o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

seca pt 1


equinócio de primavera: súplicas

[sabia que havia esperando ao longo de toda esta vida durante as delongas dos mesmos tempos infinitos que ressoaram baixo à medida que me lembrava
os espaçados sons reverberavam para todos os instantes até aqui, a oportunidade irremediável para onde desaguam todas as escolhas desde o anterior nascimento, que já então vislumbravam essas palavras, desatolando-me às tantas experiências de quando pude antever a terra já acontecida, os acidentes sempre já soando ao limite pelo movimento ininterrupto dessas mesmas palavras já antes muito muito antes para sempre reescritas e rearranjadas novas outras, por mim, frente à extensão do som
que à gaguejante potência não se faça só ode pelo pensamento da linguagem que se constrói sabedoria, mas ao descontrole pela compreensão, o traço pelo traço, os movimentos estendidos dos dedos sobre a pele os olhos frente aos quais o sentido falha em acessar este segredo de abismo, mas ao qual se percebe diante do compartilhar, já que não posso existir isenta ao grito que urra desde o primeiro alambique, pelos olhos
o furioso desaguar desimpedido horrorizado pelo instante submerso às entranhas atravessando-se para expulsar o acúmulo do aumento pela desintegração que não cabe ao que solidifica inteiro desvio de propósito à totalidade
estas palavras esvaziando-se para que nunca morram, desde o toque apaixonado pela descoberta
desde o vislumbre pela destruição da necessidade à verossimilhança enrugada, um sopro de ar ou silêncio por entre os acordes, uma direção aberta, tantas mãos, e o que se faz, pelo que se é
frente ao incomensurável desdobrar desta envergadura, no solo, nos entres, entranhas aparecidas pelo contemplativo agradecer, renascido pelos segundos triturados em distensão
desde todas as medidas desmentidas pela verdade escorrendo veredas
porque sim].

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Ressaca

Descobri Beirut antes de Capitu. Desvendei aquela onda, pedaço deslocado do mar, em que guardava-se choro antigo, desde o nascimento. Antes, quando ainda era menina atraída pela espionagem. Os buracos nos corpos das pessoas, as rugas dos bichos e a improvável combinação entre os sons das músicas que eu ouvia em casa. Foi nesta constelação que tudo gerou-se. No espaço dedicado aos sentidos que percebiam, e rápidas respostas ao outro que prostrava-se. A esta marca de cicatriz, que aqui aponto ao meio do tronco, observo desde a distância, no inversos dos inícios concretos, pelo filtro das águas, em vislumbre ao incessante esvaziamento. A este abismo que aqui aponto. Sua entrada, trespassável ao outro lado, não coletava ou discriminava, e o que eu via eram conhecidas formas à luz infinita. Descaminhei desde o momento em que houve caminho. Eu acreditava mais em meus pés e nos raios solares quando conversava com o vento. Isso que não mencionei era-me inseguro desde o mistério que restou, das furiosas possibilidades, nos olhos onduleantes. Assim, escolhi instrumentos, confiei na extensão do espaço, e parti. A todas as delicadezas porvir, fui provando-as constituintes do efêmero, que nos aponta à iminente morte, na importância do instante sem-fundo. Descobri a respiração cutânea quando quis-me pôr à prova, abdicando de sentido encubado, daqueles que a gente faz crescer à força. Todos os dias passei a dizer-me, enquanto encarava o silêncio deste rosto único, fragmento possível de toda carne, que esta memória servia para alcançar o outro lado do espelho, ao observar-se, sonolenta, o sangue entre os limites. Alguns dias, no entanto, forcei-me à mudez, que me tomava por outros dias mais, encarcerada, culpada às palavras, injustamente. Transfigurava a verdade toda vez que sempre frente ao escrito. Assim, o impreterível enlutamento pelo mundo, morrente – foi o que me disseram, e era o que eu via no refletido – chegava, todas as manhãs, quando, ao envelhecimento, via-me condenada aos suspiros do tempo e às distâncias refletoras.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

1/1

É para auxiliar no retorno dos pássaros, mesmo pelo desmaio improvisado deste redigido - vem, em fidelidade ao ato, entregue ao fracasso, à pequenez, ao invisível. Nada consegue estender-se pelo caminho sem ter o que contar, a si próprio, em voz alta, como quem chora e grita por sua carne, de escapatória, legitimando-se, repetindo seu nome, que é para não esquecê-lo. Mesmo que brevemente, enquanto duram o assobio e o chamado. Esta mensagem deve ser enterrada por sob o solo onde pisarei até que eu vá embora, e abandone esta casa. O chão será meu segredo, e entre nós haverá um abismo magnético pelo toque da pele com a existência. Assim, digo todos os dias ao longo de sua passagem, e aumentam-me as memórias que carregar, no que sigo procurando esquecê-las sem, no entanto, deixar por lembrar do rosto e do muro que cortavam os olhos. A estrada não é só um pé, e o outro, mas as pedras que, em seu silêncio primordial, compartilham da solidez e da difícil diferença, de forma, surpresa, a honrar minha continuidade. 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

entre 4h40 e 5h

[prelúdio a escritos destroçados]

estava demorando-me para perceber a chegada das baixas luzes ao escutar você dizendo algumas palavras entrecortando ruídos. a água que caía sobre você lembrou-me aquele momento reservado ao escorrer. uma segunda voz, a cadeira macia com seus tecidos floridos acolhendo-me enquanto eu bebia chá. cães latindo, diferentes distâncias percorrendo. ansiosa frente ao movimento do silêncio, eu esperava em cada detalhe. e então, todo o silênciossussurrando as ruas pelas bordas nos pés dos outros, todo ele abriu espaços buracos que chamavam no instante em que resolvi ir. o sol convidava para dentro e vir tomar café tostado, queria caminhares do lado de fora por sob sua experiência ótica para entretenimento. ali, andava sempre em direção ao eterno com a veracidade da fuga. os ciclos existiam completos na efemeridade daquilo tão inteiro, o mistério do bilhete e das compras roubadas, pelas pequenas marcas de tinta nas telas de van gogh. a lua estava começando a descer (e esmagar o meu amor). logo, tão cedo, o traço do rosto é memorificado, para, então, restar-me um pedaço de papel destroçado em cartas de despedida – eu não sabia para onde mover-me, encontrar-lhe, descobrir onde está, comigo, aquela moldura frágil, fogo, os olhos castanhos, esvaziando nenhum lugar. estive desolada. 

quarta-feira, 26 de março de 2014

Zine: #devir:3

 Zine nova!
#devir: 3 com textos inéditos.
À venda ou à troca. Interessados, comentem ou mandem email: francisespindola@gmail.com
Logo menos, estarei com ela na feirinha mais próxima de você!


foto por Camila Muradas

domingo, 22 de setembro de 2013

esse traçado planta que não é árvore, mas encobre pisadas e arranja esconderijos, concede ao momento capacidade de, pelo espaço entre dedos e punhos, sopesar, sentir a gravidade, em pressão do ar que encobre, verificando o próprio peso, pela mão, a pisadas.
mágoa e arrependimento pesar entre o céu e o buraco, que confundem-se na escolha de deixar à morte. a cada pétala ou parte branca pronta para desconfigurar-se, através de notas ou cartas partilhadas, por dentro à mata, floresta fulminante em imposição, destino necessário, mas dor destruição do abandono ao rosto em palma traço caminho.

o sacrifício vazio de tornar-se incômodo aos detalhes de cada parte, contorno pele pescoço, específicos ao desenho caule sustento. as verduras do entre. e a dificuldade de deslembrar, decidir extinguir. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Sem chama

Viver é quando olhos pescam calor por cima do verdume largo e transparente. Todo dia parece casa descuidada e as mãos servem para pintar. O céu é por dentro das pálpebras, sem sono que desampara. A cada pescoço pertence um valor de pele, de simples amanhecer, e o rosto é fino de força, vazio por preenchido no traço da sobrancelha, como se tempo fosse invisível. É mesmo passarinho que se apronta em dançarino, sorri de esgueira, pra todo mundo ver. O peito fica em plena mão, completo, sem partes por dividir, e um som de cada vez vem pra encostar a boca, sem hesitar, e assoprar aqueles sonhos dormidos.

A urgência de irromper em palavra desmedida, afeto descabelado, desrazão umbilical, é que move o resto do corpo para ser vida. Minha sinceridade é a sua, por silêncio incapaz de conter cor em desespero. Todo toque é por sua intenção, em sonho-verdade, ver que só por ti.  Só luz porque sei de seus dedos. Só sensação porque orvalho em você. Só dia quando você caminha. E papel meu é que enxuga vontade em ternura. Cuida dos lampejos seus que ainda não rio, mas espero em ser aflito.

terça-feira, 12 de junho de 2012

One way... or another

Era por silêncio que os dedos moviam-se em pontas de existir, qual esperança na vida tua. Que é difícil palavrear vontade, explosão dos órgãos de respirar em sufoco irremediável, mas em afago, movido por cada grão de areia. De sopro do tempo, cada fio de fractal, pedacinhos de um você esquecidos nos esconderijos dos caramujos, nas partes íntimas das águas, no sangue dos bichos. A falta que me é nociva em pele cura quando dissolve dor pela presença de todas as outras partes. Não é a toa que o ar para todos os lados carrega suas gentes e coisas verdes; é tudo você me querendo pra perto dizer que vive por dentro, no vento, me encostando de caminhar, quando acordo no dormir do sol. É do escuro embranquecer as velas que queimam devagar, de luz se espremendo por entre folhas de árvore, como se o céu não fosse capaz de conter-se em entusiasmo por surpreender fins de tarde aconchegantes. É quando olho pega flor sem querer, de cima, em segredo.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A fuga do nome

(É verdade
Cor dissolve, soar de folha
Segundo acaba névoa, natural
Funciona terra

Nada é sem querer
Necessidade sincera

Sem medo de água
Bater em pedra
Sem esforço de dor, mas harmonia
De cuidado e risco

Sem fugir, esconder,
Mas soltar o cabelo pra mato
E voz.

Ar é bicho
De pegar pulso
Não com a cabeça no muro)


De perceber fim é que caminha o outro
Quando suspiro, no espaço da cor, a agonia de calma é perdição
Alhures em luz, meta-amorfose, em branconegro, som
O por-fora em escuro-sonho do espírito áspero ao mover
(O infinito é a surpresa do fim)
Que acontecer é todo vento sem querer devir-se.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Old and Young

Como pode a branquidão dos olhos perdidos em bosque de lírios mortos encontrar chuva e terra para pisar? Noite é sonho que suga feito arrancar pele e segurar sangue por dentro no momento de sujar.

Quando metade se confunde no fim é que criança tem pesadelo e sossego não chega pela manhã. Só quando passarinho aparece é que acordar vira menor tormento que vontade de ver o dia. Daí não chega lembrança tantas vezes coberta de cílios fechados, que é pra dor e acalma só uma vez, tudo quando passa brisa e frio, tudo quando o dia explode em lua. Espelho de todo dia é o mesmo rosto, mas que muda de cor, se transparente. No silêncio, morada do distúrbio, das falhas e espaços nus, é que vive o mundo. Assim que desanda, a negação do sim vira verdade.
É em forma que meu amor vira meu e carinho vira água corrente. Todo dia quando chega a luz vem a coragem de ficar entre, onde olho é feito bolha e coração é de remendos. Solidão é estado natural em cuidado com o rio, dono do frágil, responsável pelo sono do sol. De entender abraço em piscadela, avalanche por dedos em toque, alma de azul em passos leves.

Quando chega o movimento, é acontecimento que reverbera feito palavra entre.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Espinho

Talvez as olheiras vazias de olhos e cabeças baixas de pesar pertencessem a ela, que o amor daqueles caminha por dentro, torto de doença, de culpa latente. O mundo funciona nos órgãos, os dedos é que esfregam o rosto quando garganta presa em falta de corpo pede tinta. Carinho feito prisma surge na distância das costas brancas, risada dos cílios do sol. A lacuna contorce o rosto dela pra dor invisível. Depois, percebe que é de papel cegar, emudecer por mordida, cambalear em queda quando deitado. É hora de comer tinta, de apagar os olhos em som, só de certeza. Que o ar é alimento.
Ela se levanta, então, por pés gelados. Cada músculo de toque era compasso de força, era arranhão pra ossos. O movimento era da compreensão do tempo, de criatura singela em manifesto. Feito parto, de machucado, de torção; feito vida arrancada. De desmanche, cai-se embrisa, de arrepio em volve. Escuro só existe por exaustão de luz. Sombra-casa quando a queda das pálpebras é sorrateira em lágrimas quentes. O sonho é voz, mas a voz dela é mentira. De voz que não sai canto, sai morte. Corpo desmontado é abismo sem tábuas. 
Sem mexer, viu-se: respirar em feita ser. Adormeceu sem a certeza do acordar, mas dela despertar. Foi assim que do passado fez-se espinho e do espinho fez-se enluz. 

sábado, 17 de setembro de 2011

100 dias de solidão

O Ponto de Partida - A melancólica jornada do sequestro da novidade

Passei os últimos três meses parada e só num ponto de chão. O horizonte deixava claro a falta de pessoas. Um algo surgiu, me derrubou  em tumulto, encheu-me de pancadas e se foi. O que aconteceu?

A percepção do acontecimento da falta de acontecimentos

Estávamos dançando pela bola concreta, todos objetivamente juntos, em pele e aspecto. A presença polida em gelo daquele que não pode ser nomeado esvoaçou meus cabelos perdidos em mágoas. A existência veio me trazer o mundo para tatear, segurar nos braços. Nossa junção física não rompia as bolhas de distância ao redor - ignorá-las só as fazia menos translúcidas.

Sim, minhas roupas são de gente velha. Carrego nos lábios um sorriso inverossímil e buracos por debaixo dos
olhos. Meus cabelos estão verdes de desbotados, não mais azuis sorvete e espacinhos entre as árvores do céu.
Quando cheguei à porta, procurei as chaves ao fundo da bolsa, onde costumeiramente se escondem para me manter fadigada do lado de fora. Mantenho-nas presas a muitos chaveiros para que não me possam escapar os dedos; hoje meus dedos encurtaram.

10-11

Remixes indesejados e desrespeitosos vêm de qualquer lugar cinza de fumaça e não me deixam dormir. Escuto a hostilidade dos que não vejo. Os pêlos do meu braço eriçam de tristeza no ar tóxico da atmosfera. O céu é de um azul tão limpo de nuvens que engole devagar. É o horizonte separando as pessoas em espaços. Afinal, mundo também é uma palavra vazia de gentes.
Esqueci como as nuvens chegam ao céu. Será que ninguém percebe sua ausência?
A hostilidade é a distância medida em bolhas invisíveis. Um bom observador pode senti-las em rostos que compõem a sensação de existir em sorrisos de simpatia, mas que têm um dos olhos mais para a esquerda.
Acho que os remixes vêm da bola gigante que preenche o concreto e reúne pessoas em distâncias.
(Espero que um dia a formiga tenha consciência dos dez mil elefantes ao seu redor e sinta o horror de um despenhadeiro. Seria sublime.)
Os segundos do meu relógio de parede passam conforme deveriam, mas o ponteiro nunca para de marcar sete horas. Estou vivendo uma fotografia. 
Toda esquina é repleta de memórias-fantasma. Quero ruas virgens. As pessoas da cidade tem as mesmas sobrancelhas, eu já as conheço todas. Um nariz torto já não me é mais um nariz torto.
Busquei cartas e certidões de nascimento, mas elas não me buscaram de volta. A vida perdeu o interesse em mim.
Esse remix não são vários, mas um só, infinito, que parece querer englobar todas as músicas do mundo. É como dias de sol; eles reúnem num só tempo e espaço todas as coisas em mormaço.
Prefiro a solidão de ser ninguém em meio a tantos, esbarrar nas pessoas e romper bolhas a força. Onde estão as bifurcações que não pagam salário? Não posso parar o remix.
O futuro virá - tem que vir - com a chuva.

O Processo de Desconstrução


A preparação


Estava eu dançando tango com meu eu-fantasma, rompendo o não-eu e descobrindo nuvens na noite. O concreto da bola, dessa vez, vinha como uma cidade grande inteira, uma solidão agressiva, que se fazia perceber e pedia liberdade.

A natureza está em revolução.
O branco do céu vem em mini-pinceladas.
Elvis se gatinhando em mordidas de companhia.
O momento do entendimento no silêncio das palavras ditas em sutilezas.
A lembrança do devir-lembrança.
Chove para cima nas pernas que realmente andam.
A volta do menino-tricô.
Extremidades felpudas do ocelote-revira tempo-pleroma-aurora boreal.
A complacência na infinitude da experiência.
O vento cinza.
A amarelice dos dias amarelos.
A historicidade da matéria.
A procura pelos cabelos encaracolados em voo.
A infinitude dos metros.
A solidão da biscoitidão da bicicleta.
A tontura do nadar em costas.

"O vento engoliu as pessoas e está soprando elas de volta!"

Posso ver o monstro sem colocar sangue na cabeça e sem virar as gentes ao contrário. "O monstro já foi embora, ele só precisa ir em paz".

Senti dois pingos.

O céu azul voltou a intercalar-se por árvores em movimento. Não é o mesmo sorvete; veio em formato de esperança e pureza envolta em umidade.