o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sobre os magos do tempo

To realize that you have power in your hands is to feel that you can change anything.
 
 
Os magos do tempo são aqueles que choram quando percebem o movimento das nuvens feito a realidade que pode ser compreendida como o surdo mover-se do solo em torno de si mesmo. Visto do alto, o chão se transforma no abismo preenchido das fluidas formas esbranquiçadas em texturas e reflexos de tarde, como em verdade já o é, e o céu colapsa com a ausência de horizontes em uma amplitude devastadora e inignorável. Daqui, movo-me tão depressa que tudo o mais encontra-se estático. Não há ponto de partida ou de chegada quando se está em suspensão, distante da Terra, em nenhum lugar. A distância que se está instaurando cada vez mais longa, também é, segundo por segundo, ou a cada traço desta poética, menos tempo até que estejamos perto como se aproxima o mar dos pés afundados em suas partículas de chão. Atravessei o portal de fumaça que me causou a certeza de estar entre todas as direções. Ao erguer-me, apertei um fio de seus cabelos que encontrei em mim, com as mãos e olhos cerrados, e vi a presença de seu rosto, que me abraçou, ali, naquele instante. São magos aqueles que confiam em suas mãos como armas que podem construir. Com elas, podemos alcançar ao rosto do outro desde o contínuo bombear, este fio condutor de profundezas, como o mar, senhor do infinito, mãe de nossas fragilidades, casa de todos nós.

(En realidad es dificil explicar porque te siento aqui y como sé que voy a construyer dias hasta su direccion. Yo queria hablar sobre los magicos, estes, como nosotros, que son capaces de reubicar el espacio solo con sus pasos. Mi razon es que ahora necesito mantenerme creendo en esta fuerza adentro, la misma que me hace conjurarte para que no me desespere con algo que sueña ya hecho, a punto de hacerme extrañar el futuro, pero que sabemos depender de nuestras volundades. La realidad cambia y yo escribo para observar el cambiante en estas palavras mismas mientras tornanse vivas. Escribo a vos porque me desnudo de la verguenza y puedo admitir mi miedo. Con mis manos hablando directo al respirar, a nuestro tiempo personal. Me estoy volvendo a la casa como se fuera antes; pero el devenir ya esta en el sol llendose hasta el otro lado, o descansando para que la luna sea maestra del tiempo por la noche).

Notas del mar y otros viajes

La explosion sigue estes compasos generados por el agua infinito; los siento en los reflejos de venas y contornos del sol adentro mi piel que el inmenso abraza.
We are made of this ancient impulse, and harder we shall shout our silences in their majestic power. They carry across through our bodies and range our beats.
Esto me cuentó el mar y el abierto.


Também existe um universo submergido, de seres que compreendem outra respiração, que acompanha as correntes. Estar longe da terra e perto do mar aproxima o coração do imenso pelo batimento ritmado com os balanços desta força inapreensível. Essa mudança se dá pela reconfiguração sutil dos fluidos corporais e energias redirecionadas pelo vento. O resultado, ao vislumbre da plena possibilidade, o berço e o túmulo, que gera a consequência de, é a coragem para te dizer que o resto da minha vida me assombra, em todas as direções que se deve direito, e que tenho desconhecimento, mas que isso é abertura quando vejo a luz que sai dos seus olhos. Encarei o infinito da solidão desconhecida, e ainda assim pude encontrar a coragem para virar a água assombrosa, deixar que me batizasse, recorrer a seus braços e sentir-me contemplada para dizer de minhas vontades, num tempo arquetípico, no sorriso que dividimos, mesmo solitários e temerosos das confissões, tomando cuidado para não transformar nossas palavras em promessas. Quis ser dragada quando o mar me mostrou o ínfimo e a força que desemboca deste mistério. Mas estivemos lá juntos, estamos aqui, e estamos dizendo nossas palavras com a mesma justiça que desenvolve o sol para que o céu seja também a casa da lua. Ambos se manifestam no azul, e assim é comigo e com você quando dizemos que confiamos em quem estamos vendo, acariciando o seu rosto confio em você, desde a manifestação crua e gentil em seus batimentos.

Eu sinto o desenrolar da sua pele como desmonta agora meu peito em total entrega; enconsto-me sobre seus batimentos mesmo quando estou longe de seus dedos convidando-me a permanecer. A certeza que tenho de uma existência compartilhada perpassa estes olhos refletidos do calor, entorpecidos pela certeza da lua em sua distância exata e sua presença dentro de nós, simultaneamente, nas correntes que ditam as ondas e conduzem nossos passos desde os furiosos corações. Às majestosas imagens apreendidas e reveladas pelo olhar às sombras e contornos, como as gaivotas cortando tamanho imenso desde a sua naturalidade, eu sei desta mesma força pelo ritmo. Você é a confiança do calor e de sua vida aprendo a respeitar o mistério da gravidade como força.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Outono II

a renovação da árvore

Venho sentindo moverem-se as águas desde o virar das luas, o torpe giro do sol; estou submersa ao toque do raiar entre sóis e luas concomitantes. Ao deserdar o caminho de casa, onde se pode desaguar, o mecanismo elementar do ato em escolha por entregar-se ao caminhar, o descontrole desapropria-se, a todos os nomes se esquece e o caminho translúcido reaprende o respirar. Há que recordar-se do ato, e seguir por qual pisada? Aparecem aqui no papel delineadas as perguntas, o reencontro fracassado, a aparição do descaminho. A perspectiva lançada à necessária conclusão, o momento da chegada, extrapola o espelho. Não sei do que se tratam essas colocações frente ao exposto, à tempestade. Quando se espera pelo fim do precipitado, o infinito desague, sobem os raios, desviando a sensação de frescor. Por essa perspectiva, é preciso dizer, para além das sabedorias concebidas pelos sentidos. A possibilidade de dizer sempre outras coisas é o que opera em desanuviar o espaço e reconhecer o caminhar. A floresta é densa e o percurso se desconhece. Venho entrando em moradas, ao custo de um pé, movida pelas luas que viram o rio por baixo. 

segunda-feira, 16 de março de 2015

Quedate Luna

relatos do mar

Apesar dos ruídos vindos das bocas e olhos que dão à areia seus caminhos, a infinitude quebra na orla e dá mover-se aos pássaros planando no espelho. Pode-se ouvir o quebrar, as águas furiosas redobrando-se em nuvens. Era um momento só com o mar o contemplar o infinito e a força do submundo, mas me sentia sozinha como consequência das presenças desconhecidas e da observação entre o bambu e o carvalho.
Existe outro lado. Isso sei. Existe presença ausente? Existe mais gente, ou menos gente?
A cada novo tijolo sinto-me só, mas não contra o mar e o céu, que contornam a distância. É o tecer por entre ambos, onde tudo precisa ser real, estar relacionado ao bombear. O carvalho, ou o bambu? 
Quem mora no mar conversa com todas as árvores quando fica em silêncio. Quem encontra-se com o som debaixo da terra, vê o murmúrio que traz o marejar de todos os lugares. Das pessoas aqui, a linguagem só responde às águas, para dizer-lhes que aguarda todas as luas (uma para cada coisa). Na chegada das luas, o mistério se desfaz e o amor pode enfim ser doado. Acontece, porém, o dia, quente e iluminado, quando surge o entendimento da aparição inevitável, que mora no espaço e reluz. Neste momento é que a lua se faz desejada e o chamado é lançado. A clarividência transforma-se em ponto magnético, o outro lado, que está lá na afirmação do mar, profundo, secreto, impetuoso.
Encontrei as criaturas da água durante a noite; apaixonei-me pelo outro lado. Deste lugar vem tudo, e com tudo é que localizo a extensão alcançada por minhas veias, fazendo correr o fim do sol, o início da espera, a capacidade de te espreitar no reflexo do além, e a vontade de nadar até lá para aprender com a imensidão.

A fluidez do retorno acontece quando a noite cede, e as estrelas dão lugar aos contornos abstratos dos montes no horizonte. Ocupam diferentes estares os níveis sutis das montanhas, que se dissolvem quando adentram às nuvens. Aqui existe um tempo que ainda não é dia, mas já abandonou a clarividência da noite: é uma pausa que não tem nome, para que dialoguem os sábios dos céus em sua linguagem sublime. Para dentro e para cima (desde debaixo para fora), o imenso, a explosão gloriosa do espaço - onde, ali, você também existe. Aí reside uma verdade, as cores estão aí também; as palavras têm poder para curar. 
O limite é o mar. Existe o outro lado, o sol virou, a lua já é outra novamente. O círculo flamejante que desvia a retidão do olhar enfim surge, como única palavra que é repetida e anuncia, por detrás da pedra, no fim do mar. Existe vida do outro lado.

Era como se o vento entrasse na casa com a força do mar bravio que me despertou essa manhã. A troca inevitável de instantes surpreende ainda quando olho a inundação translúcida. 

(Esta série de reflexos do mar contrasta rapidamente com o calor nas peles coloridas transitando pelos cantos. Passam os olhos pelos sons transformados ao longo da noite. Passa a gente e para no dia para olhar. Começa a vivificar a onda desde o centro do movimento. O estômago do mundo; daí vem a força).

Em alguma parte enterrada faz morada o medo de aceitar este momento, sua beleza insondável e a passagem da realidade. A gente que para pra ver, encontra. E leva pra casa, deixa a onda vir, inunda tudo, nota as expressões lançadas à sincera manifestação das mãos que criam por fora o caminho mesclado de dentro. Surpreender com o pungente som parece claro, direto. Estou surpreendendo junto às sutilezas, sabendo que tudo participa do mesmo lugar, e estes caminhos se completam. 

Fazer do mar casa é um movimento perigoso. Não há mais do que descaminhos nessa força que desemboca. O mar é casa em suas profundezas, quando não mais pesa a presença do abandono, só existe amplitude no âmago do mundo.

O bendizer do
Horizonte, encontro
das forças calmas,

Desagua perto
sobre os pés
Para anunciar

Que arrastará os corpos
para o fundo, onde
reside o rio

Sob a terra, a alma
do mundo, o buraco,
indundado;

Este lugar esconde
o amor, a desolação
e a entrega absoluta
ao movimento do tempo.

A maior extensão medida pelos sentidos, a fúria dos últimos três dias, filtrada pelo coração, traz ao dizer impossível, o inconcebível futuro. Passam todos os planos e meus esforços estão prontos para escapar aos pulmões em forma de grito mudo na direção de todo o vazio.
Eis a mensagem para a garrafinha lançada.

O coração e o mar fazem movimentos correlatos:
para dentro, uma profundeza inestimável.
para fora, uma força que ninguém alcança enquanto sabedoria.
Só vem o suspiro abstrato.
Trata-se de uma unidade imperiosa que acolhe e atrai tudo que ainda não participa nesta fúria.
Só os contém quem ama abertamente.
Só os que enfrentam as questões da alma.

O despertar tranquilo respirando todas as células acontece desde a água e aí desemboca quando o coração fica suspirando. As memórias ficam então abertas à construção para afirmar que existimos todos juntos. Cada onda que volta, já vem de outro lugar, transformada pela inteireza do porvir.
Ficam pegadas no úmido do chão. E outra vez existe o perigo no desejoso espírito.

O antigo com o novo num retrato que ainda não se pode ver. Está no filme enrolado dentro dos olhos, compreendendo os relatos do mar à toda profundidade. Agora só se pode dizer do movimento das estrelas e que, na falta de morada, há o mar para hospedar os movimentos que rebentam sem que os esperemos. Há a mãe da alma para cuidar da paciência necessária ao encarar a impressionante existência. Este aprendizado, de compreender a casa em movimento, abre um espaço no centro do corpo para que circule o ar. Demanda troca incessante, respirar com o meio desimpedido, aceitar a despedida. Compreender o retorno serve para cumprir um destino do coração. Não há como impedir o contínuo bater e o desaguar. É necessário receber o que vem do profundo mar. I dont have a choice, bu I still choose you.

Eu escolho recebê-lo feliz e grata, ciente da força arrebatadora, ciente da transformação irrevogável. Não existe reviver, só traço, seus desenhos do rosto que não formam imagem são feito sonhos, dando sinais ilegíveis, tornando realidade um caminho ao revés.

Alto, alto, alto estou só, sentindo esta linha invisível de extensão infinita. Não importa aonde estivermos pisando. Estou  no ar e te sinto presença  real, porque a lua fica, e o mar é a única realidade inquestionável.

A lua revoga a claridade para abrir o despenhadeiro da terra e o encontro com a sombra vislumbrada. A penumbra nebulosa convida para dentro o desenrolar deste destino.



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

trajeto 1

Pelo princípio do desvelar contínuo ao território, permaneço escrevendo cartas desde o dilúvio, expandindo à continuidade a morada de nosso contato, pelos átomos que se abraçam, até o dia em que se azulear a borda do horizonte. Compadeci ao lembrar-me que, deste anterior, já contemplavam nereides da descoberta, e já revolvia a terra desde o amálgama do âmbar. Surgiram faíscas no formato do céu por entre a chuva refletida nas lagoas de cristais, no meio de uma árvore atravessada, e revelou-se a flor do apaixonado, dissolvida por tons azularroxeados em verde sagrado. O corpo resplandeceu para sua manifestação e quis colher das pedras seus fungos, um por um, enquanto eu concebia a paciência exercitada em nossas distâncias e crenças por sobre a realidade processual do movimento. Permaneço escrevendo para que permaneças espiral, e re-gire a participação nos trajetos do vento, nesses dias tomados pelo humor das folhas, por entre nós e tantas noites afirmando a vinda do sol. Na coragem do mergulho, sendo por dentro à água da porta aberta, esses raios trouxeram a graça do respirar em constante decisão ao convite de escrever-te. A travessia para o próximo momento veio com a cura do choque térmico, e registrei minha presença inteira em meio à confusão expansiva do espaço. Cantou conosco uma arara colorida de atmosfera, no topo do ar - um sonido pungente do céu à primeira comunicação para que descessem os raios do leque da mãe, iluminando o que se pode ver. Com o rugido anunciado pela torrente-que-cai, ao nosso vento liberto, corremos ao encontro de abrigo enquanto choram os que necessitam e circulam os lençóis que nos alimentam. Segui passo pelos lares que surgiram, certificando-me de cuidar da liberdade desenvolvida em nossa linguagem, que nunca soube dizer o que éramos. Quando o sol ressurgiu, segui e, agora, com esse presságio, escrevo isenta de necessidades, mas no poder de meus quereres, movendo-me demoradamente até você, só para, no meio do caminho, percorrer a todo o universo.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Destinatário: ausência

[cartas fracassadas, dezessete de junho] 


Só há começo possível, para então atingir este vazio trôpego, naquele instante há tanto vivido, sem que percebesse, onde escrevia sobre seus olhos de árvore esburacados como quem ama ao respirar. Enquanto soam sinos, barcos e trombetas, transpasso objeto momento definitivo, posto que à mudança iminente ininterrupta ruptura. À sombra desta fina insegurança, face corada por saber, aberta por criar, em fertilidade, a passagem do dia, deu-se sua urgência, que também é minha, pela superposição dos encontros, o tempo errado, para destruir sempre, na força desta terra movente, o fundo do ímpeto, a nossa união. Colapsando em abismo certeza, mas de cada respiração, virou-se em fugitivo teu nome, escapou-me para a chocante colisão entre o vidro real e este espelho, na decisão pelo indeciso, por assim dizer, desdito. E a sua loucura me protegia desta espada, a minha, empunhada contra os redemunhos do mar. Eu, por minha vez, desejava que ao redor eles parassem de quebrar tudo. Já não podia mais suportar a perigosa vontade destas palavras que tornavam em grito canto silencioso do apaixonado. E havia o arfar sobre toda a existência daquele lugar. À abertura última debatia-se repulsando meu exposto interior, para valorizar, em absurda fractal, palavra.
Perdão, pois culpo-me por insistir nestas figuras sígnicas, como se fossem já uma raiz secreta para a distância, que temem ao diferente, pela exigente compreensão. O que aconteceu foi que eles precisavam saber, pois eu já não mais aguentava a solitária cadeira do café e do cigarro, esperando o destino que viria com a vontade daquele que vem. Este foi o frio quarto em que você apareceu. Olhar selvagem vindo do bosque sobre a pedra, suas quatro patas cruzaram por debaixo na cachoeira, para chegar até mim, encolhida à beira, sobre a terra, em estado de atenção. No entanto, foi desta dor ancestral que me surgiu o substituído, vazio de afirmações, para nunca ser hospedado. Eu o amava por recepção incomensurável, mas ali não havia como falar alguma palavra. Assim, desejei desaparecer, como se os sons lá fora não fossem diferentes dos que ouço dentro de casa, no que os percebo iguais, dividindo. Ele se recusava a despertencer-se, ao passo que os sinais por todas as partes urgiam cautela sobre as patas compartilhadas. 
E o meu espaço foi para contemplar o horrível estilhaço, como surpresa antecipada aos seus toques sem amor, escassos da sua inteireza. Observo o lento estilhaço dos braços indômitos, todas as redes aos corações. A boca entreaberta, os olhos enrugados para dentro em choroso reconhecimento. Paro, finalmente, para vislumbrar a catástrofe. 
Ao centro do seio, então, germina a mulher-sob-a-lua, transfigurada, em aceitação ao caos, por sabedoria, desde a continuidade daquilo que se dá à morte. O horrorizado rosto sublimando toda a dor, presente na voz suave que demonstra o instante final, para que se adentre à floresta, desde a coragem nas maçãs e o sangue corrente para o princípio cósmico, o Chaos de toda beleza, pelo que vale, em gratidão. Assim, me vejo perante estas carcaças com ainda a infinitude por te escrever.

Sua,


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Ressaca

Descobri Beirut antes de Capitu. Desvendei aquela onda, pedaço deslocado do mar, em que guardava-se choro antigo, desde o nascimento. Antes, quando ainda era menina atraída pela espionagem. Os buracos nos corpos das pessoas, as rugas dos bichos e a improvável combinação entre os sons das músicas que eu ouvia em casa. Foi nesta constelação que tudo gerou-se. No espaço dedicado aos sentidos que percebiam, e rápidas respostas ao outro que prostrava-se. A esta marca de cicatriz, que aqui aponto ao meio do tronco, observo desde a distância, no inversos dos inícios concretos, pelo filtro das águas, em vislumbre ao incessante esvaziamento. A este abismo que aqui aponto. Sua entrada, trespassável ao outro lado, não coletava ou discriminava, e o que eu via eram conhecidas formas à luz infinita. Descaminhei desde o momento em que houve caminho. Eu acreditava mais em meus pés e nos raios solares quando conversava com o vento. Isso que não mencionei era-me inseguro desde o mistério que restou, das furiosas possibilidades, nos olhos onduleantes. Assim, escolhi instrumentos, confiei na extensão do espaço, e parti. A todas as delicadezas porvir, fui provando-as constituintes do efêmero, que nos aponta à iminente morte, na importância do instante sem-fundo. Descobri a respiração cutânea quando quis-me pôr à prova, abdicando de sentido encubado, daqueles que a gente faz crescer à força. Todos os dias passei a dizer-me, enquanto encarava o silêncio deste rosto único, fragmento possível de toda carne, que esta memória servia para alcançar o outro lado do espelho, ao observar-se, sonolenta, o sangue entre os limites. Alguns dias, no entanto, forcei-me à mudez, que me tomava por outros dias mais, encarcerada, culpada às palavras, injustamente. Transfigurava a verdade toda vez que sempre frente ao escrito. Assim, o impreterível enlutamento pelo mundo, morrente – foi o que me disseram, e era o que eu via no refletido – chegava, todas as manhãs, quando, ao envelhecimento, via-me condenada aos suspiros do tempo e às distâncias refletoras.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

nossa existência

[escritos destroçados com o tempo, abril de 2014]


quando a pele esfria por baixo dos caminhos ensolarados, necessita-se pausas dentre ruas, uma esquina que te encontra frente ao desespero enérgico gerado pelos sons dos raios, luzes mal acostumadas, pobres de gente, abandonadas desde a infância. os olhos semicerrados erguidos para o teto de toda fraqueza embebida, filtrando cores em branco-caído, poros desempedidos, boca sentido gosto de peças desencaixadas e a sinceridade emergindo nos rostos aos poucos avermelhando-se. o instante de carinho doado por existir este corpo de gente em traço no dia em que se escolhe o afeto, a luz transfigurada, mãos dadas com o vento.


[francis, há muito vejo o vento e é inteiro, todo entre-dedos, entre sorrisos e cada singelo ser no momento do sorrir me toca em cheio antes de dormir. e penso em ti, azul, vermelho sangue, amarelo olhar em corpo fundido invisível no querer sempre resposta e peso de dor. estou aqui. estou aqui vendo tanta lua por entre esses cabelos desalinhados, por passos desejosos de caminhos tantos e descaminhos mais que nos cruzam e não nos repartem, porque nossos fragmentos já se são. esse carinho nascido desde a vida nos constrói células braços e pernas socorrendo-se. meu coração dói e agradece.]

tanto descaminho desconstrói nosso abandono
nossa liberdade pertence a estas mãos


devo libertar esta figura de minha lembrança para permitir fluidez ao transformar ininterrupto. devo aceitar cada passagem de tempo aos longos dias fatídicos e permitir-me o esquecimento às tuas distantes palavras transparentes, felizes, silenciosas. devo dissolver o rosto nesta imagem concreta aqui há dois palmos gritando e negligenciando tua viva sensação.


e quando percebo tua iminente partida todo suspiro já é, memória; a loucura desta meia-vida sonhada, por jovem toque, fino aos dedos docemente empenhados a encontrar-te, semi-luz, horas poucas, instantes amedrontados. já passou por mim o distante rosto de voz e caminhar a passos pés livres e em verdade. deixou-me tranquilamente, confortável por esvaziar a presença, transformar escorre-tempo pela abertura deste rio que me atravessava. sentirei saudade quando lembrar-me que, ali, podia deitar a cabeça naquele peito desconhecido, para então recuperar o espírito viajante, víscera que não cessa de sufocar; ainda assim, não o fazia, tinha medo do meu corpo movendo-se para fora, receio de assustar arrepio, por afeto, querendo estar perto, mas longe ao momento da despedida, terminada nesta mesma pequena carta que você me entregava às pressas, não querendo-me olhar o rosto infeliz, tremendo de acontecimento, sem fé, para nunca mais observar carinhosamente tua consistência. assim o resto aparecia nesta parte fria, oca, mesmo quando gritava com os outros membros, e mesmo com tuas cautelosas manifestações de bem-querer. life goes on for all the daytrippers. 

then, seatted with your eyes hurting, you hear this ancient song, coming through your left ear and pulling down the feeling of walking alone and loving the lost. when a scream rises, you hear a new instrument and a familiar voice. and that keeps on coming 'till you have no choice but to fell in love with the moment and pretend you can't see the hearts of ghosts. 

espero verte pronto,




segunda-feira, 24 de março de 2014

arruinando

estávamos deitados ao cair da noite, embalados por sono mal aproveitado e entregues ao conforto desta cama velha, as histórias ao redor, em livros, pequenos objetos vivos, fotografias e alguns discos que eu não tenho o hábito de ouvir. você respirava fundo e eu não conseguia tranquilizar-me comigo para abrir o vão, criar coisa nova com cheiro de antiga, passar tempo na conhecida cidade espaçada em outro lugar, espalhado pelo corpo. quando afastei necessidades tolas e projetos fracassados, o instante vazio, pretendendo um sonho, foi preenchido pela vontade secreta das memórias. lembrei-me daquele sofá numa configuração outra, luz amarelada, a jovem madrugada convidativa, inúmeras xícaras de café, e pude sentir o cansaço enganando meu sangue que corria, como se antes não fosse tempo longínquo, rosto amado, distância inevitável dos instantes. mas eu havia escolhido, no desconsolo de jamais esperar por dizer o que me saltava aos olhos, meditar o momento agora, que estava acontecendo. todos os braços carinhosos fazem ausência quando só existe retornar a esta casa de mentiras. foi aí que, na tentativa de acompanhar sua respiração, bem de perto, a sensação familiar de toque-entre-vidas, a pequena deitada sutilmente sobre meus pés para abençoar o caminho com a sabedoria da lua, eis a erupção dos traços, matéria das palavras. eu não queria me mexer para aprender com a passagem. então, foi-me saindo pelas costas uma memória vermelha e fluida, com jeito de gente e um sorriso que eu sempre conhecia. ela deitou-se no espaço vazio da cama e, ao meu breve desespero por tocá-la, virou fantasma, atravessável, que me encarava, e foi sumindo... sem saber como suportar o resto da vida, abri os olhos para ver o vago próximo acontecimento, que nunca chegaria, que promete a continuidade para compreender qualquer importância desalegre, em presença, de dentro de mim. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

desmentindo a despedida

o processo lento de suas frígidas veias espantam aos olhos atentos. quis movimentar para dentro-fora essa sorte do encontro, escape do êxtase, possível transformação de potencial em coisa feita, fazendo-se, construção de casa. cada palavra caminha para a certeza do fracasso, mas confia no caminho, e sabe porquê pisa. sabe de sabedoria esquecida, sem sentido, longe de conhecer, distante de descrever, fazer tratado, apontar o dedo, discutir o útil . a palavra sabe um olhar vago, reconhecer corpo magro, aceitar fragilidade, abraçar peito entorpecido, é a acolhida do sol quando escolhe subir ao mundo, este mesmo cheio de pernas bambas e tontura vã.
quando te disse que queria lhe escrever cartas, contar meus sonhos, participar de seu rosto, explorar o numinoso, lamber seu suor, compreender seu derretimento, e fazer de toque um corpo-troca, foi uma confissão. quis contar o valor da presença da respiração cautelosa que você lançava sobre mim, como um furacão impedido. gostei da sua confusão, e te falei das faces cheias de sangue, em coração, perpetuadas de coragem; das faces submersas, às vezes feias, mas que são lembrança antes de dormir. as faces que a gente sabe de cor, dos traços, as linhas de expressão, pedaços tortos, que nomeamos e fazemos ser, trazemos à vida, porque somos todos parideiros de chances.
não há estado de pureza, só existe contaminação da árvore no teu caminho, seu pé sujo de terra, os pelos dos gatos no nariz, os olhos mareados, atingidos, preenchidos de verdade, pulsando, sentindo organismo, víscera por entranha, entrega ao absurdo. quando você me disse que gostava da sua solidão, te achei tolo, assim como você acha ingênua a força doada por mim ao alcance do sombrio. o tempo está passando num giro espacial contínuo e repetido, e nossas energias agora nestes corpos tão nossos, tão eu-sou-eu-mesmo, disseminarão em terra ao completar do ciclo invisível. não é como se fôssemos todos os tijolos da parede, mas os caramujos por dentro dela é que nos são.
é com bastante tristeza que escolho compreender o movimento de amorosidade doada, que luta pela presença, que não dá às costas congeladas à indiferença da própria voz que diz. o carinho que você merece de mim é quando nos esbarramos aquele dia, com as mãos cheias de vontade, e escolhi encostar a palma no teu tronco. não porque eu sabia que você iria embora com tanta facilidade, mas porque queria te pedir para ficar, encarar a cara do grande cachorro preto que uiva e morde. se ficasse, perceberia que correr sempre para frente procurando um outro vazio que, no imediato, aparenta luminoso, faz deixar pra trás o detalhe sombreado que contorna a precisão do momento. e então a passagem torna-se borrão atravessado, passos trôpegos, gente bêbada entorpecida de exaustão, chorando questionamento no umbigo, desabrigada, envaidosa, agarrando-se desesperada à troca de peles.

aqui, certa oficialidade exige horas do meu dia para que eu seja oficial. eu, que me estimulo quando corro, dou risada de criança na rua, xingo quem me desrespeita, deixo ver cabelo azul e rosto nem sempre singelo, mas existência inteira. se aprender importância de existência inteira é coisa que não te faz cavar fundo tua terra, plantar uma palavra nova, torcer pra que cresça e chorar quando perceber que cresceu, vou embora tranquila, deixando a ti esse teu mundo tão certo, tão incrementado de experiências grandiosas, tão descoberto pelos auto-seiláoque nos quais tu gosta de se apoiar. um dia, quem sabe, minha lembrança encontre a sua, e você consiga, então, piscar os cílios, e abrir os olhos para o infinito que te espreita. 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

oceano

somos quase todos pobres em rosto rostidade por dentro subterrâneo na pele meu sonho esta dor lançada em passo a cada pé pegada rastro que fica saudade nostalgia de quando outro lugar descaminho no abandono da casa do corpo pelo outro seus olhos destino a rede fractal do tempo espaço combustão em raio força tempestade luz isolada expandindo por dedos nos extremos no corpo que move dança segue não é esvazia enche meu coração corajoso sua lembrança da lentidão seca em cada toque recolhido ao coral nebulosas e aurora suave medida do ar em espectro ruína carinho meu amor por ti tua verdadeira mão na minha realidade concreta do físico rebuliço braços membros invisíveis partilhados destruídos sacode a voz o grito o uivo cuidado segredo expurgando mantido na morna carne no som da música as ondas inefável acontecimento do mundo que brota germina escorre cresce morre em cinza ruína luto abraço e troca meus batimentos sua recepção seu abismo nossa vontade tanta história tanta vida o caminho o caminhar junto comigo contigo nossa existência profunda afundada afogada em redemunho convulsão turbulência necessidade urgência o meu amor erguido confiança abertura este buraco negro cósmico impossível não posso te dizer que amo seu nome suas costas os sentidos em sua parte inteira inteireza obrigada todo o tempo nenhum lugar a explosão do universo que não para expulsa não esquece fica no chão na terra correndo fluindo memória seu toque tanta verdade na lentidão miúda sorrateira arrastando demorando todo um minuto uma vida na gravidade no sol na órbita no umbigo na testa pelos seus cabelos secreções silêncios saudade da presença da perna do peito do ombro que cabe estranha decide escolhe querer estar aqui agora onde nunca só sempre junto orbitando entre ao ser este momento de afirmação do apego afago resposta a faísca o grande sentir pertencimento vazio solidão você eu nós confia confio flui água minerais molécula sustento na respiração na troca minha boca sua boca os tendões a tensão nosso vão a branquidão o dilúvio todo o verde todo o fato cada invenção minha verdade fortaleza abrigo guerra seus estranhos olhos de árvore vento folha saudade alento sono sonho ao seu lado.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Big my secret

miro o instante de seu corpo. a expansão do peito em faísca, azul, de terna mão, caminhava até cada extremidade ou ínfima curva. os volumes e cavidades cabiam em si mesmos, posto que a meus olhos era familiar este rosto estrangeiro de casa. os fios da testa acumulavam faísca aqualuz de modo a irromper descanso, do torso deitado, em ato de entrega. tua confiança me é sol, presença de gente, respirando o tempo. e meu coração deu-se feito palavra. em meus dedos tracejava o espaço de sua vontade. a meus pés já não mais cabia dor, como acontecia à certeza do contorno, em casca, território velado.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Limite

A testa cadavérica sobrecaía a teu ombro, bem intencionada, pois que de descanso; deleitava este carinho, lembrança em respirar, de branda cor, garganta contaminada. O silêncio emoldurado do dr.O parecia-me apetitoso, a princípio. No entanto, o desespero deslocado, este lugar de descuido, tomava-me em mim, desentrenhando caminhos e amortecendo desilusões. Perdia-me ao imaginar o fim de meu rosto no corpo de tua pele, essa desonra do horizonte, para então perceber-me escorrendo, de pouco, pelos buracos do mundo inteiro. A desolação de confiar neste instante distorcido, distante, em tuas mãos abrigo – aí é que me esquecia. Sobre ti, adormecia infinito, para o movimento do mar, cedendo, transparente.

terça-feira, 16 de abril de 2013

A quem, destino

À medida que tecem os dedos e afagam os fios transparentes, a tinta escorre sobre brancas paredes, pardas de ser, conforme dia e sombra, conforto de ritmar-se, verdade em crer. É de rebuliço esse movimento, essa voz de se estar, entremente, tanta boniteza, contaminando, o caminho. A cada pausa, um completo suspiro, como dia designado a passar, instante desmedido de perceber, cada coisa absurdando-se nessa vida, por dentro em mim, esbofeteando miudezas gentis, carinhos certeiros, enlaçando mãos sem propósito para-além. E o chorar-se, então, é para nada menos que reação, dizendo sim, seu aspecto de incrível criatura impossibilita qualquer fuga à existência dessa face desmitificada, retorcida, maravilhosa. Meus olhos são seus, feito mar encobre céu. Estou correndo para pisar todo o chão, pelo movimento estático do corpo, erguendo-se em arrepio, em incerteza encorajadora, motivo infame, de nome, chamando, em uivos, ruídos, sussurro de todas as coisas, enferrujadas e feias, sinceras em formas, cinzentas pela cor. Explosão riacho adentro, vai descendo todo o verde, a epiderme em descanso absoluto, entregando-se para a queda, porvir, engolindo, seu toque, esse sopro, irremedido, infinito. E por entrefolha o som cessa, expande-se ao silêncio, a tamanha urgência, piscadela eternando-se para sempre de nunca mais, adeus, desta vez posso te ver em inteireza singular. Que de tanta sinceridade, ao respirar, desfalece o montante terroso, por cima dos pés, escolhendo as partes, costurando, em palavra, jamais abandonar amor, este seu, acabando-se em si mesmo, posto que é buraco, preenchido, arejado. Obrigada, a ti, você sendo criatura, com cheiro e maciez, confortável porto de sonho.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Fagulhas

Procuro nesta rua aquilo de apaixonar-se. Como uma ruína num precipício onde se sentam meninas mulatas ou qualquer coisa absurda semelhante à sabedoria centenária em seus fios de cabelo. Este instante de torpor e luz contidos em seu sumiço, em cada passo de lama para longe daquela vida, daqueles gritos e toques delicados. À medida que me distancio, mais me rendo ao traço deste teu nome e não aos olhos que dissecam detalhes da cidade, desesperados pelo encontro, sempre mais próximo e impossível. Rabisco no escuro para poupar qualquer luz à tua eventual passagem, a qualquer algo que respire como você, desse jeito forte de coisa viva, com vontade. Não posso deixar de te procurar para lembrar tua sensação. A palavra pela luz, o caminho pelo tempo, a passagem pela distância. Se não posso te tornar todas as coisas, agradeço a uma porta antiga ou árvore nua por terem atravessado, em mim, o âmago de teu cuidado. Este sopro estará comigo para que eu o encare, desde antes, a partir de sua incontrolável natureza.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Pés

Essa luz que me serve bem, torneando por trás de nuvens sombreadas, agride a escuridão destes traços. Pontos de luz balouçantes por sobre o ar, dentre troncos e verdências, em manifestação singela da destruição, das cinzas emotivas por cada mover. Não é assim que confesso essas sombras, não posso esquecer esses traços no céu acinzentado, de azul fosco inflamado luz reprimida, contida no pano que encobre. O desenho destes galhos relembra o retorno, de coração, o dolorido caminho dos pés, perto daquele outro que me sorri-resposta. A qualquer momento as nuvens que não posso ver, por sobre as estrelas, por trás da minha cabeça, o fogo azuleante negociará o calor.
Da forma que o fizer, não o faça, o buraco dos meus olhos segue o fim da luz por sobre o pano, por trás do ouvido, que não quero te dizer, por causa da minha dor, isso é dolorido, eu confesso a você.
Quero concretizar para o fim, com este instante, a dor nesta pele e não mais no céu, a permissão do calor, do rastro que o fogo toma por dentro dos seres quietos. Escolhe ser frio, azuleante em morte daquele que se deteriora nessas vozes familiares, cai pelas pedras e desmaia, nunca mais.
Os detalhes de cada entre, em sua singularidade explosiva, não cabem ao infinito olhar.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sophia

Quando leio
de desolação sinto
abraçar o poema
acariciar as palavras
em sufoco de braços pesados
como quem se atira
se entrega
ao rosto de ninguém.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Sem chama

Viver é quando olhos pescam calor por cima do verdume largo e transparente. Todo dia parece casa descuidada e as mãos servem para pintar. O céu é por dentro das pálpebras, sem sono que desampara. A cada pescoço pertence um valor de pele, de simples amanhecer, e o rosto é fino de força, vazio por preenchido no traço da sobrancelha, como se tempo fosse invisível. É mesmo passarinho que se apronta em dançarino, sorri de esgueira, pra todo mundo ver. O peito fica em plena mão, completo, sem partes por dividir, e um som de cada vez vem pra encostar a boca, sem hesitar, e assoprar aqueles sonhos dormidos.

A urgência de irromper em palavra desmedida, afeto descabelado, desrazão umbilical, é que move o resto do corpo para ser vida. Minha sinceridade é a sua, por silêncio incapaz de conter cor em desespero. Todo toque é por sua intenção, em sonho-verdade, ver que só por ti.  Só luz porque sei de seus dedos. Só sensação porque orvalho em você. Só dia quando você caminha. E papel meu é que enxuga vontade em ternura. Cuida dos lampejos seus que ainda não rio, mas espero em ser aflito.

terça-feira, 12 de junho de 2012

One way... or another

Era por silêncio que os dedos moviam-se em pontas de existir, qual esperança na vida tua. Que é difícil palavrear vontade, explosão dos órgãos de respirar em sufoco irremediável, mas em afago, movido por cada grão de areia. De sopro do tempo, cada fio de fractal, pedacinhos de um você esquecidos nos esconderijos dos caramujos, nas partes íntimas das águas, no sangue dos bichos. A falta que me é nociva em pele cura quando dissolve dor pela presença de todas as outras partes. Não é a toa que o ar para todos os lados carrega suas gentes e coisas verdes; é tudo você me querendo pra perto dizer que vive por dentro, no vento, me encostando de caminhar, quando acordo no dormir do sol. É do escuro embranquecer as velas que queimam devagar, de luz se espremendo por entre folhas de árvore, como se o céu não fosse capaz de conter-se em entusiasmo por surpreender fins de tarde aconchegantes. É quando olho pega flor sem querer, de cima, em segredo.