o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
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quinta-feira, 31 de março de 2016

Neblina nas borras da xícara

O café já estava esfriando há 50 anos desde a juventude da ninfa de cabelos vermelhos. Um buraco no tempo sabotou os conectores e nada mais pode-se transformar. Ela quis abdicar de sua vidência e rogava à natureza para que emudecesse diante da orquestra de pássaros que surgia com a noite; mas todas as manhãs se levantava ciente de sua voz, comunicando os sinais da Lua ao Sol que lhe banhava de calor. Sua testa pulsava diante do Nada mesmo dos dias roubados. Fios brancos que pendiam da cabeça denunciavam a insistente vontade, uma fome voraz que restava no âmago da Terra. Diante da morte e do renascimento, a ninfa debulhava sua inevitável voz nas horas consumidas enquanto bordeava, entorpecida, os troncos das árvores. Cantava palavras que ainda não existiam para preencher o eco da floresta. O som enigmático da madeira estalando junto às folhas assopradas pelo solo respondia à voz da ninfa como um órgão vivo. Suas mãos transparentes iam segurando os cipós que pendiam do céu e desenhando símbolos do ar. Por toda a extensão da floresta abriam-se as portas celestes do tempo corrompido. Por cada entrada ressoava o ruído magnético de um organismo infinito, e a floresta se reproduzia num dominó de retratos espelhados. A voz da ninfa era maior que seu corpo; o abandonava para participar de seu Destino. Seu corpo diluía-se na respiração da floresta, que ligava as sombras e a luz entre os dias emendados.

Buraco

O disparo do tiro foi úmido e saiu pelo outro lado. Ouviu-se um ruído fantasma eclodindo sob luzes alaranjadas. A regeneração da terra era um processo contínuo e invisível, demorado, resiliente. O eco da explosão abriu um vão inconcluso por baixo da pele do plexo solar e deixou uma cicatriz circular nas vísceras do tempo. Um buraco negro dedicado ao imemorial rastreado pela magia e conjurado por todas as células que formam as veias. Gritar de boca fechada, ou escutar o silêncio dos rodopios divinos, cores inventadas por fragmentos de sol. O abandono da paciência universal reverteu os raios pelo reflexo das direções e o buraco para dentro. Havia muitas paredes na casa de Saturno encobrindo os quartos onde ele devorava os próprios filhos. Cada passo é uma parede um muro uma construção de concreto. As pedras na montanha são tão estreitas quanto as ruas com cartas penduradas nos postes. Era vertiginosa a mirada das árvores tão embaixo, pertencendo ao solo fértil que sustentava as pedras e o carvão das palavras entalhadas. Eu seguia evitando minha evocação própria, meus caminhos abertos pela memória de um rio. Estava diante de uma bifurcação irredutível...

Perguntei à mulher de xale na rua sobre uma jornada inominável e ela esteve meditativa e receptiva. Os oráculos beberam minhas lágrimas como se fossem milagrosas e eu chorei mais e mais e mais muito forte muito recolhida, até que todos os símbolos desaguassem meus ossos abaixo e uma correnteza distribuísse novamente os pesos às coisas da matéria...

Os grãos do solo aos poucos se foram assentando para a nova seca que viria com a mudez das palavras esgotadas. A companhia de seu próprio reflexo é o inverso da realidade, os dias param de contar os encontros entre os corpos. Então, chega o reino das poeiras das cinzas, da poeira cósmica espelho do passado. Um ciclo um ciclo um ciclo um ciclo de palavras expelidas pelos poros cheios de terra marrom, os rastros dos pés mal contando sua história interrompida. Era o meu futuro recorrente, uma visão de um sonho enquanto levitava na casa das luzes melancólicas. Eram visões dos lugares enterrados, dos mistérios lentos, na umidade nutritiva. Quando acordei já tinha outros olhos e sentia outro gosto na boca, a cada vez enfrentava a casa e a constante busca pelos sinais, pelos símbolos dos arcos de luz, pelas vozes dos feitiços antigos.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A antiga psique

O tempo parece absoluto. Às vezes, da janela, entra a sensação de um cheiro distante. Meus caminhos, pelas ruas desertas, distanciam-se das pessoas daqui, que estes passos não pertencem a meus pés. Quando tomada de um novo dia, respiro rarefeito ar, transpasso portões enferrujados e busco nos papeis antigos, escondidos em prateleiras altas, a poeira que modifica meu presente.
Neste dia, algo aconteceu. Um cruzamento de esquina tomou conta daquele segundo destrutivo, que adentrou o domínio de minhas pernas. Então, seguido do limite à branquidão, expus-me ao esquecimento deste mundo para a lembrança de um outro, pertencente ao cumprimento de meus dedos, enraizando-me em sopro de origem.

Era tarde da noite quando fui deitar-me, mais a pedidos deste forte corpo enfraquecido por violência atmosférica que de sonolência propriamente. Na verdade, não havia necessidade de sono. O que havia, em minhas vísceras, era uma estranheza diferente, que nunca havia sentido, mas que parecia natural, à maneira daquilo que acontece porque deve acontecer. Removi meus sapatos apertados, o sutiã desnecessário, e deitei-me esticada, encarando o teto, na tentativa de atentar-me aos sons de natureza que havia colocado pra tocar no aparelho fechando a esquina de meu quarto. Durante a madrugada, transitei entre alfa e vigília, dormi com um dos olhos abertos, mas permaneci imóvel, pregada ao colchão. Num específico momento – não posso dizer quando tudo começou – a pele de meu corpo esparramou-se pelos lençóis, escorreu no chão da casa, esgueirou-se por debaixo das frestas e ganhou a rua. Lá fora, já pertencida ao asfalto, notei que o tempo do mundo não mais estava preso às horas das semanas, ou aos meses do ano. Agora, tudo funcionava numa amplitude fantasmagórica, e a nitidez corpórea daqueles que passeavam pela cidade tomava força. Enquanto rastejava, eu percebia as pessoas pelo ângulo mais baixo, seus narizes farejando odores atraentes, seus queixos erguendo-se para acanhar os demais, numa tentativa de impor espaço para desenvolver a própria sobrevivência. As articulações dos corpos ao redor comportavam-se de modo esdrúxulo, virando do avesso sempre que estimuladas. E eu, assustada, mas embriagada por uma sabedoria misteriosa, não era capaz de retornar. Foi então que tomei consciência muscular, por trás do glóbulo do olho, de que não deveria retornar, mas seguir adiante. E acordei, as cinco e quarenta e dois, enrijecida, coberta de dores.
Segui atordoada pelo restante da semana. Noites como essa tornaram a repetir-se, a cada possível descanso. Atreladas à causalidade, transferiram-se para a vida acordada, e passei a enxergar com os pelos que me cobriam. Já não era capaz de encontrar-me em paz. Mesmo quando longe daqueles que me indagavam a percepção aparentemente vaga, as profundas olheiras, e o cheiro de transformação, eu sabia que, paralelamente aos monumentos que me cercavam, havia outra coisa. Mais perto de mim, grudada às minhas mãos, por trás de meus ouvidos, agregada à minha pessoa, inerente a esta passagem, dentro em minhas vísceras. Os membros amputados começaram a aparecer, e eu a sentir-lhes ausência – em mim, nos outros, nos postes, nas vias e nos domingos. Certa monstruosidade rugia. Eu não podia escapar a ela; e, para ser sincera, não parecia querer. Um senso de veracidade apoderou-se de minha alma no minuto em que soltaram os tigres. Notei que já não era tempo de conservá-los enjaulados.
Estava frio. Encontrava-me nas ruas não podia medir a quanto. O tempo deslocava-se furioso, atropelando-me os passos. As ondas de um inexistente mar arrebatavam-se. Estava frio, o vento cortava, eu seguia. No entanto, nada disso era suficiente à minha lucidez. Germinando, a caça me impulsionava. Eu sabia que estava participando de um longuíssimo nascimento. Então, agredida de uma vitalidade desmedida, corri, seguindo devir-destino, em busca do perdido, inteiramente envolvida, desde o osso, nesta missão antiga que havia me encontrado. Precisamente, ocorreu. Sei, pois jamais fui enganada por minhas lembranças. Um cruzamento de esquina tomou conta daquele segundo destrutivo, que adentrou o domínio de minhas pernas.
Adanna. Mulher. Trinta e três anos. Traumatismo cervical. Mil novecentos e noventa e seis. Cinco e quarenta e dois. As vozes brancas continuavam dizendo essas palavras. Eu estava acordada, como nas últimas semanas. Porém, havia um deslocamento irreparável de minha solidez em ruína. Não sabia se estava deitada, esticada encarando o teto, ou se conseguia me mover, rastejando por entre a selvageria. Não sabia se estava morta. Permaneci ali décadas contadas para trás, esburacada, vazia, apática e insone. A catástrofe era iminente ao apito em minha consciência, mas nada podia ser feito para que mudássemos de passado. Na escuridão, porém, pela primeira vez, da janela entrou a sensação de um cheiro distante.
Desprovida de corpo, vi fiapos de luz e cor. As ondas festejavam a epidemia, as casas moviam-se em agitação febril, e uma mulher urrava na concepção de um milagre. Notei que seus gritos saiam de minha garganta, e que seu rosto me era espelho. A atmosfera turva que me cercava urgia desespero, mas não havia a escolha de ceder. Ali, tratava-se da escolha por ambos a criação e o sacrifício. Estava quente, embora os raios anunciassem uma tempestade, pois o ar mortificante comprimia-me o fôlego. Uma forte pressão sanguínea violentava-me o coração a cada segundo. No entanto, a criança que viria dependia de minha responsabilidade por respirar. O esforço por manter o oxigênio fluindo progredia com forças extraordinárias. Ao redor, muitos eram mortos para que outros sucedessem à vida. Naquele instante, porém, apenas uma vida me interessava. E minha missão era fazê-la acontecer.
Sozinha, nascia uma criança em meio à destruição. A visão, então, de mim mesma, embaçou-se ensanguentada, e eu, estendendo o frágil e novo corpo, disse a um homem que devia estar ali: Leve-a para o barco e chame-a Olga. Com um longo suspiro de espanto, segui à consciência e eu logo soube onde me encontrava. Olga era o nome de minha mãe, e eu estava no hospital para aprender as consequências da minha história.
Logo fui exposta à liberdade. Agora, movia-me com o auxílio de rodas. Os papeis guardados tornaram-se meus companheiros, e não demorou até que eu pudesse compreender. Barbados, mil novecentos e trinta, o mundo acabava para aquela gente e começava para quem me trouxe a ele. Antes, eu não podia valorizar o trabalho dos antepassados. Agora, sentada infinitamente para observar com mais atenção, contemplo os documentos envelhecidos, que sussurram: sua importância, feito a minha, depende da importância reconhecida nos olhos dos condenados.


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Miguel (versão final)

O asfalto era rígido feito rochas antigas, aos poucos deterioradas pelas águas. As lágrimas de Miguel colidiam com a pista e refletiam o laranja-molhado das luzes melancólicas. Chovia, os carros atravessavam a rua na iminência de derrapar, e as pessoas desabrigadas escondiam-se no quente de bares e cafés. Algumas, entretanto, aproveitavam a textura de suas peles para enlamear-se ou correr até o outro lado com a desculpa de um destino. A inconveniência aparente da chuva provocava sorrisos nervosos naqueles que se permitiam molhar. E Miguel, sentado encolhido por dor que não a frieza dos pingos, acompanhava a densidade do gotejar, como se seus olhos projetassem o céu anuviado. Sons de água e gente e motor acompanhavam a passagem dos minutos. E parecia que o tempo era só uma extensão sem fim da mesmíssima coisa: a rua e o movimento do mundo por entre seus limites.
Miguel sentou-se no meio da rua e começou a chorar. O imenso desconsolo das mãos que lhe cabiam expunha seus fantasmas para fora, e a cada nova maré seus olhos tornavam-se cinzas. A fuligem de seu corpo negligente atordoava o restante dos seres que ali viviam e compartilhavam, em presença, a rua que ele atravessava, parado pelas pernas e acuado pelo chão. À medida que soluçava, o silêncio dentro dele crescia vacuolar. A coluna enrolada movimentava o sangue dele para dentro da terra, ignorando a solidez desenvolvida pelo asfalto para contornar o caminho dos fugitivos.
Miguel sentiu-se obrigado a abandonar o amor. A morte de Billy ocasionara naquele denso e conhecido, mas sempre unicamente doloroso processo de luto. Miguel não compreendia partidas e não compactuava com ausências. Naquele dia, Billy deitou-se cedo pela manhã debaixo da carreta de papai. E ficou. De longe, Miguel e os outros ouviam pesados suspiros finais. Ninguém teve coragem de se aproximar para ver de perto. Silenciosos, respeitaram os últimos segundos. E então Billy tornou-se a imagem de um corpo estático, que um dia foi. A terra abraçou o frágil tronco e patas marrons para devolver a matéria à sua origem. E algo se transformou, por toda a extensão do Universo. Miguel saiu de olhos catatônicos e passos mancos. Ganhou a rua logo, no instante que encobriu as próximas horas. E os outros o deixaram ir. Então, todo o movimento do mundo também deixou-o. Os carros e cores pessoas zumbidos e olhares, tudo era perdido. A verdade era crua, e doía de encostar a pele. Cada homem que passava desconhecia o iminente abandono. E não havia nada mais absurdo que a falta diante à presença. Miguel sentou-se no meio da rua e começou a chorar
Bem, ele podia ser jovem, mas não era tolo. Era, também, antigo. Seus pequenos pés compreendiam o peso do pisar entre a lentidão do múltiplo crescimento, pois que dedicavam, ao chão, vontade, disposição, e força. E a desolação que sentia era na transformação incessante de toda a verdade, no perceber o abandono iminente, fatídico, ao amor confiado numa outra pessoa - a desolação que vivia era no perceber, ao iminente, abandono, fundo, o amor confiado em ato de colecionar ossos, para então cantar sobre eles. Miguel não precisava erguer os olhos para notar o movimento triste dos homens, entre destruição, ordem e desordem, deslocamento de percepção; dos homens esvaziados e confusos, desconfiando à própria perdição e esquecendo-se da selvageria para instalar-se em constante fuga à inevitável troca entre o céu e o buraco.
Miguel sentou-se no centro do chão e começou a chorar. À medida que seus olhos acinzentavam-se pela sina da gravidade, a fuligem de seu corpo expandia-se em explosão, trans-borda, toque avesso descaminho furioso, atingindo a todos aqueles que com ele compartilhavam presença, na rua, acuados pelo caos. Quando soluçava, berrando sobre o solo, o silêncio dentro dele crescia, reverberando terra, acolhendo Discórdia. A coluna enrolada movimentava o sangue dele para dentro, e atravessava, desde o entre, até a Lua, ignorando a solidez desenvolvida pelo asfalto para contornar o murmúrio dos fugitivos.
A mancha verde-musgo na parede do quarto de Miguel era a única certeza de pele que o atraia segurar. Todos os vultos lá, gritando vértebras e intestinos, sussurrando segredos, acolhiam a mancha real na casa dele, que ocupava o centro da consciência, para além de ventigens e ondas turbulentas. E a beleza desta rua soturna morava no cheiro de sua mãe. Acompanhando o chão desconfigurado, Miguel sufocava o choro com o antebraço direito, aspirando compulsivamente em busca de origens, algo da ancestralidade maternal presente em suas memórias e nos pelos dos braços humanos, em esquinas ocultas e na textura dos animais.
Entregue ao avesso do mundo oficial, lançou-se em meio ao asfalto, de encontro à terra, desafiando a plenitude de seus ossos. Eis que, no segundo sucedido de inteira vida, o acontecimento encerrou aquele instante em história, na asa de reluzente borboleta voando por entre os carros da rua.

Miguel sentou-se no meio da rua e começou a chorar. As gentes perpassavam o encolhimento de seu corpo por debaixo aos braços e pernas. Não era de surpreender que Billy tivesse morrido. A morte costuma derrubar corpos, ignorando a solidez desenvolvida pelo asfalto para contornar o caminho dos fugitivos. Para além da chuva que caía, não importava aos homens que passavam coisa alguma, e Miguel percebia, ao sentir a lembrança do cheiro de sua mãe, tamanho desamor pertencente à rua, desvio entre o céu e o buraco. À medida que soluçava, o silêncio dentro dele crescia vacuolar. Bem, ele podia ser jovem, mas não era tolo. Seus pequenos pés compreendiam o peso do pisar entre a lentidão do múltiplo crescimento. E a desolação que sentia era na transformação incessante de toda a verdade, no perceber o iminente abandono.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Miguel

Miguel sentou-se no meio da rua e começou a chorar. O imenso desconsolo das mãos que lhe cabiam expunha seus fantasmas para fora, e a cada nova maré seus olhos tornavam-se cinzas. A fuligem de seu corpo negligente atordoava o restante dos seres que ali viviam e compartilhavam, em presença, a rua que ele atravessava, parado pelas pernas e acuado pelo chão. À medida que soluçava, a berros, o silêncio dentro dele crescia vacuolar. A coluna enrolada movimentava o sangue dele para dentro da terra, ignorando a solidez desenvolvida pelo asfalto para contornar o caminho dos fugitivos.

Bem, ele podia ser jovem, mas não era tolo. Seus pequenos pés compreendiam o peso do pisar entre a lentidão do múltiplo crescimento. E a desolação que sentia era na transformação incessante de toda a verdade, no perceber o abandono iminente, fatídico, ao amor confiado numa outra pessoa. Miguel não precisava erguer os olhos para notar o movimento triste dos homens, esvaziados e confusos, desconfiando à própria perdição, inevitável a cada troca de ares entre o céu e o buraco.

A mancha verde-musgo na parede do quarto de Miguel era a única certeza de pele que o atraia segurar. Todos os vultos lá, gritando vértebras e intestinos, contornavam a mancha real na casa dele, que ocupava o centro da consciência, para além de saculejos e ondas turbulentas. E a beleza desta rua soturna morava no antigo perfume de sua mãe. Acompanhando a mancha na parede da casa, Miguel sufocava o choro com o antebraço direito, aspirando compulsivamente em busca de origens, algo da ancestralidade maternal presente em suas memórias e nos pelos dos braços humanos. Entregue ao avesso do mundo oficial, lançou-se em meio ao asfalto, desafiando a plenitude de seus ossos. Eis que, no segundo sucedido de inteira vida, o acontecimento encerrou aquele instante em história, na asa de reluzente borboleta voando por entre os carros da rua. 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Del Rey de Pororoca

Era onde sono e natureza arranhavam pra despertar e som só vinha com miado de gatinho. Neste tempo, menino se alimentava em preguiça e todo cheiro era de folha amassada. Por lá só se chegava quando pássaro tirava furta-amor do bolso e canela com cravo sabiam esquentar. O caminho já bordava vestígios do vento em aparições do grotesco.
De passos vagarosos por amanhecidos, o longo descampado de poeira e gente desenrolava-se para a entrada. A atmosfera rangia de desconhecido, atiçava menino dormente. Por todo lado os olhos vagavam de mentira, pra inusitar quem observava, de tanto procurar em-cacho. E os sorrisos espectantes eram por surpresos da quantidade de beleza acidental.
A vida ia passando devagar, e a compreensão atingindo o nível das tripas. No cangaço de Macondo é que se achava gente chorosa, apertando o peito com fulgor, feito canção que tomava conta dos miolos. Os envelhecidos de juventude desapareciam como rei, mas os embriagados de coração é que sabiam parabenizar com verdade. Profeta de mãos pra cima predizia o caso do bonitão e a princesa, e a dona do puteiro dançava com o cafajeste afeminado por companhia da noite. Era mistura de dor com complacência, o rosto do dono das cordas. E o rebolado sincero de quem anunciava sentimento levava a multidão ao ensurdecer do grito.
Na tonteira do vai-e-vem, os oito anos do menino auto-explicaram um quarteirão pra quem não tomava banho e xingaram todas as palavras grandes capazes de seus ossinhos. Com título verídico de embriaguez, as moças tornaram o sabido da rua ex-sabichão e foi-se embora a história de Pororoca. 

sábado, 17 de setembro de 2011

100 dias de solidão

O Ponto de Partida - A melancólica jornada do sequestro da novidade

Passei os últimos três meses parada e só num ponto de chão. O horizonte deixava claro a falta de pessoas. Um algo surgiu, me derrubou  em tumulto, encheu-me de pancadas e se foi. O que aconteceu?

A percepção do acontecimento da falta de acontecimentos

Estávamos dançando pela bola concreta, todos objetivamente juntos, em pele e aspecto. A presença polida em gelo daquele que não pode ser nomeado esvoaçou meus cabelos perdidos em mágoas. A existência veio me trazer o mundo para tatear, segurar nos braços. Nossa junção física não rompia as bolhas de distância ao redor - ignorá-las só as fazia menos translúcidas.

Sim, minhas roupas são de gente velha. Carrego nos lábios um sorriso inverossímil e buracos por debaixo dos
olhos. Meus cabelos estão verdes de desbotados, não mais azuis sorvete e espacinhos entre as árvores do céu.
Quando cheguei à porta, procurei as chaves ao fundo da bolsa, onde costumeiramente se escondem para me manter fadigada do lado de fora. Mantenho-nas presas a muitos chaveiros para que não me possam escapar os dedos; hoje meus dedos encurtaram.

10-11

Remixes indesejados e desrespeitosos vêm de qualquer lugar cinza de fumaça e não me deixam dormir. Escuto a hostilidade dos que não vejo. Os pêlos do meu braço eriçam de tristeza no ar tóxico da atmosfera. O céu é de um azul tão limpo de nuvens que engole devagar. É o horizonte separando as pessoas em espaços. Afinal, mundo também é uma palavra vazia de gentes.
Esqueci como as nuvens chegam ao céu. Será que ninguém percebe sua ausência?
A hostilidade é a distância medida em bolhas invisíveis. Um bom observador pode senti-las em rostos que compõem a sensação de existir em sorrisos de simpatia, mas que têm um dos olhos mais para a esquerda.
Acho que os remixes vêm da bola gigante que preenche o concreto e reúne pessoas em distâncias.
(Espero que um dia a formiga tenha consciência dos dez mil elefantes ao seu redor e sinta o horror de um despenhadeiro. Seria sublime.)
Os segundos do meu relógio de parede passam conforme deveriam, mas o ponteiro nunca para de marcar sete horas. Estou vivendo uma fotografia. 
Toda esquina é repleta de memórias-fantasma. Quero ruas virgens. As pessoas da cidade tem as mesmas sobrancelhas, eu já as conheço todas. Um nariz torto já não me é mais um nariz torto.
Busquei cartas e certidões de nascimento, mas elas não me buscaram de volta. A vida perdeu o interesse em mim.
Esse remix não são vários, mas um só, infinito, que parece querer englobar todas as músicas do mundo. É como dias de sol; eles reúnem num só tempo e espaço todas as coisas em mormaço.
Prefiro a solidão de ser ninguém em meio a tantos, esbarrar nas pessoas e romper bolhas a força. Onde estão as bifurcações que não pagam salário? Não posso parar o remix.
O futuro virá - tem que vir - com a chuva.

O Processo de Desconstrução


A preparação


Estava eu dançando tango com meu eu-fantasma, rompendo o não-eu e descobrindo nuvens na noite. O concreto da bola, dessa vez, vinha como uma cidade grande inteira, uma solidão agressiva, que se fazia perceber e pedia liberdade.

A natureza está em revolução.
O branco do céu vem em mini-pinceladas.
Elvis se gatinhando em mordidas de companhia.
O momento do entendimento no silêncio das palavras ditas em sutilezas.
A lembrança do devir-lembrança.
Chove para cima nas pernas que realmente andam.
A volta do menino-tricô.
Extremidades felpudas do ocelote-revira tempo-pleroma-aurora boreal.
A complacência na infinitude da experiência.
O vento cinza.
A amarelice dos dias amarelos.
A historicidade da matéria.
A procura pelos cabelos encaracolados em voo.
A infinitude dos metros.
A solidão da biscoitidão da bicicleta.
A tontura do nadar em costas.

"O vento engoliu as pessoas e está soprando elas de volta!"

Posso ver o monstro sem colocar sangue na cabeça e sem virar as gentes ao contrário. "O monstro já foi embora, ele só precisa ir em paz".

Senti dois pingos.

O céu azul voltou a intercalar-se por árvores em movimento. Não é o mesmo sorvete; veio em formato de esperança e pureza envolta em umidade.