o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
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sábado, 17 de dezembro de 2016

tudo que sai daqui vem do cosmos,
diretamente do pó estelar que atravessa tudo.
a voz que diz diz quando quer,
o segredo se manifesta na ponta dos dedos,
na palma da mão o mistério da regeneração.
não existem essas portas que enxergamos,
tudo está esburacado,
a matéria transita entre os espaços livres do tempo.
nada menos do que inteiras galáxias nos pés,
na relação de dentro com a face mais interior.
os ciclos entre as faíscas estão espiralados,
alquimia magnética,
essa é a epifania que corta a ilusão.
os olhos querem ver a folha que cai majestuosa
e o vento entre ela e o centro da terra.
ALONE IN A RAINING ISLAND

Ouve-se a voz do silêncio.
As palavras estão engasgadas numa espiral
No reverso da ética do perdão.
Eles dizem que a realidade é relativa
Mas está chovendo na estranha ilha
Devastada pelos caules das plantas.
Os corpos estão desaparecendo
Pelas estruturas nos buracos dos vermes.

WHAT DO YOU DO WITH HATE

Uma respiração no estado dissociativo.
Essa raiva não é genuína,
Mas é legítima a visão da rosa,
Redemunhos das lágrimas pendendo pelas cabeças.
Um corpo anulado. O choque de um disparo.
Porque só o rio conhece a inundação.
O grito misógino da autoridade,
Com as mãos para segurar a vida
Do outro corpo livre.
Escape da prisão!
Antivida antifluir
Qual é o plano? Qual?
As fendas da Terra estão abertas
Sangrando as palavras desmerecidas.
as cavidades da lua
- sombras etéreas da memória -
esvaziadas do tempo.
o corpo sem presença habita
esse espaço inerte, que se desenrola entre as moléculas caóticas
um giro planetário
um ser humano que é planta (eu quero água, sol e que conversem comigo pela manhã).
toda manhã o sol aparece
e os olhos podem ver os contornos
das mentiras perpetuadas
as ilusões do paraíso
(ah! um lamento pelas edificações sempre sempre arruinadas);
essa impermanência inevitável do rio
e a origem de todo o movimento
vem da solidão duma pedra que pesa entre o estômago e o coração.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

o eu instantâneo - esse único que existe - não teria como saber por onde começar
ele vive o rio e a tontura do movimento
e também sente a aparente estaticidade dos corpos silenciosos derramados
dentro das noites solitárias, dos sentidos atravessados.
o começo pode ser uma constante impermanência,
essa vasta neblina sobre o jardim insone,
os cheiros e ruídos que não são identificados
e os passos por sobre a solidez assoladora da terra.
é o desespero espiral de contatos ininterruptos,
sempre um desconhecido, um eterno desconhecimento que pulsa pelos buracos no chão.
essa voz é uma ilusão, é o segredo tentando desabrochar
num renascimento descontrolado,
o poder das mãos vazias
a realidade assombrada pelos sinais nos raios de sol,
a luz o ar os papeis os objetos as sombras
não é possível fazer perguntas
o espelho carrega seu truque do avesso
tudo já é um reflexo sensível de tudo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

nota

los ojos cerrados con el dia claro adentrando las membranas en esta noche de verano. la niña probaba la experiencia de la propia compañia mientras el viento le abria las manos. en la calle, las lineas circulares hacianse rotas siempre que recorridas.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sobre os magos do tempo

To realize that you have power in your hands is to feel that you can change anything.
 
 
Os magos do tempo são aqueles que choram quando percebem o movimento das nuvens feito a realidade que pode ser compreendida como o surdo mover-se do solo em torno de si mesmo. Visto do alto, o chão se transforma no abismo preenchido das fluidas formas esbranquiçadas em texturas e reflexos de tarde, como em verdade já o é, e o céu colapsa com a ausência de horizontes em uma amplitude devastadora e inignorável. Daqui, movo-me tão depressa que tudo o mais encontra-se estático. Não há ponto de partida ou de chegada quando se está em suspensão, distante da Terra, em nenhum lugar. A distância que se está instaurando cada vez mais longa, também é, segundo por segundo, ou a cada traço desta poética, menos tempo até que estejamos perto como se aproxima o mar dos pés afundados em suas partículas de chão. Atravessei o portal de fumaça que me causou a certeza de estar entre todas as direções. Ao erguer-me, apertei um fio de seus cabelos que encontrei em mim, com as mãos e olhos cerrados, e vi a presença de seu rosto, que me abraçou, ali, naquele instante. São magos aqueles que confiam em suas mãos como armas que podem construir. Com elas, podemos alcançar ao rosto do outro desde o contínuo bombear, este fio condutor de profundezas, como o mar, senhor do infinito, mãe de nossas fragilidades, casa de todos nós.

(En realidad es dificil explicar porque te siento aqui y como sé que voy a construyer dias hasta su direccion. Yo queria hablar sobre los magicos, estes, como nosotros, que son capaces de reubicar el espacio solo con sus pasos. Mi razon es que ahora necesito mantenerme creendo en esta fuerza adentro, la misma que me hace conjurarte para que no me desespere con algo que sueña ya hecho, a punto de hacerme extrañar el futuro, pero que sabemos depender de nuestras volundades. La realidad cambia y yo escribo para observar el cambiante en estas palavras mismas mientras tornanse vivas. Escribo a vos porque me desnudo de la verguenza y puedo admitir mi miedo. Con mis manos hablando directo al respirar, a nuestro tiempo personal. Me estoy volvendo a la casa como se fuera antes; pero el devenir ya esta en el sol llendose hasta el otro lado, o descansando para que la luna sea maestra del tiempo por la noche).

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O rio


marte, coração, pulso

Os milímetros percorridos em desenrolar-se de revoltas e retornos estendem-se até o eco de um canto, as depenagens solares, as peles que respiramos, e os gestos que percebemos à medida que existem, já os transformando. A distância daquele rio necessário faz-se junto à atenção focal do rosto e do centro cardíaco. A movida pelo incessante giro planetário exige que se esteja no rio à medida em que se é o rio - aquele que contém o fluxo como princípio. O descarrego de palavras desfaz-se ao contrário, já ato, já feito-fluxo, devir realizado. O momento em que se para de escrever é aquele em que torna-se única solução nunca parar, seguir infinitamente para que se possa dizê-lo. Simultânea é a estadia; você se hospeda no rio por toda a extensão quando está nele como parte, que compreende o mistério no desaparecimento das paredes, do espaço entre as pernas. Nossas moléculas já estão juntas, pois são o espelho e a imagem refletida, responsabilizando-se por aceitar as dimensões do gesto, a doação do nome transtornado pela infinitude contida no contínuo: a morada do coração, a recuperação dos detalhes. A dança circular dos grandes corpos fragmenta-se em partes singulares tocando-se: quando nos damos as mãos para que nossos dedos possam abraçar a proximidade. Percebo as atividades das águas também porque o rio me permite vivê-las. Eu sou o rio. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Landscapes

Possibly, maybe
Love is all around
Bjork


Ao foco sentenciado
Pelas retinas em chamas
Escapa o espaço ao chão que ocupa.

(Suas imensas pernas esticadas
em direção à travessia
trafegando entre o rolar dos minérios
e o contrário das árvores).

À espera do mistério concebido
No útero daquele letreiro luminoso
Que dizia todo o resto,

Anunciou-se o encontro do
Tempo com o desembocar
No porto dos sinais:

Ali estavam todas as mensagens
Enviadas ao horizonte
Enquanto encarávamos nossa existência simultânea.

Ela era coroada, pois se
Sabia de seu destino a ser arruinado
Quando fosse impossível respirar.

A minha lucidez era tangível
Dentro da espiral em seu sopro,
Que nada parecia à imitação das outras coisas.

Todas as respostas estavam
No mar, onde moravam
Minhas penugens soltas.

Cavei uma terra fértil
Para enche-la com suas
Continuidades fora dela.

A seguir, as mãos suficientes
Para erguer um reino,
Abaixei os olhos para agradecer,

E tudo permanecia agressivo,
Vindo desde os outros
Lugares do sutil escapismo.

Eis que aparece aberto
O canal no centro do
Além -

E entrego o amor, inclusive,
Que existe deste âmago
Tanto quando o sangue existe para corar.



quinta-feira, 23 de outubro de 2014

flores

Hay desajustado espacio en mi corazón,
aumenta y diminuye con
el espacio del tiempo
si me quedo lejos de mi casa,
ese cuerpo solemne que a todas las cosas quiere contestar,
como al sol que se muestra para hacer claro
todo el camino desde que llegue a este suelo rico y capaz.

Estoy escapando de las palabras desconocidas
asi que me siguen todos los dias
y los trazos de rostros
en mis sueños más reales que todas las memorias combinadas a las ganas en las vísceras
de ver esta gente esta ciudad llena de amor
y estranhamento, porque no conozco las
palabras que ahora diseño
y aventurome por un territorio con aspecto de abrazos y palabras deformes.

La mixtura de colores por las arboles en la primavera son
el alimento de una descubierta
del vacio y del lleno
cuando me recuerdo que la realidad es mi vida
y que los encuentros se pasan para que no me olvides
donde estube
en los descaminos ensiñando
la fragilidad de mi casa aqui y ahora.

(quis proteger minhas memórias quando tranquilizei-me nas possibilidades das novas terras serem anêmicas e vazias. era improvável que às afecções não fechasse a garganta para uma ruga na testa e choro sem lágrimas. lugares por onde nunca se pisou são solos inesperados, embora de loucura antevista, com o presságio daquilo que vem desconhecido, e se supõe desmerecido, não iniciado. todo caminho que se pisa é solitário, só há certeza no solo revolto, que evolui a novos buracos, cada vez, atingindo uma instância de movimento, desde a vida, os fluxos por dentro, líquidos corporais e lençóis de terra, abundância de descontrole, parto amanhecido, desdobramento para outro tempo).

Me quede muy apasionada con mi partida. No puedo mirar mis ridiculas palabras en castellano, pero me importa mirar a las calles y ver como todo me recuerda el tiempo, mi casa sobre los pies, y que ya extraño a esa rara lengua, la riqueza de sus personas, los edificios y marcas en sus ruínas, como me siento tan vieja volviendo al caos de esa existencia unica, que por mil motivos nos muestra encuentros, muchas gracias, y, por supuesto, tanto tanto amor. Hay mucha felicidad donde esta su corazón. No te olvides las luces, las calles, las plazas, el viento, los nombres que tienen las cosas, como llaman los espacios, el color del sol, aquellos ojos, todo que probastes, las sequencias, el cariño, los nuevos amigos, los pajaros que cantan siempre, cada esquina, los confrontos, el extraño, su suerte, los libros, el suelo y el olor. No te olvides de tu soledad cuando recordar todo lo que tocastes, pero también no te olvides del movimiento inevitable, en su cuerpo, en todo afuera, porque ahora tienes más trazos, más historia y más coraje.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Ressaca

Descobri Beirut antes de Capitu. Desvendei aquela onda, pedaço deslocado do mar, em que guardava-se choro antigo, desde o nascimento. Antes, quando ainda era menina atraída pela espionagem. Os buracos nos corpos das pessoas, as rugas dos bichos e a improvável combinação entre os sons das músicas que eu ouvia em casa. Foi nesta constelação que tudo gerou-se. No espaço dedicado aos sentidos que percebiam, e rápidas respostas ao outro que prostrava-se. A esta marca de cicatriz, que aqui aponto ao meio do tronco, observo desde a distância, no inversos dos inícios concretos, pelo filtro das águas, em vislumbre ao incessante esvaziamento. A este abismo que aqui aponto. Sua entrada, trespassável ao outro lado, não coletava ou discriminava, e o que eu via eram conhecidas formas à luz infinita. Descaminhei desde o momento em que houve caminho. Eu acreditava mais em meus pés e nos raios solares quando conversava com o vento. Isso que não mencionei era-me inseguro desde o mistério que restou, das furiosas possibilidades, nos olhos onduleantes. Assim, escolhi instrumentos, confiei na extensão do espaço, e parti. A todas as delicadezas porvir, fui provando-as constituintes do efêmero, que nos aponta à iminente morte, na importância do instante sem-fundo. Descobri a respiração cutânea quando quis-me pôr à prova, abdicando de sentido encubado, daqueles que a gente faz crescer à força. Todos os dias passei a dizer-me, enquanto encarava o silêncio deste rosto único, fragmento possível de toda carne, que esta memória servia para alcançar o outro lado do espelho, ao observar-se, sonolenta, o sangue entre os limites. Alguns dias, no entanto, forcei-me à mudez, que me tomava por outros dias mais, encarcerada, culpada às palavras, injustamente. Transfigurava a verdade toda vez que sempre frente ao escrito. Assim, o impreterível enlutamento pelo mundo, morrente – foi o que me disseram, e era o que eu via no refletido – chegava, todas as manhãs, quando, ao envelhecimento, via-me condenada aos suspiros do tempo e às distâncias refletoras.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

1/1

É para auxiliar no retorno dos pássaros, mesmo pelo desmaio improvisado deste redigido - vem, em fidelidade ao ato, entregue ao fracasso, à pequenez, ao invisível. Nada consegue estender-se pelo caminho sem ter o que contar, a si próprio, em voz alta, como quem chora e grita por sua carne, de escapatória, legitimando-se, repetindo seu nome, que é para não esquecê-lo. Mesmo que brevemente, enquanto duram o assobio e o chamado. Esta mensagem deve ser enterrada por sob o solo onde pisarei até que eu vá embora, e abandone esta casa. O chão será meu segredo, e entre nós haverá um abismo magnético pelo toque da pele com a existência. Assim, digo todos os dias ao longo de sua passagem, e aumentam-me as memórias que carregar, no que sigo procurando esquecê-las sem, no entanto, deixar por lembrar do rosto e do muro que cortavam os olhos. A estrada não é só um pé, e o outro, mas as pedras que, em seu silêncio primordial, compartilham da solidez e da difícil diferença, de forma, surpresa, a honrar minha continuidade. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

arruinando

estávamos deitados ao cair da noite, embalados por sono mal aproveitado e entregues ao conforto desta cama velha, as histórias ao redor, em livros, pequenos objetos vivos, fotografias e alguns discos que eu não tenho o hábito de ouvir. você respirava fundo e eu não conseguia tranquilizar-me comigo para abrir o vão, criar coisa nova com cheiro de antiga, passar tempo na conhecida cidade espaçada em outro lugar, espalhado pelo corpo. quando afastei necessidades tolas e projetos fracassados, o instante vazio, pretendendo um sonho, foi preenchido pela vontade secreta das memórias. lembrei-me daquele sofá numa configuração outra, luz amarelada, a jovem madrugada convidativa, inúmeras xícaras de café, e pude sentir o cansaço enganando meu sangue que corria, como se antes não fosse tempo longínquo, rosto amado, distância inevitável dos instantes. mas eu havia escolhido, no desconsolo de jamais esperar por dizer o que me saltava aos olhos, meditar o momento agora, que estava acontecendo. todos os braços carinhosos fazem ausência quando só existe retornar a esta casa de mentiras. foi aí que, na tentativa de acompanhar sua respiração, bem de perto, a sensação familiar de toque-entre-vidas, a pequena deitada sutilmente sobre meus pés para abençoar o caminho com a sabedoria da lua, eis a erupção dos traços, matéria das palavras. eu não queria me mexer para aprender com a passagem. então, foi-me saindo pelas costas uma memória vermelha e fluida, com jeito de gente e um sorriso que eu sempre conhecia. ela deitou-se no espaço vazio da cama e, ao meu breve desespero por tocá-la, virou fantasma, atravessável, que me encarava, e foi sumindo... sem saber como suportar o resto da vida, abri os olhos para ver o vago próximo acontecimento, que nunca chegaria, que promete a continuidade para compreender qualquer importância desalegre, em presença, de dentro de mim. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Lua cheia em câncer

(Os olhos turvos é que rabiscam o ventre. A tristeza do bicho era derreter dedos, sufocar lábios, mãos para si mesmo, que o coração é seu. Por dias parece voz, mede silêncios em sorrir desculpas, arrependida das palavras. Confie em todos, mas desconfie de gente endireitada, sem querer ossos para a esquerda. Umbigo não existe pra ser um só, que ser é mais de alguém quando chove justamente para florir.)

terça-feira, 12 de junho de 2012

(E ter que lembrar das categorias de importância por guardar é feito cortes e furos nas mãos).

quarta-feira, 6 de junho de 2012

#

Sinceridade é espaço

Deixa devir, bruto mundo
Que pedra é só quando caos
E possibilidade
Esculpe
Onde tudo, nada.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A fuga do nome

(É verdade
Cor dissolve, soar de folha
Segundo acaba névoa, natural
Funciona terra

Nada é sem querer
Necessidade sincera

Sem medo de água
Bater em pedra
Sem esforço de dor, mas harmonia
De cuidado e risco

Sem fugir, esconder,
Mas soltar o cabelo pra mato
E voz.

Ar é bicho
De pegar pulso
Não com a cabeça no muro)


De perceber fim é que caminha o outro
Quando suspiro, no espaço da cor, a agonia de calma é perdição
Alhures em luz, meta-amorfose, em branconegro, som
O por-fora em escuro-sonho do espírito áspero ao mover
(O infinito é a surpresa do fim)
Que acontecer é todo vento sem querer devir-se.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Fosco

Concretos correndo por pernas em som de distância, dedos que piscam batida, olhos que sussurram ruído, escuro que clareia em reflexo das gentes errantes. Poupar é longe de vontades, peles por dentro, bandas em concerto. Que direto vento passa e vira gente pra grama. Quando fragilidade, lembrança perfura a mão e passarinho começa por nascer em limbo. Foi na noite em que Deus roubou todos os narizes do mundo.

Assoprar barulho pra fora não é longe de revirar olhos, disse o moço. Tem que endireitar o cocuruto.

sábado, 17 de setembro de 2011

100 dias de solidão

O Ponto de Partida - A melancólica jornada do sequestro da novidade

Passei os últimos três meses parada e só num ponto de chão. O horizonte deixava claro a falta de pessoas. Um algo surgiu, me derrubou  em tumulto, encheu-me de pancadas e se foi. O que aconteceu?

A percepção do acontecimento da falta de acontecimentos

Estávamos dançando pela bola concreta, todos objetivamente juntos, em pele e aspecto. A presença polida em gelo daquele que não pode ser nomeado esvoaçou meus cabelos perdidos em mágoas. A existência veio me trazer o mundo para tatear, segurar nos braços. Nossa junção física não rompia as bolhas de distância ao redor - ignorá-las só as fazia menos translúcidas.

Sim, minhas roupas são de gente velha. Carrego nos lábios um sorriso inverossímil e buracos por debaixo dos
olhos. Meus cabelos estão verdes de desbotados, não mais azuis sorvete e espacinhos entre as árvores do céu.
Quando cheguei à porta, procurei as chaves ao fundo da bolsa, onde costumeiramente se escondem para me manter fadigada do lado de fora. Mantenho-nas presas a muitos chaveiros para que não me possam escapar os dedos; hoje meus dedos encurtaram.

10-11

Remixes indesejados e desrespeitosos vêm de qualquer lugar cinza de fumaça e não me deixam dormir. Escuto a hostilidade dos que não vejo. Os pêlos do meu braço eriçam de tristeza no ar tóxico da atmosfera. O céu é de um azul tão limpo de nuvens que engole devagar. É o horizonte separando as pessoas em espaços. Afinal, mundo também é uma palavra vazia de gentes.
Esqueci como as nuvens chegam ao céu. Será que ninguém percebe sua ausência?
A hostilidade é a distância medida em bolhas invisíveis. Um bom observador pode senti-las em rostos que compõem a sensação de existir em sorrisos de simpatia, mas que têm um dos olhos mais para a esquerda.
Acho que os remixes vêm da bola gigante que preenche o concreto e reúne pessoas em distâncias.
(Espero que um dia a formiga tenha consciência dos dez mil elefantes ao seu redor e sinta o horror de um despenhadeiro. Seria sublime.)
Os segundos do meu relógio de parede passam conforme deveriam, mas o ponteiro nunca para de marcar sete horas. Estou vivendo uma fotografia. 
Toda esquina é repleta de memórias-fantasma. Quero ruas virgens. As pessoas da cidade tem as mesmas sobrancelhas, eu já as conheço todas. Um nariz torto já não me é mais um nariz torto.
Busquei cartas e certidões de nascimento, mas elas não me buscaram de volta. A vida perdeu o interesse em mim.
Esse remix não são vários, mas um só, infinito, que parece querer englobar todas as músicas do mundo. É como dias de sol; eles reúnem num só tempo e espaço todas as coisas em mormaço.
Prefiro a solidão de ser ninguém em meio a tantos, esbarrar nas pessoas e romper bolhas a força. Onde estão as bifurcações que não pagam salário? Não posso parar o remix.
O futuro virá - tem que vir - com a chuva.

O Processo de Desconstrução


A preparação


Estava eu dançando tango com meu eu-fantasma, rompendo o não-eu e descobrindo nuvens na noite. O concreto da bola, dessa vez, vinha como uma cidade grande inteira, uma solidão agressiva, que se fazia perceber e pedia liberdade.

A natureza está em revolução.
O branco do céu vem em mini-pinceladas.
Elvis se gatinhando em mordidas de companhia.
O momento do entendimento no silêncio das palavras ditas em sutilezas.
A lembrança do devir-lembrança.
Chove para cima nas pernas que realmente andam.
A volta do menino-tricô.
Extremidades felpudas do ocelote-revira tempo-pleroma-aurora boreal.
A complacência na infinitude da experiência.
O vento cinza.
A amarelice dos dias amarelos.
A historicidade da matéria.
A procura pelos cabelos encaracolados em voo.
A infinitude dos metros.
A solidão da biscoitidão da bicicleta.
A tontura do nadar em costas.

"O vento engoliu as pessoas e está soprando elas de volta!"

Posso ver o monstro sem colocar sangue na cabeça e sem virar as gentes ao contrário. "O monstro já foi embora, ele só precisa ir em paz".

Senti dois pingos.

O céu azul voltou a intercalar-se por árvores em movimento. Não é o mesmo sorvete; veio em formato de esperança e pureza envolta em umidade.