamento de esquina tomou conta daquele segundo destrutivo, que adentrou o domínio de minhas pernas.
Adanna. Mulher. Trinta e três anos. Traumatismo cervical. Mil novecentos e noventa e seis. Cinco e quarenta e dois. As vozes brancas continuavam dizendo essas palavras. Eu estava acordada, como nas últimas semanas. Porém, havia um deslocamento irreparável de minha solidez em ruína. Não sabia se estava deitada, esticada encarando o teto, ou se conseguia me mover, rastejando por entre a selvageria. Não sabia se estava morta. Permaneci ali décadas contadas para trás, esburacada, vazia, apática e insone. A catástrofe era iminente ao apito em minha consciência, mas nada podia ser feito para que mudássemos de passado. Na escuridão, porém, pela primeira vez, da janela entrou a sensação de um cheiro distante.
Desprovida de corpo, vi fiapos de luz e cor. As ondas festejavam a epidemia, as casas moviam-se em agitação febril, e uma mulher urrava na concepção de um milagre. Notei que seus gritos saiam de minha garganta, e que seu rosto me era espelho. A atmosfera turva que me cercava urgia desespero, mas não havia a escolha de ceder. Ali, tratava-se da escolha por ambos a criação e o sacrifício. Estava quente, embora os raios anunciassem uma tempestade, pois o ar mortificante comprimia-me o fôlego. Uma forte pressão sanguínea violentava-me o coração a cada segundo. No entanto, a criança que viria dependia de minha responsabilidade por respirar. O esforço por manter o oxigênio fluindo progredia com forças extraordinárias. Ao redor, muitos eram mortos para que outros sucedessem à vida. Naquele instante, porém, apenas uma vida me interessava. E minha missão era fazê-la acontecer.
Sozinha, nascia uma criança em meio à destruição. A visão, então, de mim mesma, embaçou-se ensanguentada, e eu, estendendo o frágil e novo corpo, disse a um homem que devia estar ali: Leve-a para o barco e chame-a Olga. Com um longo suspiro de espanto, segui à consciência e eu logo soube onde me encontrava. Olga era o nome de minha mãe, e eu estava no hospital para aprender as consequências da minha história.
Logo fui exposta à liberdade. Agora, movia-me com o auxílio de rodas. Os papeis guardados tornaram-se meus companheiros, e não demorou até que eu pudesse compreender. Barbados, mil novecentos e trinta, o mundo acabava para aquela gente e começava para quem me trouxe a ele. Antes, eu não podia valorizar o trabalho dos antepassados. Agora, sentada infinitamente para observar com mais atenção, contemplo os documentos envelhecidos, que sussurram: sua importância, feito a minha, depende da importância reconhecida nos olhos dos condenados.


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Miguel (versão final)

O asfalto era rígido feito rochas antigas, aos poucos deterioradas pelas águas. As lágrimas de Miguel colidiam com a pista e refletiam o laranja-molhado das luzes melancólicas. Chovia, os carros atravessavam a rua na iminência de derrapar, e as pessoas desabrigadas escondiam-se no quente de bares e cafés. Algumas, entretanto, aproveitavam a textura de suas peles para enlamear-se ou correr até o outro lado com a desculpa de um destino. A inconveniência aparente da chuva provocava sorrisos nervosos naqueles que se permitiam molhar. E Miguel, sentado encolhido por dor que não a frieza dos pingos, acompanhava a densidade do gotejar, como se seus olhos projetassem o céu anuviado. Sons de água e gente e motor acompanhavam a passagem dos minutos. E parecia que o tempo era só uma extensão sem fim da mesmíssima coisa: a rua e o movimento do mundo por entre seus limites.
Miguel sentou-se no meio da rua e começou a chorar. O imenso desconsolo das mãos que lhe cabiam expunha seus fantasmas para fora, e a cada nova maré seus olhos tornavam-se cinzas. A fuligem de seu corpo negligente atordoava o restante dos seres que ali viviam e compartilhavam, em presença, a rua que ele atravessava, parado pelas pernas e acuado pelo chão. À medida que soluçava, o silêncio dentro dele crescia vacuolar. A coluna enrolada movimentava o sangue dele para dentro da terra, ignorando a solidez desenvolvida pelo asfalto para contornar o caminho dos fugitivos.
Miguel sentiu-se obrigado a abandonar o amor. A morte de Billy ocasionara naquele denso e conhecido, mas sempre unicamente doloroso processo de luto. Miguel não compreendia partidas e não compactuava com ausências. Naquele dia, Billy deitou-se cedo pela manhã debaixo da carreta de papai. E ficou. De longe, Miguel e os outros ouviam pesados suspiros finais. Ninguém teve coragem de se aproximar para ver de perto. Silenciosos, respeitaram os últimos segundos. E então Billy tornou-se a imagem de um corpo estático, que um dia foi. A terra abraçou o frágil tronco e patas marrons para devolver a matéria à sua origem. E algo se transformou, por toda a extensão do Universo. Miguel saiu de olhos catatônicos e passos mancos. Ganhou a rua logo, no instante que encobriu as próximas horas. E os outros o deixaram ir. Então, todo o movimento do mundo também deixou-o. Os carros e cores pessoas zumbidos e olhares, tudo era perdido. A verdade era crua, e doía de encostar a pele. Cada homem que passava desconhecia o iminente abandono. E não havia nada mais absurdo que a falta diante à presença. Miguel sentou-se no meio da rua e começou a chorar
Bem, ele podia ser jovem, mas não era tolo. Era, também, antigo. Seus pequenos pés compreendiam o peso do pisar entre a lentidão do múltiplo crescimento, pois que dedicavam, ao chão, vontade, disposição, e força. E a desolação que sentia era na transformação incessante de toda a verdade, no perceber o abandono iminente, fatídico, ao amor confiado numa outra pessoa - a desolação que vivia era no perceber, ao iminente, abandono, fundo, o amor confiado em ato de colecionar ossos, para então cantar sobre eles. Miguel não precisava erguer os olhos para notar o movimento triste dos homens, entre destruição, ordem e desordem, deslocamento de percepção; dos homens esvaziados e confusos, desconfiando à própria perdição e esquecendo-se da selvageria para instalar-se em constante fuga à inevitável troca entre o céu e o buraco.
Miguel sentou-se no centro do chão e começou a chorar. À medida que seus olhos acinzentavam-se pela sina da gravidade, a fuligem de seu corpo expandia-se em explosão, trans-borda, toque avesso descaminho furioso, atingindo a todos aqueles que com ele compartilhavam presença, na rua, acuados pelo caos. Quando soluçava, berrando sobre o solo, o silêncio dentro dele crescia, reverberando terra, acolhendo Discórdia. A coluna enrolada movimentava o sangue dele para dentro, e atravessava, desde o entre, até a Lua, ignorando a solidez desenvolvida pelo asfalto para contornar o murmúrio dos fugitivos.
A mancha verde-musgo na parede do quarto de Miguel era a única certeza de pele que o atraia segurar. Todos os vultos lá, gritando vértebras e intestinos, sussurrando segredos, acolhiam a mancha real na casa dele, que ocupava o centro da consciência, para além de ventigens e ondas turbulentas. E a beleza desta rua soturna morava no cheiro de sua mãe. Acompanhando o chão desconfigurado, Miguel sufocava o choro com o antebraço direito, aspirando compulsivamente em busca de origens, algo da ancestralidade maternal presente em suas memórias e nos pelos dos braços humanos, em esquinas ocultas e na textura dos animais.
Entregue ao avesso do mundo oficial, lançou-se em meio ao asfalto, de encontro à terra, desafiando a plenitude de seus ossos. Eis que, no segundo sucedido de inteira vida, o acontecimento encerrou aquele instante em história, na asa de reluzente borboleta voando por entre os carros da rua.

Miguel sentou-se no meio da rua e começou a chorar. As gentes perpassavam o encolhimento de seu corpo por debaixo aos braços e pernas. Não era de surpreender que Billy tivesse morrido. A morte costuma derrubar corpos, ignorando a solidez desenvolvida pelo asfalto para contornar o caminho dos fugitivos. Para além da chuva que caía, não importava aos homens que passavam coisa alguma, e Miguel percebia, ao sentir a lembrança do cheiro de sua mãe, tamanho desamor pertencente à rua, desvio entre o céu e o buraco. À medida que soluçava, o silêncio dentro dele crescia vacuolar. Bem, ele podia ser jovem, mas não era tolo. Seus pequenos pés compreendiam o peso do pisar entre a lentidão do múltiplo crescimento. E a desolação que sentia era na transformação incessante de toda a verdade, no perceber o iminente abandono.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Loba

Ela corre por vales adentro sem medo do escuro. Seus olhos veem fundo, mas é numa percepção aguçada de sentido, na pisada firme e desconfiança necessária, que sua existência no mundo se instaura. Ela se manifesta na sensação da lua. A sabedoria, em seu arfar, expande espaços e tempos antigos, para desde o princípio da pegada. Ela veio da terra, mas segue caminho entre a água, movimentando o ar e resguardando a solidez de seu corpo pela admiração ao fogo. É verdade que sair dizendo dela parece perigoso. Mas é só o que vejo quando encaro este espelho. Vejo o reflexo de uma outra coisa que não minha pele lisa, a fragilidade de minha cor, e a tristeza imanente que escorre pelas veias. Quando esburaco estes olhos meus, e outros de mim, vejo uma velha mulher que não dispõe de palavras ou ornamentos. Ela é muda de sentido, mas canta, num sussurro audível, sobre a inteira força do espírito. Aumenta a sensibilidade em meus ossos, e sinto, através dela, minha participação na ancestralidade. Do espelho emana instinto. E de tudo aquilo que é dado importância, por experiência sinistra, horrível e sublime, recupero a antiguidade da coleção, das histórias, do ritmo, e do dar-se as mãos. A palavra coragem vem do sangue que percorre a todas as faces. E aquilo que há tanto foi criado, destruiu-se, e pede recriação. Pede novos cantos e uivos. É preciso permanecer. E dar a morte ao que dela sente sede. Também, por vezes, recorrer às cartas esquecidas, aos objetos da infância, seja para queimá-los, seja para incorporá-los ao que hoje transpira. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

despedida

O retrato que me afasta é aquele do contato com o espelhado de uma flor-de-maracujá, aquele que relembra o movimento sutil dos pés e o peso do chão que o confronta. Para além do olhar-se, mas o tato da própria pele, retorna ressurge como ínfima parte ou gota escorrendo pelo espaço. Meu ato de observação escolhe uma e torce pra que ela vença a corrida pelos vidros que repartem o quente do frio. Quanto tua casa é grande demais, com paredes e piso e teto de madeira, algumas brechas por debaixo, fechaduras complexas, a tempestade que ameaça invadir aterroriza os membros para que trabalhem, e o esforço resguardará a casa. Não se trata de uma escolha; falo aqui de sobrevivência. As partes frágeis e instintivas, os animais menores e os maiores, têm um cômodo central transparente e de única entrada. O tempo se esvai sempre na iminência do porvir, a grande água que lavará todas as coisas, queira tu apegar-se a elas ou não, pois não há critério. Cada agora insistente em permanecer torna-se epifânico quando os olhos refletem a importância de todas as coisas, morrentes, mas ainda respirando. Passa-se a encarar a casa, esburacando para a abertura de cada gesto, em estático tremer-se, à medida que cada detalhe merece olhadelas aprendidas de cor. A violência depende do limite entre a invasão e o cuidado com os seres frágeis. Encontrar-se em transbordância, para esvaziar-se de si e dar lugar ao novo, na manhã seguinte os raios solares penetrarão a casa pelos lamentos da destruição, para aos poucos secar o ambiente. Todas as coisas terão cheiro de umidade e calor, mesmo a madeira podre que segurava o chão longe do despenhadeiro. Será, então, natural respirar, e mover-se pela casa desconfigurada, sentindo sua organicidade, sem preocupar-se com o momento de reconstruí-la. O silêncio ressoará metálico pelos cantos alagados e a luz inevitável. E teu corpo, então, participando do momento complacente pós-morte, oco, rasga-se desde o entre, para ser novamente invadido, já prevendo antes mesmo de ao começo dar-se início, a vinda do perigoso futuro. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Sororidade

parceria com Beatriz Bandeira

Deste todo início, começo e retorno, dedico penas em flama, rio subterrâneo, àquele que expande braços e esburaca, gentilmente, meus olhos. Coxas pálidas, cavernosas - escrituras milenares soterradas em cavidades corporais herméticas - o transfundir centrado no âmago do movimento não-palpável, ritualizado em brancura-ausência.


Coragem.

Coragem revertida em mergulho pelo escuro-claro de cada parte absoluta e esparsa, esparramada fora da pele, aos cabelos perdidos em ventania, firmeza de cada pisada, errante por natureza, absorvendo o pulsar desenfreado das pedras.

O escorrer-se: sacrifício etéreo; o aroma das rochas que desabrocham sob as plantas dos pés. Encarar-se requer método, prática, refúgio letárgico. O espelho inundado de aberturas, portais de abismos orbitais. Olhos arregalados engolindo instantes, liquefazendo substância íntima. Urgência de sofrer em si, resplandecendo escombros.

É necessário que se toque o interior úmido da ruína, e a estes tendões conceder voz, rugido, mordida. A dedos diversos unidos pelo movimento instinto mãe e terra, mão esquerda e mão direita, dedico em brado urgente desesperado cauteloso, tua respiração desde já em frente, no entre nós e chuva e entrega, amor faísca que queima e nutre; para que se molde, fresco, o vir-a-ser feito barro e braços e corpo de homem nu e original. Voltar à origem secreta dos pulmões cansados e dispostos, face-a-face, rosto que atravessa tronco e vísceras e morte e carinho.

O teu toque não é por acaso. E os meus membros, responsáveis imprimem sentido cervical àquilo tudo que se sustenta sobre o lúcido saber-se sendo, criação primária das vértebras temporais do silêncio, refletido na translucidez do marasmo da angústia de corpo imobilizado pela lucidez do perder-se.

Caos transbordante, eminente, emergente obriga a cavar buracos terrenos para que cintilem as respirâncias.

Eis que as irmãs exprimem luto pela configurada fotografia do perdido entregue às cartas e borras, sucumbido e restante, pelo trilhar ínfimo eterno,

ruína.