este sentido doado à matéria afetiva esticando-se por estar vivio
já foi devorado pelos rodopios do tempo, as tantas deformações inexatas
dessa entrega à mitose dos magnetismos.
não há como proteger o dia do dia, todas essas notas fictícias transgredindo
o interior dos abismos esquecidos. aos olhos de dentro não se pode velar
a fatalidade da experiência.
todos os escritores agora nas dimensões de outrora sussurram nas vozes dos
amigos corajosos e perdidos sobre as pedras do rio - nós escrevemos o nosso
medo da morte.
explorar o oceano é uma aventura infinita,
aqui se revela a realidade do invertebrado e a visão da terra encoberta pelos
bosques silenciosos.
as folhas estarão emendadas pelas teias das aranhas transparentes do esquecimento;
está profetizada a minha resposta, mesmo que eu não possa contar a verdade,
a fênix dos sonhos nos reinos dágua.
o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
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terça-feira, 6 de dezembro de 2016
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quinta-feira, 25 de setembro de 2014
seca pt 1
equinócio de primavera: súplicas
os espaçados sons reverberavam para todos os instantes até aqui, a oportunidade irremediável para onde desaguam todas as escolhas desde o anterior nascimento, que já então vislumbravam essas palavras, desatolando-me às tantas experiências de quando pude antever a terra já acontecida, os acidentes sempre já soando ao limite pelo movimento ininterrupto dessas mesmas palavras já antes muito muito antes para sempre reescritas e rearranjadas novas outras, por mim, frente à extensão do som
que à gaguejante potência não se faça só ode pelo pensamento da linguagem que se constrói sabedoria, mas ao descontrole pela compreensão, o traço pelo traço, os movimentos estendidos dos dedos sobre a pele os olhos frente aos quais o sentido falha em acessar este segredo de abismo, mas ao qual se percebe diante do compartilhar, já que não posso existir isenta ao grito que urra desde o primeiro alambique, pelos olhos
o furioso desaguar desimpedido horrorizado pelo instante submerso às entranhas atravessando-se para expulsar o acúmulo do aumento pela desintegração que não cabe ao que solidifica inteiro desvio de propósito à totalidade
estas palavras esvaziando-se para que nunca morram, desde o toque apaixonado pela descoberta
desde o vislumbre pela destruição da necessidade à verossimilhança enrugada, um sopro de ar ou silêncio por entre os acordes, uma direção aberta, tantas mãos, e o que se faz, pelo que se é
frente ao incomensurável desdobrar desta envergadura, no solo, nos entres, entranhas aparecidas pelo contemplativo agradecer, renascido pelos segundos triturados em distensão
desde todas as medidas desmentidas pela verdade escorrendo veredas
porque sim].
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quarta-feira, 30 de abril de 2014
round and round and round
[right now it flows into mind something related to that girl with really big beautiful red hair and that handsome man who once touched my guitar, and i was playing like i meant it, the sounds and words just sliping out overcoming language because right now i feel like my fingers and this ink over white paper are creating something out of thin air just expanding all of us that were already existing together because this love can never leave us, it's inside of us. and growing.]
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segunda-feira, 24 de março de 2014
arruinando
estávamos deitados ao cair da noite, embalados por sono mal aproveitado e entregues ao conforto desta cama velha, as histórias ao redor, em livros, pequenos objetos vivos, fotografias e alguns discos que eu não tenho o hábito de ouvir. você respirava fundo e eu não conseguia tranquilizar-me comigo para abrir o vão, criar coisa nova com cheiro de antiga, passar tempo na conhecida cidade espaçada em outro lugar, espalhado pelo corpo. quando afastei necessidades tolas e projetos fracassados, o instante vazio, pretendendo um sonho, foi preenchido pela vontade secreta das memórias. lembrei-me daquele sofá numa configuração outra, luz amarelada, a jovem madrugada convidativa, inúmeras xícaras de café, e pude sentir o cansaço enganando meu sangue que corria, como se antes não fosse tempo longínquo, rosto amado, distância inevitável dos instantes. mas eu havia escolhido, no desconsolo de jamais esperar por dizer o que me saltava aos olhos, meditar o momento agora, que estava acontecendo. todos os braços carinhosos fazem ausência quando só existe retornar a esta casa de mentiras. foi aí que, na tentativa de acompanhar sua respiração, bem de perto, a sensação familiar de toque-entre-vidas, a pequena deitada sutilmente sobre meus pés para abençoar o caminho com a sabedoria da lua, eis a erupção dos traços, matéria das palavras. eu não queria me mexer para aprender com a passagem. então, foi-me saindo pelas costas uma memória vermelha e fluida, com jeito de gente e um sorriso que eu sempre conhecia. ela deitou-se no espaço vazio da cama e, ao meu breve desespero por tocá-la, virou fantasma, atravessável, que me encarava, e foi sumindo... sem saber como suportar o resto da vida, abri os olhos para ver o vago próximo acontecimento, que nunca chegaria, que promete a continuidade para compreender qualquer importância desalegre, em presença, de dentro de mim.
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terça-feira, 21 de maio de 2013
Aqui, em estático minuto, respiro para sempre este ar compreensivo de teus olhos fundos. Desacredito em tanto acreditar, rochedo, matéria, esse cruzamento em sensação, de requerer resposta. A ti, como responderei? É sempre pouco sim meu sorrir e dizer, no desdizendo destes finos tracejar, carinho demorado, não é em qualquer vida. Não é em qualquer corpo. É devido companhia, sinceridade no contato, querência de coisas absolutas. É sempre baixo ruído, fraco rebuliço, no instante pálpebra com pálpebra, o perigo do esquecer, remorrendo em ato feito, incontrolável. Meu sonho recorre memória, requer reconhecimento, de entender o passo. Não é possível desistir para abandono, sucumbir no alagado, desaguar todo absurdo.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Do nascimento
(Biografia, parte 1)
Os caramujos dos cabelos vieram em inconstante ventania de fim de tarde, quando todas as coisas viram luz. Não há olhos com mais miudezas infinitas que estes olhos nascidos do buraco do mar, onde há terra solta e os bichos se escondem. O sorriso doce comporta palavras ditas em segredo, explosivas pelo caminho natural destes pés. Ela é filha de sereia mitológica com mago dissolvido, e existe por todos os lugares. Todos os sentidos do mundo remetem a seu abismo, aberto e invisível pela altura do peito, de onde brotam os eternos cordões tangíveis.
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quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Sophia
Quando leio
de desolação sinto
abraçar o poema
acariciar as palavras
em sufoco de braços pesados
como quem se atira
se entrega
ao rosto de ninguém.
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segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Rapid eye movement
Assim como sabem as pontas dos dedos o tempo, estes cílios de tronco, alguma força elementar, tornam cada branco uma vez só o mover da cor, empoeirado e polido, feito pés batendo em silêncio, por debaixo das raízes. Não é de regalo, nem motivo de dentes, mas com sonho errante. As pegadas, uníssonas, em caminho seguido, sempre, daquele que não para, mas faz movimento do céu e completa solidão de montanha. Nele, habitam todas as coisas vivas, e o pudor de suas costas sabe cumprir osso, pele, fibra. O som vem contido em íris, risada enrugada, nariz trabalhando com queixo, e então o rosto a serviço do vento. A cadência é manifestação da gentileza pelas pernas de homem que não desiste em desaguar.
sábado, 18 de agosto de 2012
De oito a treze
1. Embaixo da terra foi quando o mundo se percebeu quadrado, devagar, em força de coisa dura. Não foi diferente que senti os pés pelas mãos, fora de presença, mas tomados por olhos vermelhos. Sua existência em maciez me acalenta apenas a verdade do corpo, pra desorientar o vazio da destruição. Não foi da voz do outro lado da vida que surgiu nuvem, que veio raio de sol para curar a cabeça. Foi, ao contrário, aqui nos dedos firmes como vontade única que flor desabrochou para vulcão consumado em cor. As coisas doces vêm em cheiro, por ar desinibido, mas montanha não caminha à toa. É abaixada e sem pressa, para não mover o chão. O tempo só passa quando o vento aparece, mas disso se sabe. Certas luzes brancas devem ser apagadas, qual desapego em sonho, movendo poeira.
2. Não escondo a palma do pé de monstro que mora em umbigo. Cada folha perdida já foi embora com o vento de agosto, como se os planetas se alinhassem por dentro, em nós, tomando espaço. Há algo no tempo que concentra certeza de vida, feito fio, como que conduz tinta, que tem corpo, surge, feito acontecimento em ação, em movimento, no simples passo, construção desolada, ruínas, noite escura, mas estrelas. Palpitar, mesmo tremido, mesmo sem ver, mesmo descalço, correndo, com tempo no rosto, em rugas, de dia, sorrindo feito tartaruga, mas de verdade, sutil, em presença, de carne e osso e cor e som e voz, dá pra pegar, é invisível, devir-existe. Não é um sonho. Os braços são fortes, os olhos gentis, a pedra é cristal, café forte, mão trêmula, gente derretida, nariz repartido, como observação de velhinho se olhando no espelho. Dorme, pequena. Isso aqui é poeira do céu. Ninguém vai te atrapalhar, porque eu não deixo. Tenho em mim, pra ti. No sangue. Na íris. Porque se tudo não desfosse, não haveria pele. Se não jorrasse movimento, não haveria pausa.
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terça-feira, 10 de julho de 2012
Lua cheia em câncer
(Os olhos turvos é que rabiscam o ventre. A tristeza do bicho era derreter dedos, sufocar lábios, mãos para si mesmo, que o coração é seu. Por dias parece voz, mede silêncios em sorrir desculpas, arrependida das palavras. Confie em todos, mas desconfie de gente endireitada, sem querer ossos para a esquerda. Umbigo não existe pra ser um só, que ser é mais de alguém quando chove justamente para florir.)
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