o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
Mostrando postagens com marcador mistério. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mistério. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de dezembro de 2016

poison

what if a poem sounded like the falling rain
and could bring the secret of the waters cicle

passagens e corredores longos pelos caminhos
um despejo que pinga pinga aquele som repetido
atravessando um monumento espatifado diante do mar
à meia luz diante do penhasco aberto no oceano.
dei um passo em direção ao centro
e agora sinto, durante a queda, os membros distendidos pela descida,
cores translúcidas atravessando um espaço líquido
e o tempo aos poucos deixando de existir.
durante a caminhada as mãos com a pele de cobra depelando pelos dedos
uma montanha de corais erguia a terra viva,
no centro da estrela no centro do peito
um gesto gravitacional numa dança ao contraste do sol no avesso,
movimentos já diluídos no acolhimento absoluto lá dentro.
eu sou a impossibilidade de cada percepção,
já de tudo um fragmento de tudo
memoriasinstantessonhos mas superintegrados, indissociáveis,
e as mãos incrédulas por sobre a boca
da matéria impossível do corpo improvável
no olho espiral entrando
neste portal às vistas na floresta de dentro.
um vislumbre da colisão entre nossas incontáveis partículas
um espelho na sala de espelhos do avesso no seu reflexo mostra o lado direito
do olho que vira do avesso cada sinal de luz.
uma oração e os raios já começam a lampejaar uma lavagem magnífica,
uma vela um canto
e a preparação para virar numa porta de galhos apontada para baixo
para o ventre do mundo de dentro.
uma voz melódica pela descida anunciava
a completa inundação
e as pedras brilhavam no altar que uma loba cheirava com tranquilidade.
tudo que sai daqui vem do cosmos,
diretamente do pó estelar que atravessa tudo.
a voz que diz diz quando quer,
o segredo se manifesta na ponta dos dedos,
na palma da mão o mistério da regeneração.
não existem essas portas que enxergamos,
tudo está esburacado,
a matéria transita entre os espaços livres do tempo.
nada menos do que inteiras galáxias nos pés,
na relação de dentro com a face mais interior.
os ciclos entre as faíscas estão espiralados,
alquimia magnética,
essa é a epifania que corta a ilusão.
os olhos querem ver a folha que cai majestuosa
e o vento entre ela e o centro da terra.

O ANIMAL BEBE ÁGUA DO RIO E VÊ O SEU REFLEXO

a densa imagem espectral daqueles próprios olhos desconhecidos
prevendo o recuo do corpo diante do impossível

e uma menina sonhava sonhos da noite
seus labirintos reais do interior
enquanto as pedras rolavam pelas veias da mãe oceano

o animal descia com a cabeça para si próprio
engolindo traços de sua pele a cada gole
dentro das entranhas absorventes de dentro

um dia verdadeiro se desenrola
em direção às galáxias

na sala uma mulher repleta de cristais 
conjurava um pêndulo azul
o animal acordava, então

os dias secos rio abaixo
num movimento necessário.
aqui o universo sustenta um momento
para vicejar. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

o eu instantâneo - esse único que existe - não teria como saber por onde começar
ele vive o rio e a tontura do movimento
e também sente a aparente estaticidade dos corpos silenciosos derramados
dentro das noites solitárias, dos sentidos atravessados.
o começo pode ser uma constante impermanência,
essa vasta neblina sobre o jardim insone,
os cheiros e ruídos que não são identificados
e os passos por sobre a solidez assoladora da terra.
é o desespero espiral de contatos ininterruptos,
sempre um desconhecido, um eterno desconhecimento que pulsa pelos buracos no chão.
essa voz é uma ilusão, é o segredo tentando desabrochar
num renascimento descontrolado,
o poder das mãos vazias
a realidade assombrada pelos sinais nos raios de sol,
a luz o ar os papeis os objetos as sombras
não é possível fazer perguntas
o espelho carrega seu truque do avesso
tudo já é um reflexo sensível de tudo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

este sentido doado à matéria afetiva esticando-se por estar vivio
já foi devorado pelos rodopios do tempo, as tantas deformações inexatas
dessa entrega à mitose dos magnetismos.

não há como proteger o dia do dia, todas essas notas fictícias transgredindo
o interior dos abismos esquecidos. aos olhos de dentro não se pode velar
a fatalidade da experiência.

todos os escritores agora nas dimensões de outrora sussurram nas vozes dos
amigos corajosos e perdidos sobre as pedras do rio - nós escrevemos o nosso
medo da morte.

explorar o oceano é uma aventura infinita,
aqui se revela a realidade do invertebrado e a visão da terra encoberta pelos
bosques silenciosos.

as folhas estarão emendadas pelas teias das aranhas transparentes do esquecimento;
está profetizada a minha resposta, mesmo que eu não possa contar a verdade,
a fênix dos sonhos nos reinos dágua.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Neblina nas borras da xícara

O café já estava esfriando há 50 anos desde a juventude da ninfa de cabelos vermelhos. Um buraco no tempo sabotou os conectores e nada mais pode-se transformar. Ela quis abdicar de sua vidência e rogava à natureza para que emudecesse diante da orquestra de pássaros que surgia com a noite; mas todas as manhãs se levantava ciente de sua voz, comunicando os sinais da Lua ao Sol que lhe banhava de calor. Sua testa pulsava diante do Nada mesmo dos dias roubados. Fios brancos que pendiam da cabeça denunciavam a insistente vontade, uma fome voraz que restava no âmago da Terra. Diante da morte e do renascimento, a ninfa debulhava sua inevitável voz nas horas consumidas enquanto bordeava, entorpecida, os troncos das árvores. Cantava palavras que ainda não existiam para preencher o eco da floresta. O som enigmático da madeira estalando junto às folhas assopradas pelo solo respondia à voz da ninfa como um órgão vivo. Suas mãos transparentes iam segurando os cipós que pendiam do céu e desenhando símbolos do ar. Por toda a extensão da floresta abriam-se as portas celestes do tempo corrompido. Por cada entrada ressoava o ruído magnético de um organismo infinito, e a floresta se reproduzia num dominó de retratos espelhados. A voz da ninfa era maior que seu corpo; o abandonava para participar de seu Destino. Seu corpo diluía-se na respiração da floresta, que ligava as sombras e a luz entre os dias emendados.

Relatos de um momento de experimentação

Quero encontrar maneiras de escrever narrativas EM ESPIRAL.
Existe um conto a respeito desta jornada que não pode ser escrito
Nem de trás pra frente
Nem e frente em diante, porque meu jardim de bétulas é um labirinto que começa já no centro de um interior flutuante, trata-se de uma coisa que está sempre localizada entre as medidas e que não pode ter nome,
Porque cada curva já compreende uma nova decisão perante o confuso e a refeitura necessária de um caminho renovado pela resiliência do tempo.

O presente é um mito de memórias projetadas pelos grãos de terra revoltos
que se mastigam e superpõem uma lenta espera.

Talvez se soubesse o peso de cada espaço entre a incisiva letra e a hesitação no falho não dito
surgiria uma vida invisível, escondida de suas próprias dúvidas.
Talvez o dia durasse qualquer continuidade possível entre nossosolhos.

Nesse dia transformarei dezesseis horas em páginas em branco
Salteadas das cores por baixo da pele desde a transparência da simultaneidade.

Trata-se do dilúvio-tinta dos pés em contraste com o chão
restituído do deslocamento inicial na tentativa de pisar os desníveis circulares
ou sl algo assim

Meu amor, vamos cruzar o oceano? O oceano é infinito
como o passado recuperado pelas estrelas e pelos nossos tecidos.

Se dentro dessas estrutura coubesse uma imensidão que retorna
eu contaria a história de uma mulher que não tem idade.

Agora sou como uma criança num jardim onde habita uma sociedade de
serrrrrres fantásticos
e afirmo que a poesia também pode ser o lar de uma história

que queira contar vozes fantasmas e inventar o que já existe.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Jornada

Logo percorremos uma parte da terra e não nos damos conta. Cada passo para nós é uma cachoeira de constantes estelares correndo no reverso do caminho. Nossos pés ainda escapam às calçadas férteis, envolvidas pelo úmido dos olhos de estranhos. Nossas cabeças revolvendo o relento inesperado das linhas de trem, os gestos tímidos e poderosos ensinando-nos a usar nossas vozes. Paramos para observar nossas decisões. Cada esquina é um universo aberto à imensidão, que nos toma os sentidos desde que estamos de pé. Estamos fazendo dos sorrisos navios para entregar-nos à selvageria do mar aberto. Nas luzes das noites tardias conspira um destino invisível. Com as mãos armadas uma na outra, respiramos a configuração dos subúrbios e os nomes das ruas que lutam para não desaparecer. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

interrupted page

aqui é reivindicada a página pausa, que acredita-se ser para configurar a continuidade, na ausência de uma outra palavra:

agarro-me ao corpo das transformações: vou escrever para explicar todas as partes que aconteceram e trazer ao presente meu inteiro eu, perdido, camuflando-se ao fluido percurso.
a experiência será o objeto do livro. o livro será o projeto das residências. procuro as moradas donde habite o coração. a origem do trabalho é esta decisão.
[os meus pés são a minha casa e esta linha só pode ser lida quando for permitido o choro].
o que quero de meus olhos é que expliquem a luz que absorvem. quando tudo acabar, outro tudo já estará enganchado.

you can survive experiences

é o acontecimento. você estará sempre dentro
entre o mar, imenso contrário
primeira ruptura, reino das expedições.

be brave to space travel time travel through every gone second going in reverse

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O ar confrontou-me à pisada
Quando notei que nada separava
O vento de meu corpo amplo
Que sabe dos redemunhos
Espiralados reconfigurando as
Presenças, tantas estilhaçadas
Pelo alambique mesmo
De meus olhos, a morada
Humilde do regurgito
Embalo, meus dias frios
Desalocados de mim já que
Meu corpo é calor e o pulso
Segue contraindo meus lugares
Por dentro, o que resta deste
Buraco que escancara também
Estes dedos, com o rugido distante
Da quietude mesma -

Meus cabelos de árvore seca,
As vozes interiores enlouquecidas,
A lua que se põe
Dormitando o horizonte
Dormente de mim -
E eu feita de matéria crua
Do meu instantâneo,
De nome já eu cindida
Pelo Sol que me enrola
Na clareira fantasmal do
Outro dia;

Sorrateiro um desespero vacuoso
Virado relógico e máscara.
Mas o estômago draga as
Mesmas fumaças, o ininterrupto
Carregar das coisas mareadas
Nos desentornos.

Eu recebo uma jornada
Para que evidencie-se a
Potência do corpo desregulado
Pelos pés enterrados.

Movi agora um limiar,
O vale, o esmagado,
No apagar-se de uma
Luz horizontal.
Morta, vivi para estar aqui.

Sou saturado vazamento,
A própria Terra genealógica
Feia, inteira, extensa,
Aberta ao giro corporal
Do que nos encontra.

Open

 Da seca e distensões do espaço

I’ve been seated here watching time lapses pass with intensities I can’t measure. The slow days are currupted by sun lashes coliding inside my eyeballs and across this learning skins. Open skys have been engaging my commitement with the clouds, that carry the wet understanding through the limits that divide us. Once again the wakening paths of the morning, wich takes care in our cells to generate reactions under the muscles, show our insisting distinctions because the wakening means to recreate the beats and speculations beneath flesh of soulfull teardrops. Joy is not an objective cherrished when carring blood pumping yells at faces discoulored: I need the big ocean as an origin of life and veins and pores and secrets. And the opening imense rests inside. 

[O ímpeto que impele amedronta, uma mão vem do contido que não pode romper a camada e seu corpo começa a espasmar, escorrer irregularmente pelos redemunhos espiralados nos órgãos, você brada os descaminhos, apenas nada tomaria parte da inacessível questão: a que se faz distante, nessa mudez que aqui tomam as formas dos borrões acidentais que afundam estruturas inteiras. O cataclismo de eclodirem a inquietude e o ser gigantesco cada movimentar-se apresenta-se imediato.]

Here I am at the bakery drinking morning coffee, I dont know what time it is actually and it doesnt matter even though it has occupied my head for a moment. An olderly woman I have never met before is telling neighbourhood stories that I also didnt know existed around here how long afterall have I been here inhabiting these streets wich I believe to have conquered already, but the fact is such as the cold wind blows through my coffee cup and I am drinking slowly the earth and drops of coffee roll over themselves because the past is being left around everywhere beneath our feet somewhere baried getting closer to inside almost at the point to come across and begin on the other side as story telling launched into blue skies so opened it is the own sea oceanic disclosure where everything goes, the ultimate end, my deares interlocutor.

Sobre os magos do tempo

To realize that you have power in your hands is to feel that you can change anything.
 
 
Os magos do tempo são aqueles que choram quando percebem o movimento das nuvens feito a realidade que pode ser compreendida como o surdo mover-se do solo em torno de si mesmo. Visto do alto, o chão se transforma no abismo preenchido das fluidas formas esbranquiçadas em texturas e reflexos de tarde, como em verdade já o é, e o céu colapsa com a ausência de horizontes em uma amplitude devastadora e inignorável. Daqui, movo-me tão depressa que tudo o mais encontra-se estático. Não há ponto de partida ou de chegada quando se está em suspensão, distante da Terra, em nenhum lugar. A distância que se está instaurando cada vez mais longa, também é, segundo por segundo, ou a cada traço desta poética, menos tempo até que estejamos perto como se aproxima o mar dos pés afundados em suas partículas de chão. Atravessei o portal de fumaça que me causou a certeza de estar entre todas as direções. Ao erguer-me, apertei um fio de seus cabelos que encontrei em mim, com as mãos e olhos cerrados, e vi a presença de seu rosto, que me abraçou, ali, naquele instante. São magos aqueles que confiam em suas mãos como armas que podem construir. Com elas, podemos alcançar ao rosto do outro desde o contínuo bombear, este fio condutor de profundezas, como o mar, senhor do infinito, mãe de nossas fragilidades, casa de todos nós.

(En realidad es dificil explicar porque te siento aqui y como sé que voy a construyer dias hasta su direccion. Yo queria hablar sobre los magicos, estes, como nosotros, que son capaces de reubicar el espacio solo con sus pasos. Mi razon es que ahora necesito mantenerme creendo en esta fuerza adentro, la misma que me hace conjurarte para que no me desespere con algo que sueña ya hecho, a punto de hacerme extrañar el futuro, pero que sabemos depender de nuestras volundades. La realidad cambia y yo escribo para observar el cambiante en estas palavras mismas mientras tornanse vivas. Escribo a vos porque me desnudo de la verguenza y puedo admitir mi miedo. Con mis manos hablando directo al respirar, a nuestro tiempo personal. Me estoy volvendo a la casa como se fuera antes; pero el devenir ya esta en el sol llendose hasta el otro lado, o descansando para que la luna sea maestra del tiempo por la noche).

Notas del mar y otros viajes

La explosion sigue estes compasos generados por el agua infinito; los siento en los reflejos de venas y contornos del sol adentro mi piel que el inmenso abraza.
We are made of this ancient impulse, and harder we shall shout our silences in their majestic power. They carry across through our bodies and range our beats.
Esto me cuentó el mar y el abierto.


Também existe um universo submergido, de seres que compreendem outra respiração, que acompanha as correntes. Estar longe da terra e perto do mar aproxima o coração do imenso pelo batimento ritmado com os balanços desta força inapreensível. Essa mudança se dá pela reconfiguração sutil dos fluidos corporais e energias redirecionadas pelo vento. O resultado, ao vislumbre da plena possibilidade, o berço e o túmulo, que gera a consequência de, é a coragem para te dizer que o resto da minha vida me assombra, em todas as direções que se deve direito, e que tenho desconhecimento, mas que isso é abertura quando vejo a luz que sai dos seus olhos. Encarei o infinito da solidão desconhecida, e ainda assim pude encontrar a coragem para virar a água assombrosa, deixar que me batizasse, recorrer a seus braços e sentir-me contemplada para dizer de minhas vontades, num tempo arquetípico, no sorriso que dividimos, mesmo solitários e temerosos das confissões, tomando cuidado para não transformar nossas palavras em promessas. Quis ser dragada quando o mar me mostrou o ínfimo e a força que desemboca deste mistério. Mas estivemos lá juntos, estamos aqui, e estamos dizendo nossas palavras com a mesma justiça que desenvolve o sol para que o céu seja também a casa da lua. Ambos se manifestam no azul, e assim é comigo e com você quando dizemos que confiamos em quem estamos vendo, acariciando o seu rosto confio em você, desde a manifestação crua e gentil em seus batimentos.

Eu sinto o desenrolar da sua pele como desmonta agora meu peito em total entrega; enconsto-me sobre seus batimentos mesmo quando estou longe de seus dedos convidando-me a permanecer. A certeza que tenho de uma existência compartilhada perpassa estes olhos refletidos do calor, entorpecidos pela certeza da lua em sua distância exata e sua presença dentro de nós, simultaneamente, nas correntes que ditam as ondas e conduzem nossos passos desde os furiosos corações. Às majestosas imagens apreendidas e reveladas pelo olhar às sombras e contornos, como as gaivotas cortando tamanho imenso desde a sua naturalidade, eu sei desta mesma força pelo ritmo. Você é a confiança do calor e de sua vida aprendo a respeitar o mistério da gravidade como força.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O rio


marte, coração, pulso

Os milímetros percorridos em desenrolar-se de revoltas e retornos estendem-se até o eco de um canto, as depenagens solares, as peles que respiramos, e os gestos que percebemos à medida que existem, já os transformando. A distância daquele rio necessário faz-se junto à atenção focal do rosto e do centro cardíaco. A movida pelo incessante giro planetário exige que se esteja no rio à medida em que se é o rio - aquele que contém o fluxo como princípio. O descarrego de palavras desfaz-se ao contrário, já ato, já feito-fluxo, devir realizado. O momento em que se para de escrever é aquele em que torna-se única solução nunca parar, seguir infinitamente para que se possa dizê-lo. Simultânea é a estadia; você se hospeda no rio por toda a extensão quando está nele como parte, que compreende o mistério no desaparecimento das paredes, do espaço entre as pernas. Nossas moléculas já estão juntas, pois são o espelho e a imagem refletida, responsabilizando-se por aceitar as dimensões do gesto, a doação do nome transtornado pela infinitude contida no contínuo: a morada do coração, a recuperação dos detalhes. A dança circular dos grandes corpos fragmenta-se em partes singulares tocando-se: quando nos damos as mãos para que nossos dedos possam abraçar a proximidade. Percebo as atividades das águas também porque o rio me permite vivê-las. Eu sou o rio. 

Outono III

a renovação da árvore

Da perspectiva que assumi ao encontrar-me vivendo as escolhas tateadas aquém dos calos nas mãos, agora vejo este espaço com a transmutação dos temporais em água bravia do horizonte. A expansão nos olhos para as extremidades não acompanha a infinitude por caminhar. Agora estou demonstrando o legítimo desmaio ao vislumbre do que é real. As reconfigurações requerem novos preparos. Sigo coletando o material de preparo, entre experiências cristalinas ao desterritório vivo onde sou lançada, há dias e meses para trás, além dos outros fugidios do escapismo, junto ao vazamento descontrolado dos limites hominídeos frente à impossibilidade de colecionar, aqui, pertencendo a este corredio tempo, da escrita, à face da palpabilidade. O desmantelamento da pele ardendo em descamação espalhara-se comigo, e eu revolvendo junto ao mar, por sobre um cavalo submergido, empunhando a espada dos olhos vigilantes. Seguia o peito aberto e os propósitos para cada instante fantasmal - a palavra que acontece e o novo não experienciado antes, o imprevisto, que traz as notícias do bordeado.

[deve ser por este motivo que levo chuva e duendes comigo; pelo coração sempre próximo às fertilidades, ao amor pelo crescimento dos cabelos e da intimidade. você comprova, a cada embalo novo do respirar, a existência do universo].

Dreambook

Era amplo e claro. Havia, ao redor, em estado de guarda do espaço, uma natureza firme, alta, caminhando em direção aos céus e cerceando o berço subterrâneo, pelos arredores contínuo. Nas proximidades da percepção, fundo fora, um pouco para as bordas do coração, erguia-se uma estrutura limpa, elementar, com madeiras simples e rígidas - uma casa aberta. Um terraço preenchido e vazado subsubia às nuvens. O azuléu amoroso convidava à luz para a sacada. Andando em direção a ela, eu seguida de mim que me observo, dou-me a sentir que estava em família, porque a convoquei e ela comigo, onde, na beira, abaixo havia água. As bases da estrutura repousavam sobre um verde camuflado por detrás da lente. Mas, aos olhos enraiarados, no vislumbre do recostar-se à frente, estávamos dentro de casa, acercando-nos, por meus dedos plenos, do mar, do rio embaixo do rio, os nossos vínculos profundos.


Ergueu-se, por sobre ramagens desconhecidas, o interior de um edifício vertical, vertido para cima. Dentro era estreito, uma composição de cômodos pontuais, cada qual à sua maneira acolhedor, e de escadas construídas à maneira de possibilitar passagens interseccionadas. Nós nos reuníamos quando retornávamos à casa para compartilhar o descanso. Não havia como dizer de onde morávamos, porque isso não importava. À noite vínhamos curar-nos, estar presentes como entrega a estes conhecimentos nossos. Tetos e intervenções suportavam os múltiplos espasmos, a inquietação do expansivo em nós. Dizíamos livres, porque queríamos responder ao outro inteiro. Nosso espaço nos devenia. Era dentro de nós, um e os outros comigo, vozes vivenciadas como as vivencia o universo, e ali era todo o mundo, até que acabasse. 


Outono II

a renovação da árvore

Venho sentindo moverem-se as águas desde o virar das luas, o torpe giro do sol; estou submersa ao toque do raiar entre sóis e luas concomitantes. Ao deserdar o caminho de casa, onde se pode desaguar, o mecanismo elementar do ato em escolha por entregar-se ao caminhar, o descontrole desapropria-se, a todos os nomes se esquece e o caminho translúcido reaprende o respirar. Há que recordar-se do ato, e seguir por qual pisada? Aparecem aqui no papel delineadas as perguntas, o reencontro fracassado, a aparição do descaminho. A perspectiva lançada à necessária conclusão, o momento da chegada, extrapola o espelho. Não sei do que se tratam essas colocações frente ao exposto, à tempestade. Quando se espera pelo fim do precipitado, o infinito desague, sobem os raios, desviando a sensação de frescor. Por essa perspectiva, é preciso dizer, para além das sabedorias concebidas pelos sentidos. A possibilidade de dizer sempre outras coisas é o que opera em desanuviar o espaço e reconhecer o caminhar. A floresta é densa e o percurso se desconhece. Venho entrando em moradas, ao custo de um pé, movida pelas luas que viram o rio por baixo. 

segunda-feira, 16 de março de 2015

Quedate Luna

relatos do mar

Apesar dos ruídos vindos das bocas e olhos que dão à areia seus caminhos, a infinitude quebra na orla e dá mover-se aos pássaros planando no espelho. Pode-se ouvir o quebrar, as águas furiosas redobrando-se em nuvens. Era um momento só com o mar o contemplar o infinito e a força do submundo, mas me sentia sozinha como consequência das presenças desconhecidas e da observação entre o bambu e o carvalho.
Existe outro lado. Isso sei. Existe presença ausente? Existe mais gente, ou menos gente?
A cada novo tijolo sinto-me só, mas não contra o mar e o céu, que contornam a distância. É o tecer por entre ambos, onde tudo precisa ser real, estar relacionado ao bombear. O carvalho, ou o bambu? 
Quem mora no mar conversa com todas as árvores quando fica em silêncio. Quem encontra-se com o som debaixo da terra, vê o murmúrio que traz o marejar de todos os lugares. Das pessoas aqui, a linguagem só responde às águas, para dizer-lhes que aguarda todas as luas (uma para cada coisa). Na chegada das luas, o mistério se desfaz e o amor pode enfim ser doado. Acontece, porém, o dia, quente e iluminado, quando surge o entendimento da aparição inevitável, que mora no espaço e reluz. Neste momento é que a lua se faz desejada e o chamado é lançado. A clarividência transforma-se em ponto magnético, o outro lado, que está lá na afirmação do mar, profundo, secreto, impetuoso.
Encontrei as criaturas da água durante a noite; apaixonei-me pelo outro lado. Deste lugar vem tudo, e com tudo é que localizo a extensão alcançada por minhas veias, fazendo correr o fim do sol, o início da espera, a capacidade de te espreitar no reflexo do além, e a vontade de nadar até lá para aprender com a imensidão.

A fluidez do retorno acontece quando a noite cede, e as estrelas dão lugar aos contornos abstratos dos montes no horizonte. Ocupam diferentes estares os níveis sutis das montanhas, que se dissolvem quando adentram às nuvens. Aqui existe um tempo que ainda não é dia, mas já abandonou a clarividência da noite: é uma pausa que não tem nome, para que dialoguem os sábios dos céus em sua linguagem sublime. Para dentro e para cima (desde debaixo para fora), o imenso, a explosão gloriosa do espaço - onde, ali, você também existe. Aí reside uma verdade, as cores estão aí também; as palavras têm poder para curar. 
O limite é o mar. Existe o outro lado, o sol virou, a lua já é outra novamente. O círculo flamejante que desvia a retidão do olhar enfim surge, como única palavra que é repetida e anuncia, por detrás da pedra, no fim do mar. Existe vida do outro lado.

Era como se o vento entrasse na casa com a força do mar bravio que me despertou essa manhã. A troca inevitável de instantes surpreende ainda quando olho a inundação translúcida. 

(Esta série de reflexos do mar contrasta rapidamente com o calor nas peles coloridas transitando pelos cantos. Passam os olhos pelos sons transformados ao longo da noite. Passa a gente e para no dia para olhar. Começa a vivificar a onda desde o centro do movimento. O estômago do mundo; daí vem a força).

Em alguma parte enterrada faz morada o medo de aceitar este momento, sua beleza insondável e a passagem da realidade. A gente que para pra ver, encontra. E leva pra casa, deixa a onda vir, inunda tudo, nota as expressões lançadas à sincera manifestação das mãos que criam por fora o caminho mesclado de dentro. Surpreender com o pungente som parece claro, direto. Estou surpreendendo junto às sutilezas, sabendo que tudo participa do mesmo lugar, e estes caminhos se completam. 

Fazer do mar casa é um movimento perigoso. Não há mais do que descaminhos nessa força que desemboca. O mar é casa em suas profundezas, quando não mais pesa a presença do abandono, só existe amplitude no âmago do mundo.

O bendizer do
Horizonte, encontro
das forças calmas,

Desagua perto
sobre os pés
Para anunciar

Que arrastará os corpos
para o fundo, onde
reside o rio

Sob a terra, a alma
do mundo, o buraco,
indundado;

Este lugar esconde
o amor, a desolação
e a entrega absoluta
ao movimento do tempo.

A maior extensão medida pelos sentidos, a fúria dos últimos três dias, filtrada pelo coração, traz ao dizer impossível, o inconcebível futuro. Passam todos os planos e meus esforços estão prontos para escapar aos pulmões em forma de grito mudo na direção de todo o vazio.
Eis a mensagem para a garrafinha lançada.

O coração e o mar fazem movimentos correlatos:
para dentro, uma profundeza inestimável.
para fora, uma força que ninguém alcança enquanto sabedoria.
Só vem o suspiro abstrato.
Trata-se de uma unidade imperiosa que acolhe e atrai tudo que ainda não participa nesta fúria.
Só os contém quem ama abertamente.
Só os que enfrentam as questões da alma.

O despertar tranquilo respirando todas as células acontece desde a água e aí desemboca quando o coração fica suspirando. As memórias ficam então abertas à construção para afirmar que existimos todos juntos. Cada onda que volta, já vem de outro lugar, transformada pela inteireza do porvir.
Ficam pegadas no úmido do chão. E outra vez existe o perigo no desejoso espírito.

O antigo com o novo num retrato que ainda não se pode ver. Está no filme enrolado dentro dos olhos, compreendendo os relatos do mar à toda profundidade. Agora só se pode dizer do movimento das estrelas e que, na falta de morada, há o mar para hospedar os movimentos que rebentam sem que os esperemos. Há a mãe da alma para cuidar da paciência necessária ao encarar a impressionante existência. Este aprendizado, de compreender a casa em movimento, abre um espaço no centro do corpo para que circule o ar. Demanda troca incessante, respirar com o meio desimpedido, aceitar a despedida. Compreender o retorno serve para cumprir um destino do coração. Não há como impedir o contínuo bater e o desaguar. É necessário receber o que vem do profundo mar. I dont have a choice, bu I still choose you.

Eu escolho recebê-lo feliz e grata, ciente da força arrebatadora, ciente da transformação irrevogável. Não existe reviver, só traço, seus desenhos do rosto que não formam imagem são feito sonhos, dando sinais ilegíveis, tornando realidade um caminho ao revés.

Alto, alto, alto estou só, sentindo esta linha invisível de extensão infinita. Não importa aonde estivermos pisando. Estou  no ar e te sinto presença  real, porque a lua fica, e o mar é a única realidade inquestionável.

A lua revoga a claridade para abrir o despenhadeiro da terra e o encontro com a sombra vislumbrada. A penumbra nebulosa convida para dentro o desenrolar deste destino.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Landscapes

Possibly, maybe
Love is all around
Bjork


Ao foco sentenciado
Pelas retinas em chamas
Escapa o espaço ao chão que ocupa.

(Suas imensas pernas esticadas
em direção à travessia
trafegando entre o rolar dos minérios
e o contrário das árvores).

À espera do mistério concebido
No útero daquele letreiro luminoso
Que dizia todo o resto,

Anunciou-se o encontro do
Tempo com o desembocar
No porto dos sinais:

Ali estavam todas as mensagens
Enviadas ao horizonte
Enquanto encarávamos nossa existência simultânea.

Ela era coroada, pois se
Sabia de seu destino a ser arruinado
Quando fosse impossível respirar.

A minha lucidez era tangível
Dentro da espiral em seu sopro,
Que nada parecia à imitação das outras coisas.

Todas as respostas estavam
No mar, onde moravam
Minhas penugens soltas.

Cavei uma terra fértil
Para enche-la com suas
Continuidades fora dela.

A seguir, as mãos suficientes
Para erguer um reino,
Abaixei os olhos para agradecer,

E tudo permanecia agressivo,
Vindo desde os outros
Lugares do sutil escapismo.

Eis que aparece aberto
O canal no centro do
Além -

E entrego o amor, inclusive,
Que existe deste âmago
Tanto quando o sangue existe para corar.



sábado, 20 de dezembro de 2014

dilúvio

(Durante os longos tempos que tomou a reverência à lua em minha curta vida, senti desde o sangue magmático que latejava em meus órgãos a expulsão do que necessita ser presentificado. Estávamos reunidas em círculo para bendizer o dom da vida, homenageando-o com nossas vozes e mãos. Atrás da casa havia o desembocar de águas caindo à meia noite de sagitário. Apontamos nossas flechas enfeitadas com fitas brancas para a correnteza, que desmantelava nossos segredos persistindo no fluir. Todos os sonhos com a chuva desceram à terra úmida que puxava os pés para o fundo da derrocada, ao encontro dos musgos mergulhados na quietude do submundo. Cantamos de olhos voltados para dentro, amanhecendo as novas células do próximo instante, conjurando suas partes com a sabedoria do bombear, as veias abertas a todos os segundos explosivos que arrebentam-se no bater, e a certeza então vindoura, e sempre, de respirações conjuntas.)

A fumaça, não sei sabia se emanava da caneta que eu segurava, da respiração dos gatos, do sonar preenchido que ocupava o ambiente. Dentro de casa habitam os bichos, isso se sabe. É assombrosa a vontade que move os pés até acontecer o desenrolar da relva sobre a terra, e tudo ser novo. Aguardávamos com atenção ao dilúvio, reunidos, esperando que viesse nos encobrir para que subíssemos, nadando com os nossos membros e buracos do corpo. 


Agora aqui põem-se satisfeitas
As anciãs que ataram os cadeados
Do silêncio entranhado em registros
Invisíveis do dizer.

A inteira camada segue costurando-se
Nesta entrega ao Destino de
Minhas mãos movidas a 
Sussurros antigos.

De dentro da caverna reverbera
O rugido afora ricocheteia
A participação avulsa e real
Percorrendo estas cantigas.

E só assim, nesta prontidão
Fantasmática do instante
Que ocorre o impossível
Reproduzir dos sinais.

Nesta conjectura espiralada
Ao meu desejar ao bem-vir
Do dilúvio, reencubro-me
Viva, viva.