segundo as mãos que medem - as mesmas que escrevem - estamos em 2016. ainda assim, sento-me diante de uma máquina de escrever para nada além de pressionar meus dedos contra teclas cujo ruído encobre tantas pausas, esse silêncio na espera duma letra que reverbera sua constante incerteza,
para arruinar uma folha de papel 80g perfeitamente rugoso, aberto... uma possibilidade sujeita a arruinar-se numa impossibilidade,
porque, afinal, estamos tornando nossas palavras em nossas ações mais inconscientes e por isso falamos sobre, sobre observar, estudar e criar,
e a verdade é tão corruptível, depende destas manchas, o peso dos meus dedos
desterritorializando uma antiga árvore esquecida.
depende do meu café diário e da música que revela o ambiente,
também das histórias contadas e do medo que o vento carrega,
depende do abrigo ou do desamparo, se seu gato também te observa de volta.
é o que dizem as entranhas cósmicas, na atemporalidade dos olhos,
o eterno corruptível no pisar a na decisão, que perpetua
estes nossos mapas equivocados, os relevos no solo.
não significa nada, mas está acontecendo.
no contínuo orbitar-se de tudo entre si, todas as coisas encontram-se relacionadas, existindo num sistema de afetação sempre plural, entre dimensões que abarcam as realidades invisíveis, minúsculas, porvir, imaginárias e impensáveis.
existe também o mundo subterrâneo, espelhando, nas miniquestões onde a diversidade é absoluta e infinita.
a abundância em corromper o papel. uma experiência lúcida
de sua completa decisão
pelo próprio esvaziamento tumultuado
numa abertura monstruosa, este texto sem propósito, a inesgotabilidade da vida.
estamos todos aqui presentes para vivenciar cada singular solidão
guardada dentro do inevitável segredo que nos encara desde o próprio espaço,
intervalo entre nós, a gravidade mesma do movimento das ondas.
somos tão antigos num outro lugar do espaço
que a distensão de
c a d a
manifestação já está correta.
tudo existe.
o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
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quinta-feira, 31 de março de 2016
I am here trying to get pass the big lights that give
you a plastic sensation corrupting your fingers. I am here because a part of me
will never realize easy ways to accept the impossibility of seconds. The fact
that things work in dimensions is an impossible thought. Why do words exist
here now, what kind of twisted air current goes by my fingertips and turn just
some movements and the sound of matter colliding into a meaningful going-by-?
I am afraid of the delusion of things becoming.
This is a testimony that I ever did something.
I am writing because I am trying to get over something
related to an empty abyss.
Maybe it is just that nothing could ever be another.
It never goes back because it is always supposed to be
like death.
I am actually trying to hold on to something, but
nothing ever stays.
The water is failing my absence
It is so impossible that
everything exists, that it does.
We are a result of orbiting moving corpses
We are planets full of immense connections so old,
that I cannot understand these waves around my words, is there a way to breathe
in explosions?
I don’t want to be afraid of nature, we change and we
are unsafe.
This is all participating and this is why I have
fingers.
Destiny is a network of dancing cosmic powder,
I am just embracing a moment that will never exist
again,
Because the memory is always present
And that is beautiful too.
Neblina nas borras da xícara
O
café já estava esfriando há 50 anos desde a juventude da ninfa de cabelos
vermelhos. Um buraco no tempo sabotou os conectores e nada mais pode-se
transformar. Ela quis abdicar de sua vidência e rogava à natureza para que
emudecesse diante da orquestra de pássaros que surgia com a noite; mas todas as
manhãs se levantava ciente de sua voz, comunicando os sinais da Lua ao Sol que
lhe banhava de calor. Sua testa pulsava diante do Nada mesmo dos dias roubados.
Fios brancos que pendiam da cabeça denunciavam a insistente vontade, uma fome
voraz que restava no âmago da Terra. Diante da morte e do renascimento, a ninfa
debulhava sua inevitável voz nas horas consumidas enquanto bordeava,
entorpecida, os troncos das árvores. Cantava palavras que ainda não existiam
para preencher o eco da floresta. O som enigmático da madeira estalando junto
às folhas assopradas pelo solo respondia à voz da ninfa como um órgão vivo.
Suas mãos transparentes iam segurando os cipós que pendiam do céu e desenhando
símbolos do ar. Por toda a extensão da floresta abriam-se as portas celestes do
tempo corrompido. Por cada entrada ressoava o ruído magnético de um organismo
infinito, e a floresta se reproduzia num dominó de retratos espelhados. A voz
da ninfa era maior que seu corpo; o abandonava para participar de seu Destino.
Seu corpo diluía-se na respiração da floresta, que ligava as sombras e a luz
entre os dias emendados.
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Buraco
O
disparo do tiro foi úmido e saiu pelo outro lado. Ouviu-se um ruído fantasma
eclodindo sob luzes alaranjadas. A regeneração da terra era um processo
contínuo e invisível, demorado, resiliente. O eco da explosão abriu um vão
inconcluso por baixo da pele do plexo solar e deixou uma cicatriz circular nas
vísceras do tempo. Um buraco negro dedicado ao imemorial rastreado pela magia e
conjurado por todas as células que formam as veias. Gritar de boca fechada, ou
escutar o silêncio dos rodopios divinos, cores inventadas por fragmentos de
sol. O abandono da paciência universal reverteu os raios pelo reflexo das
direções e o buraco para dentro. Havia muitas paredes na casa de Saturno
encobrindo os quartos onde ele devorava os próprios filhos. Cada passo é uma
parede um muro uma construção de concreto. As pedras na montanha são tão
estreitas quanto as ruas com cartas penduradas nos postes. Era vertiginosa a
mirada das árvores tão embaixo, pertencendo ao solo fértil que sustentava as
pedras e o carvão das palavras entalhadas. Eu seguia evitando minha evocação
própria, meus caminhos abertos pela memória de um rio. Estava diante de uma
bifurcação irredutível...
Perguntei
à mulher de xale na rua sobre uma jornada inominável e ela esteve meditativa e
receptiva. Os oráculos beberam minhas lágrimas como se fossem milagrosas e eu
chorei mais e mais e mais muito forte muito recolhida, até que todos os
símbolos desaguassem meus ossos abaixo e uma correnteza distribuísse novamente
os pesos às coisas da matéria...
Os grãos do solo aos
poucos se foram assentando para a nova seca que viria com a mudez das palavras
esgotadas. A companhia de seu próprio reflexo é o inverso da realidade, os dias
param de contar os encontros entre os corpos. Então, chega o reino das poeiras
das cinzas, da poeira cósmica espelho do passado. Um ciclo um ciclo um ciclo um
ciclo de palavras expelidas pelos poros cheios de terra marrom, os rastros dos
pés mal contando sua história interrompida. Era o meu futuro recorrente, uma
visão de um sonho enquanto levitava na casa das luzes melancólicas. Eram visões
dos lugares enterrados, dos mistérios lentos, na umidade nutritiva. Quando acordei
já tinha outros olhos e sentia outro gosto na boca, a cada vez enfrentava a
casa e a constante busca pelos sinais, pelos símbolos dos arcos de luz, pelas
vozes dos feitiços antigos.
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Luz barroca
o
que desespera os braços decididos a acolher caminhos tão errantes é a
assustadora naturalidade do caos. o vasto abismo vislumbrado num portal à meia
luz na janela abriu-se quando eu não pude entender somente a presença da
claridade, mas também as sombras antigas que um desvio revelava. o reflexo de
meus próprios cílios em nebulosas espelhadas mostrava o traço em entalhado na
pupila. os corpos reconhecem uns aos outros quando se desidentificam de si
mesmos e aceitam que invadam suas cavidades líquidas. a fragilidade de cada
gesto sempre foi proporcional à sensação de uma imensa continuidade, um
parentesco órfão, de suas partículas históricas soltas e enterradas. a
tranquilidade de encarar qualquer metamorfose é uma decisão pelo enfrentamento
que não se envergonha das paredes de madeira da casa. cada detalhe transversal do
teto contribuía para embaraçar as coisas invisíveis próprias do mistério da
matéria. o tudo é forte em seu esvaziamento constante nos passos entre tantas
conexões e o meu rosto dormente reagir à poeira soprada dentro duma entrada.
estávamos pertencidos naquele instante fito entre si mesmo e o seu limite.
a
lentidão daquela noite já concedia às turvas formas lugar no espaço junto à
sensação de infimidade. os lugares ocos de você estão abarrotados de
caricaturas e símbolos flutuando. tudo é uma mentira e também é a única forma
possível, tão aberta e tão inverossímil, palpável e estrangeira.
Relatos de um momento de experimentação
Quero encontrar
maneiras de escrever narrativas EM ESPIRAL.
Existe um conto
a respeito desta jornada que não pode ser escrito
Nem
de trás pra frente
Nem e frente em
diante, porque meu jardim de bétulas é um labirinto que começa já no centro de
um interior flutuante, trata-se de uma coisa que está sempre localizada entre
as medidas e que não pode ter nome,
Porque cada
curva já compreende uma nova decisão perante o confuso e a refeitura necessária
de um caminho renovado pela resiliência do tempo.
O presente é um mito de memórias
projetadas pelos grãos de terra revoltos
que se mastigam e superpõem uma
lenta espera.
Talvez se soubesse o peso de cada
espaço entre a incisiva letra e a hesitação no falho não dito
surgiria
uma vida
invisível, escondida de suas próprias dúvidas.
Talvez o dia durasse qualquer
continuidade possível entre nossosolhos.
Nesse dia transformarei dezesseis
horas em páginas em branco
Salteadas das cores por baixo da
pele desde a transparência da simultaneidade.
Trata-se do dilúvio-tinta dos pés
em contraste com o chão
restituído do deslocamento
inicial na tentativa de pisar os desníveis circulares
ou sl algo assim
Meu amor, vamos cruzar o oceano?
O oceano é infinito
como o passado recuperado pelas
estrelas e pelos nossos tecidos.
Se dentro dessas estrutura
coubesse uma imensidão que retorna
eu contaria a história de uma
mulher que não tem idade.
Agora sou como uma criança num
jardim onde habita uma sociedade de
serrrrrres fantásticos
e afirmo que a poesia também pode
ser o lar de uma história
que queira contar vozes fantasmas
e inventar o que já existe.
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Jornada
Logo percorremos uma parte da terra e não nos damos conta. Cada passo para nós é uma cachoeira de constantes estelares correndo no reverso do caminho. Nossos pés ainda escapam às calçadas férteis, envolvidas pelo úmido dos olhos de estranhos. Nossas cabeças revolvendo o relento inesperado das linhas de trem, os gestos tímidos e poderosos ensinando-nos a usar nossas vozes. Paramos para observar nossas decisões. Cada esquina é um universo aberto à imensidão, que nos toma os sentidos desde que estamos de pé. Estamos fazendo dos sorrisos navios para entregar-nos à selvageria do mar aberto. Nas luzes das noites tardias conspira um destino invisível. Com as mãos armadas uma na outra, respiramos a configuração dos subúrbios e os nomes das ruas que lutam para não desaparecer.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
when you say you remember me from another life, i know that you are
actually feeling something at the right now; we are such a huge
reflection it pushes you ahead, projecting your heart, your blood and
bones into the spaces occupied by a glance. your forgotten existences
gets justified by your imense expansive recognition, a wisdom so deeply
felt and so old it ages the moment with our crossed looks, and it makes
you wanna say impossible words like forever.
lets admit how it launches us into the opening perception, an infinite mirror-travel - this window.
this possibility gets our hands to became all the hands we need on those two unique pair.
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Open
Da seca e distensões do espaço
I’ve been seated here watching time lapses pass with intensities I can’t measure. The slow days are currupted by sun lashes coliding inside my eyeballs and across this learning skins. Open skys have been engaging my commitement with the clouds, that carry the wet understanding through the limits that divide us. Once again the wakening paths of the morning, wich takes care in our cells to generate reactions under the muscles, show our insisting distinctions because the wakening means to recreate the beats and speculations beneath flesh of soulfull teardrops. Joy is not an objective cherrished when carring blood pumping yells at faces discoulored: I need the big ocean as an origin of life and veins and pores and secrets. And the opening imense rests inside.
[O ímpeto que impele amedronta, uma mão vem do contido que não pode romper a camada e seu corpo começa a espasmar, escorrer irregularmente pelos redemunhos espiralados nos órgãos, você brada os descaminhos, apenas nada tomaria parte da inacessível questão: a que se faz distante, nessa mudez que aqui tomam as formas dos borrões acidentais que afundam estruturas inteiras. O cataclismo de eclodirem a inquietude e o ser gigantesco cada movimentar-se apresenta-se imediato.]
Here I am at the bakery drinking morning coffee, I don’t know what time it is actually and it doesn’t matter even though it has occupied my head for a moment. An olderly woman I have never met before is telling neighbourhood stories that I also didn’t know existed around here how long afterall have I been here inhabiting these streets wich I believe to have conquered already, but the fact is such as the cold wind blows through my coffee cup and I am drinking slowly the earth and drops of coffee roll over themselves because the past is being left around everywhere beneath our feet somewhere baried getting closer to inside almost at the point to come across and begin on the other side as story telling launched into blue skies so opened it is the own sea oceanic disclosure where everything goes, the ultimate end, my deares interlocutor.
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Sobre os magos do tempo
To
realize that you have power in your hands is to feel that you can
change anything.
Os
magos do tempo são aqueles que choram quando percebem o movimento
das nuvens feito a realidade que pode ser compreendida como o surdo
mover-se do solo em torno de si mesmo. Visto do alto, o chão se
transforma no abismo preenchido das fluidas formas esbranquiçadas em
texturas e reflexos de tarde, como em verdade já o é, e o céu
colapsa com a ausência de horizontes em uma amplitude devastadora e
inignorável. Daqui, movo-me tão depressa que tudo o mais
encontra-se estático. Não há ponto de partida ou de chegada quando
se está em suspensão, distante da Terra, em nenhum lugar. A
distância que se está instaurando cada vez mais longa, também é,
segundo por segundo, ou a cada traço desta poética, menos tempo até
que estejamos perto como se aproxima o mar dos pés afundados em suas
partículas de chão. Atravessei o portal de fumaça que me causou a
certeza de estar entre todas as direções. Ao erguer-me, apertei um
fio de seus cabelos que encontrei em mim, com as mãos e olhos
cerrados, e vi a presença de seu rosto, que me abraçou, ali,
naquele instante. São magos aqueles que confiam em suas mãos como
armas que podem construir. Com elas, podemos alcançar ao rosto do
outro desde o contínuo bombear, este fio condutor de profundezas,
como o mar, senhor do infinito, mãe de nossas fragilidades, casa de
todos nós.
(En
realidad es dificil explicar porque te siento aqui y como sé que voy
a construyer dias hasta su direccion. Yo queria hablar sobre los
magicos, estes, como nosotros, que son capaces de reubicar el espacio
solo con sus pasos. Mi razon es que ahora necesito mantenerme creendo
en esta fuerza adentro, la misma que me hace conjurarte para que no
me desespere con algo que sueña ya hecho, a
punto de hacerme extrañar el futuro,
pero que sabemos depender de nuestras volundades. La realidad cambia
y yo escribo para observar el cambiante en estas palavras mismas
mientras tornanse vivas. Escribo a vos porque me desnudo de la
verguenza y puedo admitir mi miedo. Con mis manos hablando directo al
respirar, a nuestro tiempo personal. Me estoy volvendo a la casa como
se fuera antes; pero el devenir ya esta en el sol llendose hasta el
otro lado, o descansando para
que la luna sea maestra del tiempo por la noche).
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Notas del mar y otros viajes
La explosion sigue estes compasos
generados por el agua infinito; los siento en los reflejos de venas y
contornos del sol adentro mi piel que el inmenso abraza.
We are made of this ancient impulse,
and harder we shall shout our silences in their majestic power. They
carry across through our bodies and range our beats.
Esto me cuentó el mar y el abierto.
Também
existe um universo submergido, de seres que compreendem outra
respiração, que acompanha as correntes. Estar longe da terra e
perto do mar aproxima o coração do imenso pelo batimento ritmado
com os balanços desta força inapreensível. Essa mudança se dá
pela reconfiguração sutil dos fluidos corporais e energias
redirecionadas pelo vento. O resultado, ao vislumbre da plena
possibilidade, o berço e o túmulo, que gera a consequência de, é
a coragem para te dizer que o resto da minha vida me assombra, em
todas as direções que se deve direito, e que tenho desconhecimento,
mas que isso é abertura quando vejo a luz que sai dos seus olhos.
Encarei o infinito da solidão desconhecida, e ainda assim pude
encontrar a coragem para virar a água assombrosa, deixar que me
batizasse, recorrer a seus braços e sentir-me contemplada para dizer
de minhas vontades, num tempo arquetípico, no sorriso que dividimos,
mesmo solitários e temerosos das confissões, tomando cuidado para
não transformar nossas palavras em promessas. Quis ser dragada
quando o mar me mostrou o ínfimo e a força que desemboca deste
mistério. Mas estivemos lá juntos,
estamos aqui, e estamos dizendo nossas palavras com a mesma justiça
que desenvolve o sol para que o céu seja também a casa da lua.
Ambos se manifestam no azul, e assim é comigo e com você quando
dizemos que confiamos em quem estamos vendo, acariciando o seu rosto
confio em você, desde a manifestação crua e gentil em seus
batimentos.
Eu
sinto o desenrolar da sua pele como desmonta agora meu peito em total
entrega; enconsto-me sobre seus batimentos mesmo quando estou longe
de seus dedos convidando-me a permanecer. A certeza que tenho de uma
existência compartilhada perpassa estes olhos refletidos do calor,
entorpecidos pela certeza da lua em sua distância exata e sua
presença dentro de nós, simultaneamente, nas correntes que ditam as
ondas e conduzem nossos passos desde os furiosos corações. Às
majestosas imagens apreendidas e reveladas pelo olhar às sombras e
contornos, como as gaivotas cortando tamanho imenso desde a sua
naturalidade, eu sei desta mesma força pelo ritmo. Você é a
confiança do calor e de sua vida aprendo a respeitar o mistério da
gravidade como força.
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quinta-feira, 2 de abril de 2015
O rio
marte, coração, pulso
Os milímetros percorridos em desenrolar-se de revoltas e retornos estendem-se até o eco de um canto, as depenagens solares, as peles que respiramos, e os gestos que percebemos à medida que existem, já os transformando. A distância daquele rio necessário faz-se junto à atenção focal do rosto e do centro cardíaco. A movida pelo incessante giro planetário exige que se esteja no rio à medida em que se é o rio - aquele que contém o fluxo como princípio. O descarrego de palavras desfaz-se ao contrário, já ato, já feito-fluxo, devir realizado. O momento em que se para de escrever é aquele em que torna-se única solução nunca parar, seguir infinitamente para que se possa dizê-lo. Simultânea é a estadia; você se hospeda no rio por toda a extensão quando está nele como parte, que compreende o mistério no desaparecimento das paredes, do espaço entre as pernas. Nossas moléculas já estão juntas, pois são o espelho e a imagem refletida, responsabilizando-se por aceitar as dimensões do gesto, a doação do nome transtornado pela infinitude contida no contínuo: a morada do coração, a recuperação dos detalhes. A dança circular dos grandes corpos fragmenta-se em partes singulares tocando-se: quando nos damos as mãos para que nossos dedos possam abraçar a proximidade. Percebo as atividades das águas também porque o rio me permite vivê-las. Eu sou o rio.
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Outono III
a renovação da árvore
Da perspectiva que assumi ao encontrar-me vivendo as escolhas tateadas aquém dos calos nas mãos, agora vejo este espaço com a transmutação dos temporais em água bravia do horizonte. A expansão nos olhos para as extremidades não acompanha a infinitude por caminhar. Agora estou demonstrando o legítimo desmaio ao vislumbre do que é real. As reconfigurações requerem novos preparos. Sigo coletando o material de preparo, entre experiências cristalinas ao desterritório vivo onde sou lançada, há dias e meses para trás, além dos outros fugidios do escapismo, junto ao vazamento descontrolado dos limites hominídeos frente à impossibilidade de colecionar, aqui, pertencendo a este corredio tempo, da escrita, à face da palpabilidade. O desmantelamento da pele ardendo em descamação espalhara-se comigo, e eu revolvendo junto ao mar, por sobre um cavalo submergido, empunhando a espada dos olhos vigilantes. Seguia o peito aberto e os propósitos para cada instante fantasmal - a palavra que acontece e o novo não experienciado antes, o imprevisto, que traz as notícias do bordeado.
[deve ser por este motivo que levo chuva e duendes comigo; pelo coração sempre próximo às fertilidades, ao amor pelo crescimento dos cabelos e da intimidade. você comprova, a cada embalo novo do respirar, a existência do universo].
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Dreambook
Era amplo e claro. Havia, ao redor, em estado de guarda do espaço, uma natureza firme, alta, caminhando em direção aos céus e cerceando o berço subterrâneo, pelos arredores contínuo. Nas proximidades da percepção, fundo fora, um pouco para as bordas do coração, erguia-se uma estrutura limpa, elementar, com madeiras simples e rígidas - uma casa aberta. Um terraço preenchido e vazado subsubia às nuvens. O azuléu amoroso convidava à luz para a sacada. Andando em direção a ela, eu seguida de mim que me observo, dou-me a sentir que estava em família, porque a convoquei e ela comigo, onde, na beira, abaixo havia água. As bases da estrutura repousavam sobre um verde camuflado por detrás da lente. Mas, aos olhos enraiarados, no vislumbre do recostar-se à frente, estávamos dentro de casa, acercando-nos, por meus dedos plenos, do mar, do rio embaixo do rio, os nossos vínculos profundos.
Ergueu-se, por sobre ramagens desconhecidas, o interior de um edifício vertical, vertido para cima. Dentro era estreito, uma composição de cômodos pontuais, cada qual à sua maneira acolhedor, e de escadas construídas à maneira de possibilitar passagens interseccionadas. Nós nos reuníamos quando retornávamos à casa para compartilhar o descanso. Não havia como dizer de onde morávamos, porque isso não importava. À noite vínhamos curar-nos, estar presentes como entrega a estes conhecimentos nossos. Tetos e intervenções suportavam os múltiplos espasmos, a inquietação do expansivo em nós. Dizíamos livres, porque queríamos responder ao outro inteiro. Nosso espaço nos devenia. Era dentro de nós, um e os outros comigo, vozes vivenciadas como as vivencia o universo, e ali era todo o mundo, até que acabasse.
Outono II
a renovação da árvore
Venho sentindo moverem-se as águas desde o virar das luas, o torpe giro do sol; estou submersa ao toque do raiar entre sóis e luas concomitantes. Ao deserdar o caminho de casa, onde se pode desaguar, o mecanismo elementar do ato em escolha por entregar-se ao caminhar, o descontrole desapropria-se, a todos os nomes se esquece e o caminho translúcido reaprende o respirar. Há que recordar-se do ato, e seguir por qual pisada? Aparecem aqui no papel delineadas as perguntas, o reencontro fracassado, a aparição do descaminho. A perspectiva lançada à necessária conclusão, o momento da chegada, extrapola o espelho. Não sei do que se tratam essas colocações frente ao exposto, à tempestade. Quando se espera pelo fim do precipitado, o infinito desague, sobem os raios, desviando a sensação de frescor. Por essa perspectiva, é preciso dizer, para além das sabedorias concebidas pelos sentidos. A possibilidade de dizer sempre outras coisas é o que opera em desanuviar o espaço e reconhecer o caminhar. A floresta é densa e o percurso se desconhece. Venho entrando em moradas, ao custo de um pé, movida pelas luas que viram o rio por baixo.
How are you feeling about love these days?
Deparo-me com a sensação inteira do próximo movimento. A ponta rente à pele transparente, gotejando blues pelas pareces da subida, ao som de borboazuletas inflamadas; ainda, o descontrole absoluto da pisada, trepidando pelas linhas, alvejando, aos gritos de confiança presente, a saída desde o casulo. Naquela tela pintada, e a nascente entre o bosque ao lado da casa - aqui, sobre as mesmas pedras - voávamos dentro do mato, do rio e do sol. Hoje estou frente às entranhas do legítimo crescimento, acompanho o desenvolvimento das plantas, desexplodindo a bifurcação. O tempo, cada segundo, suas repartições incalculáveis do reino do sutil escorrem quando fito o perdido nas fumaças. Encontro-me diante ao organismo que palpita e diz: às suas extremidades, sensíveis à passagem do vento, aos movimentos do coração, aos toques de longa mirada, confie quaisquer soluções. A sobrevivência está em seus pés e mãos.
sábado, 20 de dezembro de 2014
dilúvio
(Durante os longos tempos que tomou a reverência à lua em minha curta vida, senti desde o sangue magmático que latejava em meus órgãos a expulsão do que necessita ser presentificado. Estávamos reunidas em círculo para bendizer o dom da vida, homenageando-o com nossas vozes e mãos. Atrás da casa havia o desembocar de águas caindo à meia noite de sagitário. Apontamos nossas flechas enfeitadas com fitas brancas para a correnteza, que desmantelava nossos segredos persistindo no fluir. Todos os sonhos com a chuva desceram à terra úmida que puxava os pés para o fundo da derrocada, ao encontro dos musgos mergulhados na quietude do submundo. Cantamos de olhos voltados para dentro, amanhecendo as novas células do próximo instante, conjurando suas partes com a sabedoria do bombear, as veias abertas a todos os segundos explosivos que arrebentam-se no bater, e a certeza então vindoura, e sempre, de respirações conjuntas.)
A fumaça, não sei sabia se emanava da caneta que eu segurava, da respiração dos gatos, do sonar preenchido que ocupava o ambiente. Dentro de casa habitam os bichos, isso se sabe. É assombrosa a vontade que move os pés até acontecer o desenrolar da relva sobre a terra, e tudo ser novo. Aguardávamos com atenção ao dilúvio, reunidos, esperando que viesse nos encobrir para que subíssemos, nadando com os nossos membros e buracos do corpo.
Agora aqui põem-se satisfeitas
As anciãs que ataram os cadeados
Do silêncio entranhado em registros
Invisíveis do dizer.
A inteira camada segue costurando-se
Nesta entrega ao Destino de
Minhas mãos movidas a
Sussurros antigos.
De dentro da caverna reverbera
O rugido afora ricocheteia
A participação avulsa e real
Percorrendo estas cantigas.
E só assim, nesta prontidão
Fantasmática do instante
Que ocorre o impossível
Reproduzir dos sinais.
Nesta conjectura espiralada
Ao meu desejar ao bem-vir
Do dilúvio, reencubro-me
Viva, viva.
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segunda-feira, 17 de novembro de 2014
trajeto 1
Pelo princípio do desvelar contínuo ao território, permaneço escrevendo cartas desde o dilúvio, expandindo à continuidade a morada de nosso contato, pelos átomos que se abraçam, até o dia em que se azulear a borda do horizonte. Compadeci ao lembrar-me que, deste anterior, já contemplavam nereides da descoberta, e já revolvia a terra desde o amálgama do âmbar. Surgiram faíscas no formato do céu por entre a chuva refletida nas lagoas de cristais, no meio de uma árvore atravessada, e revelou-se a flor do apaixonado, dissolvida por tons azularroxeados em verde sagrado. O corpo resplandeceu para sua manifestação e quis colher das pedras seus fungos, um por um, enquanto eu concebia a paciência exercitada em nossas distâncias e crenças por sobre a realidade processual do movimento. Permaneço escrevendo para que permaneças espiral, e re-gire a participação nos trajetos do vento, nesses dias tomados pelo humor das folhas, por entre nós e tantas noites afirmando a vinda do sol. Na coragem do mergulho, sendo por dentro à água da porta aberta, esses raios trouxeram a graça do respirar em constante decisão ao convite de escrever-te. A travessia para o próximo momento veio com a cura do choque térmico, e registrei minha presença inteira em meio à confusão expansiva do espaço. Cantou conosco uma arara colorida de atmosfera, no topo do ar - um sonido pungente do céu à primeira comunicação para que descessem os raios do leque da mãe, iluminando o que se pode ver. Com o rugido anunciado pela torrente-que-cai, ao nosso vento liberto, corremos ao encontro de abrigo enquanto choram os que necessitam e circulam os lençóis que nos alimentam. Segui passo pelos lares que surgiram, certificando-me de cuidar da liberdade desenvolvida em nossa linguagem, que nunca soube dizer o que éramos. Quando o sol ressurgiu, segui e, agora, com esse presságio, escrevo isenta de necessidades, mas no poder de meus quereres, movendo-me demoradamente até você, só para, no meio do caminho, percorrer a todo o universo.
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quinta-feira, 6 de novembro de 2014
luna llena
segurei essas mãos até que a caneta errou o papel e verteu em direção à boca, tamanha a fome de tinta azul e intoxicação por outra coisa que não a porta do elevador fechando, os espelhos sucumbindo a caretas tediosas no momento em que me encontram, as unhas delatando a derrocada falha ao processo dos pormenores, a mesma tinta da caneta arroxeando linhas de expressão, casca de árvore, fibrosas feito meu coração insistente em dar voz à vitalidade que me lembro quantas cartas de amor ainda estão por escrever, todas destinadas aos mesmos olhos e enviadas a desconhecidos na solidão de suas casas esperando até que morram de desgosto mastigados pelos próprios tecidos, dentre todas essas imagens que recortei a esmo na companhia de amigos inteligentes que revelam a realidade, pois me apegava às texturas da mesma maneira que faço nas noites à lembrança dessa loucura nas vísceras debaixo, encatatoneando o olhar para os seres de cima, todos os espelhos daquele encerramento como o mesmo infinito repaginado por si mesmo, e eu encontrando alimento num livro que deveria estar em outra língua passando por desejos súbitos de calma e contensão enquanto me doem os nervos da mão e os papeis caem e descubro formigas que não existem e sonho e desperto cheia de vontade de dançar com os gatos, explodir de felicidade e urgência, renomear cada uma das memórias, presentificar a saudade que sinto a daqui uns meses, quando se tornar insuportável consultar o passado nos oráculos e ver a permanência da confusão indecifrável para nenhum código possível esfaimada que fico no interior já ciente em incertezas disfarçadas por possibilidades que insistem em esmiuçar a coragem mas eu não deixo não porque preciso buscar o ar quando vem o tempo e a morte anunciada pela luz do farol no mar esverdeado pela respiração da terra e enternecido quando fecham os cílios dessa lembrança.
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transformação
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
about the exercise to find conciousness
às possibilidades (ao impossível)
fazem-se infindos movimentos
escolhidos pelo tempo
no espaço dilatante
de conjuntura singular.
neste traço,
acontecido devastador,
o segredo provém continuidade
à matéria.
fazem-se infindos movimentos
escolhidos pelo tempo
no espaço dilatante
de conjuntura singular.
neste traço,
acontecido devastador,
o segredo provém continuidade
à matéria.
As paredes erguidas afastavam o fora do dentro para que o ar instalado, desprovido de por-do-sol, sufocasse o desdito, na expressão transfigurada, ao homem que trancou as portas e proibiu que o cheiro das calçadas atrapalhasse sua transformação. Quando deixou claro que não havia portas, com os dentes arrebatados ao olhar, as pernas, decididas a respirar, percorreram todos os pedaços de chão entrecortados paredes sucumbindo ao teto esmagador. O descaminho inevitável jazia aos pés, excessivos pelos passos, e às mãos que esmurravam o concreto entre uma circunstância e outra, os cabelos desfaziam-se pelos escombros do coração, enjaulado, a cabeça de um lado ao outro, a boca mastigando o abafado, umedecido pelo suor e pelo choro. A vã manifestação do sofrimento redobrou o pisar, que ia decidido a encarar seus limites, o rosto impávido daquele homem por sobre lonas pretas, e exigir a verdade deste delírio, incumbir sua presença de poder, para fora, onde esperava antiga ferida, o buraco, ainda por cuidar, àquela mulher cujo útero era palco da vida, para que ao perdão houvesse continuidade.
À noite, quando já doía o peito renegado, por sob soturna luz que atravessava a parede, chegou um contorno familiar de sombra palpável, bioluminescente pelo centro, de onde um círculo verde esmeraldava fios de luz permissiva. O traço moveu-se em direção aos pés então repousados, pelo machucar de suas correntes, para que o seguissem pelos corredores. Desde o silêncio instaurado, caminharam, acompanhando a matéria negra à frente, quase integrada à escuridão ruidosa do isolamento. À finura com a qual surgia a realidade, naquele ponto verdejante, deu-se a ver uma abertura para um cômodo com janelas. Lá estava um contorno maior, preenchido por carnes do vácuo, onde brotam as estrelas do passado imemorial.
Quando saíram do labirinto, de imediato requereu-se respiração forte para suportar o que estava embaixo da janela. A inconsolável imensidão de águas próprias ao mar ou rios infinitos, revolvendo sob os pés, aos gritos daqueles dentro de casa. O redemunho convidava ao meio e ao fundo, prometendo ser morada daqueles rostos na lembrança, um sempre muito jovem, outro envelhecendo, entre as gargalhadas e as bolsas debaixo dos olhos. Sorvendo, escancaradas, as águas pertenceram-se fluindo, e assim o tempo findou para o seu reverso.
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