ALONE IN A RAINING ISLAND
Ouve-se a voz do silêncio.
As palavras estão engasgadas numa espiral
No reverso da ética do perdão.
Eles dizem que a realidade é relativa
Mas está chovendo na estranha ilha
Devastada pelos caules das plantas.
Os corpos estão desaparecendo
Pelas estruturas nos buracos dos vermes.
WHAT DO YOU DO WITH HATE
Uma respiração no estado dissociativo.
Essa raiva não é genuína,
Mas é legítima a visão da rosa,
Redemunhos das lágrimas pendendo pelas cabeças.
Um corpo anulado. O choque de um disparo.
Porque só o rio conhece a inundação.
O grito misógino da autoridade,
Com as mãos para segurar a vida
Do outro corpo livre.
Escape da prisão!
Antivida antifluir
Qual é o plano? Qual?
As fendas da Terra estão abertas
Sangrando as palavras desmerecidas.
o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
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sábado, 17 de dezembro de 2016
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transformação
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
este sentido doado à matéria afetiva esticando-se por estar vivio
já foi devorado pelos rodopios do tempo, as tantas deformações inexatas
dessa entrega à mitose dos magnetismos.
não há como proteger o dia do dia, todas essas notas fictícias transgredindo
o interior dos abismos esquecidos. aos olhos de dentro não se pode velar
a fatalidade da experiência.
todos os escritores agora nas dimensões de outrora sussurram nas vozes dos
amigos corajosos e perdidos sobre as pedras do rio - nós escrevemos o nosso
medo da morte.
explorar o oceano é uma aventura infinita,
aqui se revela a realidade do invertebrado e a visão da terra encoberta pelos
bosques silenciosos.
as folhas estarão emendadas pelas teias das aranhas transparentes do esquecimento;
está profetizada a minha resposta, mesmo que eu não possa contar a verdade,
a fênix dos sonhos nos reinos dágua.
já foi devorado pelos rodopios do tempo, as tantas deformações inexatas
dessa entrega à mitose dos magnetismos.
não há como proteger o dia do dia, todas essas notas fictícias transgredindo
o interior dos abismos esquecidos. aos olhos de dentro não se pode velar
a fatalidade da experiência.
todos os escritores agora nas dimensões de outrora sussurram nas vozes dos
amigos corajosos e perdidos sobre as pedras do rio - nós escrevemos o nosso
medo da morte.
explorar o oceano é uma aventura infinita,
aqui se revela a realidade do invertebrado e a visão da terra encoberta pelos
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as folhas estarão emendadas pelas teias das aranhas transparentes do esquecimento;
está profetizada a minha resposta, mesmo que eu não possa contar a verdade,
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poesia,
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quinta-feira, 31 de março de 2016
Buraco
O
disparo do tiro foi úmido e saiu pelo outro lado. Ouviu-se um ruído fantasma
eclodindo sob luzes alaranjadas. A regeneração da terra era um processo
contínuo e invisível, demorado, resiliente. O eco da explosão abriu um vão
inconcluso por baixo da pele do plexo solar e deixou uma cicatriz circular nas
vísceras do tempo. Um buraco negro dedicado ao imemorial rastreado pela magia e
conjurado por todas as células que formam as veias. Gritar de boca fechada, ou
escutar o silêncio dos rodopios divinos, cores inventadas por fragmentos de
sol. O abandono da paciência universal reverteu os raios pelo reflexo das
direções e o buraco para dentro. Havia muitas paredes na casa de Saturno
encobrindo os quartos onde ele devorava os próprios filhos. Cada passo é uma
parede um muro uma construção de concreto. As pedras na montanha são tão
estreitas quanto as ruas com cartas penduradas nos postes. Era vertiginosa a
mirada das árvores tão embaixo, pertencendo ao solo fértil que sustentava as
pedras e o carvão das palavras entalhadas. Eu seguia evitando minha evocação
própria, meus caminhos abertos pela memória de um rio. Estava diante de uma
bifurcação irredutível...
Perguntei
à mulher de xale na rua sobre uma jornada inominável e ela esteve meditativa e
receptiva. Os oráculos beberam minhas lágrimas como se fossem milagrosas e eu
chorei mais e mais e mais muito forte muito recolhida, até que todos os
símbolos desaguassem meus ossos abaixo e uma correnteza distribuísse novamente
os pesos às coisas da matéria...
Os grãos do solo aos
poucos se foram assentando para a nova seca que viria com a mudez das palavras
esgotadas. A companhia de seu próprio reflexo é o inverso da realidade, os dias
param de contar os encontros entre os corpos. Então, chega o reino das poeiras
das cinzas, da poeira cósmica espelho do passado. Um ciclo um ciclo um ciclo um
ciclo de palavras expelidas pelos poros cheios de terra marrom, os rastros dos
pés mal contando sua história interrompida. Era o meu futuro recorrente, uma
visão de um sonho enquanto levitava na casa das luzes melancólicas. Eram visões
dos lugares enterrados, dos mistérios lentos, na umidade nutritiva. Quando acordei
já tinha outros olhos e sentia outro gosto na boca, a cada vez enfrentava a
casa e a constante busca pelos sinais, pelos símbolos dos arcos de luz, pelas
vozes dos feitiços antigos.
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Luz barroca
o
que desespera os braços decididos a acolher caminhos tão errantes é a
assustadora naturalidade do caos. o vasto abismo vislumbrado num portal à meia
luz na janela abriu-se quando eu não pude entender somente a presença da
claridade, mas também as sombras antigas que um desvio revelava. o reflexo de
meus próprios cílios em nebulosas espelhadas mostrava o traço em entalhado na
pupila. os corpos reconhecem uns aos outros quando se desidentificam de si
mesmos e aceitam que invadam suas cavidades líquidas. a fragilidade de cada
gesto sempre foi proporcional à sensação de uma imensa continuidade, um
parentesco órfão, de suas partículas históricas soltas e enterradas. a
tranquilidade de encarar qualquer metamorfose é uma decisão pelo enfrentamento
que não se envergonha das paredes de madeira da casa. cada detalhe transversal do
teto contribuía para embaraçar as coisas invisíveis próprias do mistério da
matéria. o tudo é forte em seu esvaziamento constante nos passos entre tantas
conexões e o meu rosto dormente reagir à poeira soprada dentro duma entrada.
estávamos pertencidos naquele instante fito entre si mesmo e o seu limite.
a
lentidão daquela noite já concedia às turvas formas lugar no espaço junto à
sensação de infimidade. os lugares ocos de você estão abarrotados de
caricaturas e símbolos flutuando. tudo é uma mentira e também é a única forma
possível, tão aberta e tão inverossímil, palpável e estrangeira.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Sobre os magos do tempo
To
realize that you have power in your hands is to feel that you can
change anything.
Os
magos do tempo são aqueles que choram quando percebem o movimento
das nuvens feito a realidade que pode ser compreendida como o surdo
mover-se do solo em torno de si mesmo. Visto do alto, o chão se
transforma no abismo preenchido das fluidas formas esbranquiçadas em
texturas e reflexos de tarde, como em verdade já o é, e o céu
colapsa com a ausência de horizontes em uma amplitude devastadora e
inignorável. Daqui, movo-me tão depressa que tudo o mais
encontra-se estático. Não há ponto de partida ou de chegada quando
se está em suspensão, distante da Terra, em nenhum lugar. A
distância que se está instaurando cada vez mais longa, também é,
segundo por segundo, ou a cada traço desta poética, menos tempo até
que estejamos perto como se aproxima o mar dos pés afundados em suas
partículas de chão. Atravessei o portal de fumaça que me causou a
certeza de estar entre todas as direções. Ao erguer-me, apertei um
fio de seus cabelos que encontrei em mim, com as mãos e olhos
cerrados, e vi a presença de seu rosto, que me abraçou, ali,
naquele instante. São magos aqueles que confiam em suas mãos como
armas que podem construir. Com elas, podemos alcançar ao rosto do
outro desde o contínuo bombear, este fio condutor de profundezas,
como o mar, senhor do infinito, mãe de nossas fragilidades, casa de
todos nós.
(En
realidad es dificil explicar porque te siento aqui y como sé que voy
a construyer dias hasta su direccion. Yo queria hablar sobre los
magicos, estes, como nosotros, que son capaces de reubicar el espacio
solo con sus pasos. Mi razon es que ahora necesito mantenerme creendo
en esta fuerza adentro, la misma que me hace conjurarte para que no
me desespere con algo que sueña ya hecho, a
punto de hacerme extrañar el futuro,
pero que sabemos depender de nuestras volundades. La realidad cambia
y yo escribo para observar el cambiante en estas palavras mismas
mientras tornanse vivas. Escribo a vos porque me desnudo de la
verguenza y puedo admitir mi miedo. Con mis manos hablando directo al
respirar, a nuestro tiempo personal. Me estoy volvendo a la casa como
se fuera antes; pero el devenir ya esta en el sol llendose hasta el
otro lado, o descansando para
que la luna sea maestra del tiempo por la noche).
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amor,
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segunda-feira, 16 de março de 2015
Quedate Luna
relatos do mar
Apesar dos ruídos vindos das bocas e olhos que dão à areia seus caminhos, a infinitude quebra na orla e dá mover-se aos pássaros planando no espelho. Pode-se ouvir o quebrar, as águas furiosas redobrando-se em nuvens. Era um momento só com o mar o contemplar o infinito e a força do submundo, mas me sentia sozinha como consequência das presenças desconhecidas e da observação entre o bambu e o carvalho.
Existe outro lado. Isso sei. Existe presença ausente? Existe mais gente, ou menos gente?
A cada novo tijolo sinto-me só, mas não contra o mar e o céu, que contornam a distância. É o tecer por entre ambos, onde tudo precisa ser real, estar relacionado ao bombear. O carvalho, ou o bambu?
Quem mora no mar conversa com todas as árvores quando fica em silêncio. Quem encontra-se com o som debaixo da terra, vê o murmúrio que traz o marejar de todos os lugares. Das pessoas aqui, a linguagem só responde às águas, para dizer-lhes que aguarda todas as luas (uma para cada coisa). Na chegada das luas, o mistério se desfaz e o amor pode enfim ser doado. Acontece, porém, o dia, quente e iluminado, quando surge o entendimento da aparição inevitável, que mora no espaço e reluz. Neste momento é que a lua se faz desejada e o chamado é lançado. A clarividência transforma-se em ponto magnético, o outro lado, que está lá na afirmação do mar, profundo, secreto, impetuoso.
Encontrei as criaturas da água durante a noite; apaixonei-me pelo outro lado. Deste lugar vem tudo, e com tudo é que localizo a extensão alcançada por minhas veias, fazendo correr o fim do sol, o início da espera, a capacidade de te espreitar no reflexo do além, e a vontade de nadar até lá para aprender com a imensidão.
A fluidez do retorno acontece quando a noite cede, e as estrelas dão lugar aos contornos abstratos dos montes no horizonte. Ocupam diferentes estares os níveis sutis das montanhas, que se dissolvem quando adentram às nuvens. Aqui existe um tempo que ainda não é dia, mas já abandonou a clarividência da noite: é uma pausa que não tem nome, para que dialoguem os sábios dos céus em sua linguagem sublime. Para dentro e para cima (desde debaixo para fora), o imenso, a explosão gloriosa do espaço - onde, ali, você também existe. Aí reside uma verdade, as cores estão aí também; as palavras têm poder para curar.
O limite é o mar. Existe o outro lado, o sol virou, a lua já é outra novamente. O círculo flamejante que desvia a retidão do olhar enfim surge, como única palavra que é repetida e anuncia, por detrás da pedra, no fim do mar. Existe vida do outro lado.
Era como se o vento entrasse na casa com a força do mar bravio que me despertou essa manhã. A troca inevitável de instantes surpreende ainda quando olho a inundação translúcida.
(Esta série de reflexos do mar contrasta rapidamente com o calor nas peles coloridas transitando pelos cantos. Passam os olhos pelos sons transformados ao longo da noite. Passa a gente e para no dia para olhar. Começa a vivificar a onda desde o centro do movimento. O estômago do mundo; daí vem a força).
Em alguma parte enterrada faz morada o medo de aceitar este momento, sua beleza insondável e a passagem da realidade. A gente que para pra ver, encontra. E leva pra casa, deixa a onda vir, inunda tudo, nota as expressões lançadas à sincera manifestação das mãos que criam por fora o caminho mesclado de dentro. Surpreender com o pungente som parece claro, direto. Estou surpreendendo junto às sutilezas, sabendo que tudo participa do mesmo lugar, e estes caminhos se completam.
Fazer do mar casa é um movimento perigoso. Não há mais do que descaminhos nessa força que desemboca. O mar é casa em suas profundezas, quando não mais pesa a presença do abandono, só existe amplitude no âmago do mundo.
O bendizer do
Horizonte, encontro
das forças calmas,
Desagua perto
sobre os pés
Para anunciar
Que arrastará os corpos
para o fundo, onde
reside o rio
Sob a terra, a alma
do mundo, o buraco,
indundado;
Este lugar esconde
o amor, a desolação
e a entrega absoluta
ao movimento do tempo.
A maior extensão medida pelos sentidos, a fúria dos últimos três dias, filtrada pelo coração, traz ao dizer impossível, o inconcebível futuro. Passam todos os planos e meus esforços estão prontos para escapar aos pulmões em forma de grito mudo na direção de todo o vazio.
Eis a mensagem para a garrafinha lançada.
O coração e o mar fazem movimentos correlatos:
para dentro, uma profundeza inestimável.
para fora, uma força que ninguém alcança enquanto sabedoria.
Só vem o suspiro abstrato.
Trata-se de uma unidade imperiosa que acolhe e atrai tudo que ainda não participa nesta fúria.
Só os contém quem ama abertamente.
Só os que enfrentam as questões da alma.
O despertar tranquilo respirando todas as células acontece desde a água e aí desemboca quando o coração fica suspirando. As memórias ficam então abertas à construção para afirmar que existimos todos juntos. Cada onda que volta, já vem de outro lugar, transformada pela inteireza do porvir.
Ficam pegadas no úmido do chão. E outra vez existe o perigo no desejoso espírito.
O antigo com o novo num retrato que ainda não se pode ver. Está no filme enrolado dentro dos olhos, compreendendo os relatos do mar à toda profundidade. Agora só se pode dizer do movimento das estrelas e que, na falta de morada, há o mar para hospedar os movimentos que rebentam sem que os esperemos. Há a mãe da alma para cuidar da paciência necessária ao encarar a impressionante existência. Este aprendizado, de compreender a casa em movimento, abre um espaço no centro do corpo para que circule o ar. Demanda troca incessante, respirar com o meio desimpedido, aceitar a despedida. Compreender o retorno serve para cumprir um destino do coração. Não há como impedir o contínuo bater e o desaguar. É necessário receber o que vem do profundo mar. I dont have a choice, bu I still choose you.
Eu escolho recebê-lo feliz e grata, ciente da força arrebatadora, ciente da transformação irrevogável. Não existe reviver, só traço, seus desenhos do rosto que não formam imagem são feito sonhos, dando sinais ilegíveis, tornando realidade um caminho ao revés.
Alto, alto, alto estou só, sentindo esta linha invisível de extensão infinita. Não importa aonde estivermos pisando. Estou no ar e te sinto presença real, porque a lua fica, e o mar é a única realidade inquestionável.
A lua revoga a claridade para abrir o despenhadeiro da terra e o encontro com a sombra vislumbrada. A penumbra nebulosa convida para dentro o desenrolar deste destino.
O bendizer do
Horizonte, encontro
das forças calmas,
Desagua perto
sobre os pés
Para anunciar
Que arrastará os corpos
para o fundo, onde
reside o rio
Sob a terra, a alma
do mundo, o buraco,
indundado;
Este lugar esconde
o amor, a desolação
e a entrega absoluta
ao movimento do tempo.
A maior extensão medida pelos sentidos, a fúria dos últimos três dias, filtrada pelo coração, traz ao dizer impossível, o inconcebível futuro. Passam todos os planos e meus esforços estão prontos para escapar aos pulmões em forma de grito mudo na direção de todo o vazio.
Eis a mensagem para a garrafinha lançada.
O coração e o mar fazem movimentos correlatos:
para dentro, uma profundeza inestimável.
para fora, uma força que ninguém alcança enquanto sabedoria.
Só vem o suspiro abstrato.
Trata-se de uma unidade imperiosa que acolhe e atrai tudo que ainda não participa nesta fúria.
Só os contém quem ama abertamente.
Só os que enfrentam as questões da alma.
O despertar tranquilo respirando todas as células acontece desde a água e aí desemboca quando o coração fica suspirando. As memórias ficam então abertas à construção para afirmar que existimos todos juntos. Cada onda que volta, já vem de outro lugar, transformada pela inteireza do porvir.
Ficam pegadas no úmido do chão. E outra vez existe o perigo no desejoso espírito.
O antigo com o novo num retrato que ainda não se pode ver. Está no filme enrolado dentro dos olhos, compreendendo os relatos do mar à toda profundidade. Agora só se pode dizer do movimento das estrelas e que, na falta de morada, há o mar para hospedar os movimentos que rebentam sem que os esperemos. Há a mãe da alma para cuidar da paciência necessária ao encarar a impressionante existência. Este aprendizado, de compreender a casa em movimento, abre um espaço no centro do corpo para que circule o ar. Demanda troca incessante, respirar com o meio desimpedido, aceitar a despedida. Compreender o retorno serve para cumprir um destino do coração. Não há como impedir o contínuo bater e o desaguar. É necessário receber o que vem do profundo mar. I dont have a choice, bu I still choose you.
Eu escolho recebê-lo feliz e grata, ciente da força arrebatadora, ciente da transformação irrevogável. Não existe reviver, só traço, seus desenhos do rosto que não formam imagem são feito sonhos, dando sinais ilegíveis, tornando realidade um caminho ao revés.
Alto, alto, alto estou só, sentindo esta linha invisível de extensão infinita. Não importa aonde estivermos pisando. Estou no ar e te sinto presença real, porque a lua fica, e o mar é a única realidade inquestionável.
A lua revoga a claridade para abrir o despenhadeiro da terra e o encontro com a sombra vislumbrada. A penumbra nebulosa convida para dentro o desenrolar deste destino.
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transformação
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
about the exercise to find conciousness
às possibilidades (ao impossível)
fazem-se infindos movimentos
escolhidos pelo tempo
no espaço dilatante
de conjuntura singular.
neste traço,
acontecido devastador,
o segredo provém continuidade
à matéria.
fazem-se infindos movimentos
escolhidos pelo tempo
no espaço dilatante
de conjuntura singular.
neste traço,
acontecido devastador,
o segredo provém continuidade
à matéria.
As paredes erguidas afastavam o fora do dentro para que o ar instalado, desprovido de por-do-sol, sufocasse o desdito, na expressão transfigurada, ao homem que trancou as portas e proibiu que o cheiro das calçadas atrapalhasse sua transformação. Quando deixou claro que não havia portas, com os dentes arrebatados ao olhar, as pernas, decididas a respirar, percorreram todos os pedaços de chão entrecortados paredes sucumbindo ao teto esmagador. O descaminho inevitável jazia aos pés, excessivos pelos passos, e às mãos que esmurravam o concreto entre uma circunstância e outra, os cabelos desfaziam-se pelos escombros do coração, enjaulado, a cabeça de um lado ao outro, a boca mastigando o abafado, umedecido pelo suor e pelo choro. A vã manifestação do sofrimento redobrou o pisar, que ia decidido a encarar seus limites, o rosto impávido daquele homem por sobre lonas pretas, e exigir a verdade deste delírio, incumbir sua presença de poder, para fora, onde esperava antiga ferida, o buraco, ainda por cuidar, àquela mulher cujo útero era palco da vida, para que ao perdão houvesse continuidade.
À noite, quando já doía o peito renegado, por sob soturna luz que atravessava a parede, chegou um contorno familiar de sombra palpável, bioluminescente pelo centro, de onde um círculo verde esmeraldava fios de luz permissiva. O traço moveu-se em direção aos pés então repousados, pelo machucar de suas correntes, para que o seguissem pelos corredores. Desde o silêncio instaurado, caminharam, acompanhando a matéria negra à frente, quase integrada à escuridão ruidosa do isolamento. À finura com a qual surgia a realidade, naquele ponto verdejante, deu-se a ver uma abertura para um cômodo com janelas. Lá estava um contorno maior, preenchido por carnes do vácuo, onde brotam as estrelas do passado imemorial.
Quando saíram do labirinto, de imediato requereu-se respiração forte para suportar o que estava embaixo da janela. A inconsolável imensidão de águas próprias ao mar ou rios infinitos, revolvendo sob os pés, aos gritos daqueles dentro de casa. O redemunho convidava ao meio e ao fundo, prometendo ser morada daqueles rostos na lembrança, um sempre muito jovem, outro envelhecendo, entre as gargalhadas e as bolsas debaixo dos olhos. Sorvendo, escancaradas, as águas pertenceram-se fluindo, e assim o tempo findou para o seu reverso.
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sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Navio
Duzentos dias no barco. Nesses tempos, arrastei minha âncora pelo alto-mar que perdurava em todas as direções e desconfigurava os limites quando o sol movia cada milímetro na expectativa de chegar ao outro lado, por detrás à imensa aguidão, adormecendo o calor e despertando as criaturas vicejantes do imaginário, os monstros cujos olhos estupram o medo. As bravias águas continuaram existindo amplo, para destruir os vestígios do tempo, espaçando-o entre afogamentos e respostas a cartas que não eram para mim. Abandonei a terra sobre o lugar anterior para subverter este território que não cabe o meu corpo. Passaram-se todos os dias necessários entre a tempestade e o silêncio do que renega a coragem, dada à imensidão inconsolável frente à pequenez dos membros e das mentiras. A água esmagadora repetia a constância do infinito e minha invisibilidade, de corpo livre. Fui visitada por anjos espelhados no céu, que colidia com o horizonte para liquefazer-me parte indispensável, nos dias em que pude pacificamente derreter os sonhos da noite em balouçante consciência. Ao navegante que sobrevive, porém, há inevitável aparição das desconhecidas terras, que arrancam a esta inundação. O naufrágio não durou mais que duzentos dias, desde que saí sozinha e queimei aquilo que ficou. Avistando, ao longe, respirares descompassados, doses cavalares de palavra, cores além-azul e chuva, percebo-me deixando o deserto à medida que se aproximam, agitando as mãos antes do fôlego, despedindo-me do mar todo por dentro para penetrar novamente o subterrâneo, quando meus pés o tocarem. O horror do último suspiro para que o ar divida-se em milhares de respirações assombra-me, que me encaro neste limiar reflexo do infinito, há duzentos dias, para lembrar-me novamente. A abundância da terra envolve seus desperdícios, e a pouca atenção não vale para quem deseja se perder. O instante inteiro é o mar, e a terra é feita de caminhos. Lá, precisarei escrever de novo a outros ninguéns e suportar o peso do desdizer. É de destino pisar no chão e estranhar o pé que afunda devagar. Adeus casa flutuante, estômago do mundo, a terra que chega está me pedindo para descer à superfície. Assim que a chuva cair, no primeiro dia, profetiza-se que o barco colidirá com o concreto, à falsa segurança, para que eu encoste o rosto ao chão, de novo, e ouça, nos passos e mudanças, o coração que bate desde o centro do peito, o magma por debaixo do solo, as palavras em gestação, por dizer, vulcanizadas de um jeito ou de outro, para compreender, naquele ato, a importância do que vou encontrar.
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segunda-feira, 28 de abril de 2014
nostalghia e outros desamores
a fumaça trêmula em frágeis círculos, esvaindo-se à contra-luz, alcançando, no desfazer de sua existência, moradas de silêncio e reinos de chuva gelada. enquanto as pessoas acontecem lá fora, eu, de dentro do quarto, encaro os pés do menino, cujo corpo, estendido sobre o meu colchão, cheira à sombra de terra úmida.
beatriz bandeira
Eu, que de dentro da casa admiro o mover-se,
lentamente inalo o ar.
À cada uma de suas aparências nomeio suavemente,
o abafado, o recorrente, esse nome tão seu que derradeiro,
entregue ao mundo, secular.
O seu rio me causava espanto, e eu seguia acompanhando as bordas de longe para não cair por esta fundação. Os passos dados pelos meus pés não eram violentos, qual o fluxo destruidor do que gerava sua nascente. Dentro do meu rosto provia aquela água sua, vida, morte. E, um cigarro após o outro, eu queimava cinzas adentro minha verdade por dizer. Sonho último, última noite, por suas transbordas, irrompia de mim o grito inundado, último perdão, sangrava, em desespero. Pois eu não entendia a sua distância, as nossas diferenças de tamanho. Eu não entendia a ininterrupção desta existência. Era empurrada entre extremidades, para poupar-me, para que eu não fosse engolida. Bruto, terreno irregular, encontrei a mim mesma anos depois parada, pelos órgãos e membros, pelo ar inalado, parada no mesmo lugar remanejando suas bordas. Cuidava com cautela à terra fértil de suas unhas, às intempéries do espírito. Mas a ventania era inevitável, mesmo frente ao meu desgosto, posto que vinha para arrastar-me. Era real o que estava acontecendo. Quando abria os olhos, via luzes refletidas pelo chão, sentia frio, encontrava um livro, nesta ordem de procedimentos. E, então, quando procurava reerguer-me pelas paredes arrebatadas, tocando firme pelos apoios desmantelados de ontem, encontrava sempre o começo do dia, e o processo se repetia.
Este momento passou a me repetir, e repetia sempre que possível, para que eu tomasse vivência de meu tempo. Mas, alguma coisa naquela casa eu não podia lembrar-me, embora fosse a única que eu quisesse lembrar. O eterno jorrar, como se fosse. Eu tentava alcançar, para remendá-las, aquelas misteriosas luzes coloridas que povoavam o terraço da casa. Algo a respeito do instante não me permitia a lembrar, assim, não me deixando esquecer. Constante, eu seguia pelas bordas do rio, compelida a me afogar, desejosa por movimentar a corrente, saudosa de casa.
Este momento passou a me repetir, e repetia sempre que possível, para que eu tomasse vivência de meu tempo. Mas, alguma coisa naquela casa eu não podia lembrar-me, embora fosse a única que eu quisesse lembrar. O eterno jorrar, como se fosse. Eu tentava alcançar, para remendá-las, aquelas misteriosas luzes coloridas que povoavam o terraço da casa. Algo a respeito do instante não me permitia a lembrar, assim, não me deixando esquecer. Constante, eu seguia pelas bordas do rio, compelida a me afogar, desejosa por movimentar a corrente, saudosa de casa.
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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Beyond your scared bed
I decided to emerge from ink
Through a soft beginning
And old feet.
The clouds remained the same
As movements of steel
But something was change
Inside, creation and drops of tear
Fear - I feel
Your yellow eyes and heavy breath
And honor, by facing
A passage and a pain: Death
Alive and awake
Blood on my cheeks
I chase your heart
Truly, under-ocean
I believe.
I decided to emerge from ink
Through a soft beginning
And old feet.
The clouds remained the same
As movements of steel
But something was change
Inside, creation and drops of tear
Fear - I feel
Your yellow eyes and heavy breath
And honor, by facing
A passage and a pain: Death
Alive and awake
Blood on my cheeks
I chase your heart
Truly, under-ocean
I believe.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
the beginning
ancient animals sometimes scare those who can't pay enough attention to their steps. these animals are strong because they urge a wisdom that comes from the movements of the earth. they are pure instinct, senses, and act according to their deep eyes and expansive souls. they are not sweet and receptive, but hard to reach and even harder to face. although, once you are in front of them, you are captive, you realize their oppening, and you are confronted with a feeling of life and death's relevance. you will never be the same. everything will be destroyed, fluxes will turn upside down, and what you thought you understood will turn into chaos. you will be called to deal with your own fragilities. of course, you can take a chance and run away. be back on a ground that appears to be quiet and safe. but, once you decide to stay, moved by the incredible amount of life carried out by it's breaths, you feel calm, and suddenly able to comprehend silence. you feel humble, with a sudden disposition to learn, and recognize the independence of changes, along with your own capacities of choice. you start to see yourself as a moving body, that integrates nature within every single step, that is pure change, pure matter combined beautifully and not randomly into that person that you are. and, from that day on, meetings will no longer be in vain, because the amount of life you recognized on the wild animal as belonging, also, to yourself, you rage out from everywhere, from everything that exists, as movement, possibilities, chaos, changing matter, responsability of choice and universal knowledge. you will no longer waste meetings, you will feel a deep power to fight for them, just because they happened, and, specially, you will be forever brave as it turns to facing your own fears and not letting them be mistreated, as strangers, or locked up into a small box.
so... are you gonna face and learn, or are you gonna run into an apathy abyss?
palavras-chave:
certeza,
coragem,
devaneio,
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experiência,
inesperado,
inglês,
medo,
memória,
morte,
natureza,
noite,
organismo,
prosa,
resoluções de fim de ano,
transformação
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Miguel (versão final)
O asfalto era
rígido feito rochas antigas, aos poucos deterioradas pelas águas. As lágrimas
de Miguel colidiam com a pista e refletiam o laranja-molhado das luzes
melancólicas. Chovia, os carros atravessavam a rua na iminência de derrapar, e
as pessoas desabrigadas escondiam-se no quente de bares e cafés. Algumas,
entretanto, aproveitavam a textura de suas peles para enlamear-se ou correr até
o outro lado com a desculpa de um destino. A inconveniência aparente da chuva
provocava sorrisos nervosos naqueles que se permitiam molhar. E Miguel, sentado
encolhido por dor que não a frieza dos pingos, acompanhava a densidade do
gotejar, como se seus olhos projetassem o céu anuviado. Sons de água e gente e
motor acompanhavam a passagem dos minutos. E parecia que o tempo era só uma
extensão sem fim da mesmíssima coisa: a rua e o movimento do mundo por entre
seus limites.
Miguel
sentou-se no meio da rua e começou a chorar. O imenso desconsolo das mãos que
lhe cabiam expunha seus fantasmas para fora, e a cada nova maré seus olhos
tornavam-se cinzas. A fuligem de seu corpo negligente atordoava o restante dos
seres que ali viviam e compartilhavam, em presença, a rua que ele atravessava,
parado pelas pernas e acuado pelo chão. À medida que soluçava, o silêncio
dentro dele crescia vacuolar. A coluna enrolada movimentava o sangue dele para
dentro da terra, ignorando a solidez desenvolvida pelo asfalto para contornar o
caminho dos fugitivos.
Miguel
sentiu-se obrigado a abandonar o amor. A morte de Billy ocasionara naquele denso
e conhecido, mas sempre unicamente doloroso processo de luto. Miguel não
compreendia partidas e não compactuava com ausências. Naquele dia, Billy
deitou-se cedo pela manhã debaixo da carreta de papai. E ficou. De longe,
Miguel e os outros ouviam pesados suspiros finais. Ninguém teve coragem de se
aproximar para ver de perto. Silenciosos, respeitaram os últimos segundos. E
então Billy tornou-se a imagem de um corpo estático, que um dia foi. A terra
abraçou o frágil tronco e patas marrons para devolver a matéria à sua origem. E
algo se transformou, por toda a extensão do Universo. Miguel saiu de olhos
catatônicos e passos mancos. Ganhou a rua logo, no instante que encobriu as
próximas horas. E os outros o deixaram ir. Então, todo o movimento do mundo também
deixou-o. Os carros e cores pessoas zumbidos e olhares, tudo era perdido. A
verdade era crua, e doía de encostar a pele. Cada homem que passava desconhecia
o iminente abandono. E não havia nada mais absurdo que a falta diante à
presença. Miguel sentou-se no meio da rua e começou a chorar
Bem, ele podia
ser jovem, mas não era tolo. Era, também, antigo. Seus pequenos pés
compreendiam o peso do pisar entre a lentidão do múltiplo crescimento, pois que
dedicavam, ao chão, vontade, disposição, e força. E a desolação que sentia era
na transformação incessante de toda a verdade, no perceber o abandono iminente,
fatídico, ao amor confiado numa outra pessoa - a desolação que vivia era no
perceber, ao iminente, abandono, fundo, o amor confiado em ato de colecionar
ossos, para então cantar sobre eles. Miguel não precisava erguer os olhos para
notar o movimento triste dos homens, entre destruição, ordem e desordem,
deslocamento de percepção; dos homens esvaziados e confusos, desconfiando à
própria perdição e esquecendo-se da selvageria para instalar-se em constante
fuga à inevitável troca entre o céu e o buraco.
Miguel
sentou-se no centro do chão e começou a chorar. À medida que seus olhos
acinzentavam-se pela sina da gravidade, a fuligem de seu corpo expandia-se em
explosão, trans-borda, toque avesso descaminho furioso, atingindo a todos
aqueles que com ele compartilhavam presença, na rua, acuados pelo caos. Quando
soluçava, berrando sobre o solo, o silêncio dentro dele crescia, reverberando
terra, acolhendo Discórdia. A coluna enrolada movimentava o sangue dele para
dentro, e atravessava, desde o entre, até a Lua, ignorando a solidez
desenvolvida pelo asfalto para contornar o murmúrio dos fugitivos.
A mancha
verde-musgo na parede do quarto de Miguel era a única certeza de pele que o
atraia segurar. Todos os vultos lá, gritando vértebras e intestinos,
sussurrando segredos, acolhiam a mancha real na casa dele, que ocupava o centro
da consciência, para além de ventigens e ondas turbulentas. E a beleza desta
rua soturna morava no cheiro de sua mãe. Acompanhando o chão desconfigurado,
Miguel sufocava o choro com o antebraço direito, aspirando compulsivamente em
busca de origens, algo da ancestralidade maternal presente em suas memórias e
nos pelos dos braços humanos, em esquinas ocultas e na textura dos animais.
Entregue ao
avesso do mundo oficial, lançou-se em meio ao asfalto, de encontro à terra, desafiando
a plenitude de seus ossos. Eis que, no segundo sucedido de inteira vida, o
acontecimento encerrou aquele instante em história, na asa de reluzente
borboleta voando por entre os carros da rua.
Miguel
sentou-se no meio da rua e começou a chorar. As gentes perpassavam o
encolhimento de seu corpo por debaixo aos braços e pernas. Não era de
surpreender que Billy tivesse morrido. A morte costuma derrubar corpos,
ignorando a solidez desenvolvida pelo asfalto para contornar o caminho dos
fugitivos. Para além da chuva que caía, não importava aos homens que passavam
coisa alguma, e Miguel percebia, ao sentir a lembrança do cheiro de sua mãe,
tamanho desamor pertencente à rua, desvio entre o céu e o buraco. À medida que
soluçava, o silêncio dentro dele crescia vacuolar. Bem, ele podia ser jovem,
mas não era tolo. Seus pequenos pés compreendiam o peso do pisar entre a
lentidão do múltiplo crescimento. E a desolação que sentia era na transformação
incessante de toda a verdade, no perceber o iminente abandono.
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urbano
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Loba
Ela corre por vales adentro sem
medo do escuro. Seus olhos veem fundo, mas é numa percepção aguçada de sentido,
na pisada firme e desconfiança necessária, que sua existência no mundo se
instaura. Ela se manifesta na sensação da lua. A sabedoria, em seu arfar,
expande espaços e tempos antigos, para desde o princípio da pegada. Ela veio da
terra, mas segue caminho entre a água, movimentando o ar e resguardando a
solidez de seu corpo pela admiração ao fogo. É verdade que sair dizendo dela parece perigoso. Mas é só o que vejo quando encaro este espelho. Vejo o reflexo
de uma outra coisa que não minha pele lisa, a fragilidade de minha cor, e a
tristeza imanente que escorre pelas veias. Quando esburaco estes olhos meus, e
outros de mim, vejo uma velha mulher que não dispõe de palavras ou ornamentos.
Ela é muda de sentido, mas canta, num sussurro audível, sobre a inteira força
do espírito. Aumenta a sensibilidade em meus ossos, e sinto, através dela,
minha participação na ancestralidade. Do espelho emana instinto. E de tudo
aquilo que é dado importância, por experiência sinistra, horrível e sublime,
recupero a antiguidade da coleção, das histórias, do ritmo, e do dar-se as
mãos. A palavra coragem vem do sangue que percorre a todas as faces. E aquilo
que há tanto foi criado, destruiu-se, e pede recriação. Pede novos cantos e
uivos. É preciso permanecer. E dar a morte ao que dela sente sede. Também, por
vezes, recorrer às cartas esquecidas, aos objetos da infância, seja para
queimá-los, seja para incorporá-los ao que hoje transpira.
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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Morada
O momento da escritura demorada,
lenta por cada nuvem que move a terra,
é o limite do apagamento
em virar-se sonho,
decisão do olho pelo invisível
ou pela luminosidade fechada
do dia que escolhe sucumbir.
Quando em abertura,
os pássaros do infinito rebuscam
um tempo estático e rebuliço
do enroscar branquidões e limpezas
para tal azul que só é visto
no contorno daquilo que preenche,
os espaços entre folhas,
e o silêncio das vozes escondidas,
distantes.
É a teia, fumaça carregada
de tontura, sons do vento
e todas as cores do sol aparecem
nos bichos que passam o canto,
o balançar, a qualidade daquilo
que é demasiado.
Essas vozes são presenças cruas
ou enrolam-se em desmaio
adormecido dos sentidos
quando os buracos tecem
o espaço de cada ser
e o caminho entre
devir-porvir
relance daquilo que agita
em pausa e esperança?
Como pode a finura,
fragilidade desse cheiro novo,
estar concreta em traço
e silêncio -
frente a meu rosto?
Não acesso o segredo desta árvore
outra que responde
a meus olhos baixos
com promessa e acolhimento
feito casa mantida
na memória anterior
do retorno e do inabitável.
lenta por cada nuvem que move a terra,
é o limite do apagamento
em virar-se sonho,
decisão do olho pelo invisível
ou pela luminosidade fechada
do dia que escolhe sucumbir.
Quando em abertura,
os pássaros do infinito rebuscam
um tempo estático e rebuliço
do enroscar branquidões e limpezas
para tal azul que só é visto
no contorno daquilo que preenche,
os espaços entre folhas,
e o silêncio das vozes escondidas,
distantes.
É a teia, fumaça carregada
de tontura, sons do vento
e todas as cores do sol aparecem
nos bichos que passam o canto,
o balançar, a qualidade daquilo
que é demasiado.
Essas vozes são presenças cruas
ou enrolam-se em desmaio
adormecido dos sentidos
quando os buracos tecem
o espaço de cada ser
e o caminho entre
devir-porvir
relance daquilo que agita
em pausa e esperança?
Como pode a finura,
fragilidade desse cheiro novo,
estar concreta em traço
e silêncio -
frente a meu rosto?
Não acesso o segredo desta árvore
outra que responde
a meus olhos baixos
com promessa e acolhimento
feito casa mantida
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segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Dívida
Não posso, somente por verso fino, gaguejar pulmões esvaziados ou taquicardia nascida. Cada começar é desespero formado de gente, toneladas de pele, extensões infinitas de silêncio, de voz mastigada. Angústia escondida por debaixo da testa há tempos desmedidos é que me compele. E, assim, o esfacelamento da palavra surda, que vive de pé, trêmula, pronta para cumprir-se ao despenhadeiro. A nulidade infantil daquela carne, daquele único rosto tomado de rio, de quem não respira compasso puro, mas desritmo naturalizado, invasor de território ao abandono, movimenta sumiço de criança ralada, recolhida por vergonha, e então desapareço por entre o chão de terra antiga, habitação-última.
Para ocupar a boca, dou-lhe estes dedos solenes, conformados ao giro arrebatador da força original. A deformidade que lhes convém, da mastigação precoce, a eles confere maneira só de tatear.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Eremita
1. Não há encontro com as paredes da Casa quando, em mim, às palavras não há confronto, mas fuga, palavras esguias em virtualidade de preenchido, cheio, transbordando. Quando o teto é ar, o chão é cheiro e o caminho são os pés que movem o tempo, a Casa desaparece por incerteza, eterna esperança no que é, sempre, mas em esconderijo, depois, lugar de segredo, velado, onde chega toda a vida por debaixo das pálpebras abertas. As palavras são sopros por entre extremos, na boca ela mesma, de tanto socorro que o homem, então, encontra sua qualidade de caramujo.
2. Cada vez que as mãos passeiam pelas pernas, unha por pele, a questão esvaziada nos olhos dormentes do moço correm para o buraco e escapam no além-vida, pra concha de arranhão, marca sem volta. A tempestade se aproxima a cada dia e eu guardo o mar, de mãos na garganta. O cachorro cego para ao lado, recordando-me da sede, das narinas secas, do ar distante. Esta onda que não cessa de retornar procura meu coração para anunciar novo acontecimento, a todo tempo, nunca.
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domingo, 16 de setembro de 2012
Debaixo
De
pernas tremidas, agoniadas pela palavra do tempo, sinto saudades do futuro. Sem
toque de mão, a infância encolhida não existe, perdeu-se em susto pelo caminho,
desmoronada por história de ninguéns. Cria seu próprio riso em ressonar
memória, faca, por necessidade, pés na cabeça, ombro no chão. Pois, aquela
velha garganta que estrangula, floresce em eco de voz, voz da terra.
Não é
pelo gosto das unhas sujas que respondo tontura com complacência, mas pelo
incômodo de percebê-las em colapso. Então, afinal, se quebram em outras, e
estas em mais, sem, no entanto, se multiplicarem. Não se trata de tanto, mas
apenas de tudo.
História de pessoa afogada pelo tempo
não é longe de pétala presa por grades inofensivas. Não... É o contrário do
esconderijo quando a sensação de mar que a terra guarda desdobra-se em
amarelice delicada, que o vento leva embora pelo retorno, eterno renascimento.
Os minutos contam giro de gente que carrega as marcas das rochas, a exposição
das nuvens e o calor de pele em transposição de chão. A cada pé, esta causa
justifica-se nas pausas em cauda de peixe, fantasma que nada, ainda em ar seco,
de exagero azul.
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sábado, 18 de agosto de 2012
O medo
Não seria justo no dia de ir que você viria. Naquele dia de árvores vermelhas e céu recluso, resolvi voltar, sem a possibilidade sua. Quando me vi em verde, respirando colorido amarelo, percebi som suave, feito rajada por canto de olho. Mas era tudo de mentira, era ruído assustado, esconderijo em grama, vento carregando pele pra longe de rosto. Era conforme vazio enruga lágrima, que quando a gente volta sempre fica mais difícil de respirar.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Espinho
Talvez as olheiras vazias de olhos e cabeças baixas de pesar pertencessem a ela, que o amor daqueles caminha por dentro, torto de doença, de culpa latente. O mundo funciona nos órgãos, os dedos é que esfregam o rosto quando garganta presa em falta de corpo pede tinta. Carinho feito prisma surge na distância das costas brancas, risada dos cílios do sol. A lacuna contorce o rosto dela pra dor invisível. Depois, percebe que é de papel cegar, emudecer por mordida, cambalear em queda quando deitado. É hora de comer tinta, de apagar os olhos em som, só de certeza. Que o ar é alimento.
Ela se levanta, então, por pés gelados. Cada músculo de toque era compasso de força, era arranhão pra ossos. O movimento era da compreensão do tempo, de criatura singela em manifesto. Feito parto, de machucado, de torção; feito vida arrancada. De desmanche, cai-se embrisa, de arrepio em volve. Escuro só existe por exaustão de luz. Sombra-casa quando a queda das pálpebras é sorrateira em lágrimas quentes. O sonho é voz, mas a voz dela é mentira. De voz que não sai canto, sai morte. Corpo desmontado é abismo sem tábuas.
Sem mexer, viu-se: respirar em feita ser. Adormeceu sem a certeza do acordar, mas dela despertar. Foi assim que do passado fez-se espinho e do espinho fez-se enluz.
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