o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.
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quinta-feira, 2 de abril de 2015

O rio


marte, coração, pulso

Os milímetros percorridos em desenrolar-se de revoltas e retornos estendem-se até o eco de um canto, as depenagens solares, as peles que respiramos, e os gestos que percebemos à medida que existem, já os transformando. A distância daquele rio necessário faz-se junto à atenção focal do rosto e do centro cardíaco. A movida pelo incessante giro planetário exige que se esteja no rio à medida em que se é o rio - aquele que contém o fluxo como princípio. O descarrego de palavras desfaz-se ao contrário, já ato, já feito-fluxo, devir realizado. O momento em que se para de escrever é aquele em que torna-se única solução nunca parar, seguir infinitamente para que se possa dizê-lo. Simultânea é a estadia; você se hospeda no rio por toda a extensão quando está nele como parte, que compreende o mistério no desaparecimento das paredes, do espaço entre as pernas. Nossas moléculas já estão juntas, pois são o espelho e a imagem refletida, responsabilizando-se por aceitar as dimensões do gesto, a doação do nome transtornado pela infinitude contida no contínuo: a morada do coração, a recuperação dos detalhes. A dança circular dos grandes corpos fragmenta-se em partes singulares tocando-se: quando nos damos as mãos para que nossos dedos possam abraçar a proximidade. Percebo as atividades das águas também porque o rio me permite vivê-las. Eu sou o rio. 

sábado, 20 de dezembro de 2014

dilúvio

(Durante os longos tempos que tomou a reverência à lua em minha curta vida, senti desde o sangue magmático que latejava em meus órgãos a expulsão do que necessita ser presentificado. Estávamos reunidas em círculo para bendizer o dom da vida, homenageando-o com nossas vozes e mãos. Atrás da casa havia o desembocar de águas caindo à meia noite de sagitário. Apontamos nossas flechas enfeitadas com fitas brancas para a correnteza, que desmantelava nossos segredos persistindo no fluir. Todos os sonhos com a chuva desceram à terra úmida que puxava os pés para o fundo da derrocada, ao encontro dos musgos mergulhados na quietude do submundo. Cantamos de olhos voltados para dentro, amanhecendo as novas células do próximo instante, conjurando suas partes com a sabedoria do bombear, as veias abertas a todos os segundos explosivos que arrebentam-se no bater, e a certeza então vindoura, e sempre, de respirações conjuntas.)

A fumaça, não sei sabia se emanava da caneta que eu segurava, da respiração dos gatos, do sonar preenchido que ocupava o ambiente. Dentro de casa habitam os bichos, isso se sabe. É assombrosa a vontade que move os pés até acontecer o desenrolar da relva sobre a terra, e tudo ser novo. Aguardávamos com atenção ao dilúvio, reunidos, esperando que viesse nos encobrir para que subíssemos, nadando com os nossos membros e buracos do corpo. 


Agora aqui põem-se satisfeitas
As anciãs que ataram os cadeados
Do silêncio entranhado em registros
Invisíveis do dizer.

A inteira camada segue costurando-se
Nesta entrega ao Destino de
Minhas mãos movidas a 
Sussurros antigos.

De dentro da caverna reverbera
O rugido afora ricocheteia
A participação avulsa e real
Percorrendo estas cantigas.

E só assim, nesta prontidão
Fantasmática do instante
Que ocorre o impossível
Reproduzir dos sinais.

Nesta conjectura espiralada
Ao meu desejar ao bem-vir
Do dilúvio, reencubro-me
Viva, viva. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

about the exercise to find conciousness

às possibilidades (ao impossível)
fazem-se infindos movimentos
escolhidos pelo tempo
no espaço dilatante
de conjuntura singular.
neste traço,
acontecido devastador,
o segredo provém continuidade
à matéria.


As paredes erguidas afastavam o fora do dentro para que o ar instalado, desprovido de por-do-sol, sufocasse o desdito, na expressão transfigurada, ao homem que trancou as portas e proibiu que o cheiro das calçadas atrapalhasse sua transformação. Quando deixou claro que não havia portas, com os dentes arrebatados ao olhar, as pernas, decididas a respirar, percorreram todos os pedaços de chão entrecortados paredes sucumbindo ao teto esmagador. O descaminho inevitável jazia aos pés, excessivos pelos passos, e às mãos que esmurravam o concreto entre uma circunstância e outra, os cabelos desfaziam-se pelos escombros do coração, enjaulado, a cabeça de um lado ao outro, a boca mastigando o abafado, umedecido pelo suor e pelo choro. A vã manifestação do sofrimento redobrou o pisar, que ia decidido a encarar seus limites, o rosto impávido daquele homem por sobre lonas pretas, e exigir a verdade deste delírio, incumbir sua presença de poder, para fora, onde esperava antiga ferida, o buraco, ainda por cuidar, àquela mulher cujo útero era palco da vida, para que ao perdão houvesse continuidade. 
À noite, quando já doía o peito renegado, por sob soturna luz que atravessava a parede, chegou um contorno familiar de sombra palpável, bioluminescente pelo centro, de onde um círculo verde esmeraldava fios de luz permissiva. O traço moveu-se em direção aos pés então repousados, pelo machucar de suas correntes, para que o seguissem pelos corredores. Desde o silêncio instaurado, caminharam, acompanhando a matéria negra à frente, quase integrada à escuridão ruidosa do isolamento. À finura com a qual surgia a realidade, naquele ponto verdejante, deu-se a ver uma abertura para um cômodo com janelas. Lá estava um contorno maior, preenchido por carnes do vácuo, onde brotam as estrelas do passado imemorial. 
Quando saíram do labirinto, de imediato requereu-se respiração forte para suportar o que estava embaixo da janela. A inconsolável imensidão de águas próprias ao mar ou rios infinitos, revolvendo sob os pés, aos gritos daqueles dentro de casa. O redemunho convidava ao meio e ao fundo, prometendo ser morada daqueles rostos na lembrança, um sempre muito jovem, outro envelhecendo, entre as gargalhadas e as bolsas debaixo dos olhos. Sorvendo, escancaradas, as águas pertenceram-se fluindo, e assim o tempo findou para o seu reverso. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A antiga psique

O tempo parece absoluto. Às vezes, da janela, entra a sensação de um cheiro distante. Meus caminhos, pelas ruas desertas, distanciam-se das pessoas daqui, que estes passos não pertencem a meus pés. Quando tomada de um novo dia, respiro rarefeito ar, transpasso portões enferrujados e busco nos papeis antigos, escondidos em prateleiras altas, a poeira que modifica meu presente.
Neste dia, algo aconteceu. Um cruzamento de esquina tomou conta daquele segundo destrutivo, que adentrou o domínio de minhas pernas. Então, seguido do limite à branquidão, expus-me ao esquecimento deste mundo para a lembrança de um outro, pertencente ao cumprimento de meus dedos, enraizando-me em sopro de origem.

Era tarde da noite quando fui deitar-me, mais a pedidos deste forte corpo enfraquecido por violência atmosférica que de sonolência propriamente. Na verdade, não havia necessidade de sono. O que havia, em minhas vísceras, era uma estranheza diferente, que nunca havia sentido, mas que parecia natural, à maneira daquilo que acontece porque deve acontecer. Removi meus sapatos apertados, o sutiã desnecessário, e deitei-me esticada, encarando o teto, na tentativa de atentar-me aos sons de natureza que havia colocado pra tocar no aparelho fechando a esquina de meu quarto. Durante a madrugada, transitei entre alfa e vigília, dormi com um dos olhos abertos, mas permaneci imóvel, pregada ao colchão. Num específico momento – não posso dizer quando tudo começou – a pele de meu corpo esparramou-se pelos lençóis, escorreu no chão da casa, esgueirou-se por debaixo das frestas e ganhou a rua. Lá fora, já pertencida ao asfalto, notei que o tempo do mundo não mais estava preso às horas das semanas, ou aos meses do ano. Agora, tudo funcionava numa amplitude fantasmagórica, e a nitidez corpórea daqueles que passeavam pela cidade tomava força. Enquanto rastejava, eu percebia as pessoas pelo ângulo mais baixo, seus narizes farejando odores atraentes, seus queixos erguendo-se para acanhar os demais, numa tentativa de impor espaço para desenvolver a própria sobrevivência. As articulações dos corpos ao redor comportavam-se de modo esdrúxulo, virando do avesso sempre que estimuladas. E eu, assustada, mas embriagada por uma sabedoria misteriosa, não era capaz de retornar. Foi então que tomei consciência muscular, por trás do glóbulo do olho, de que não deveria retornar, mas seguir adiante. E acordei, as cinco e quarenta e dois, enrijecida, coberta de dores.
Segui atordoada pelo restante da semana. Noites como essa tornaram a repetir-se, a cada possível descanso. Atreladas à causalidade, transferiram-se para a vida acordada, e passei a enxergar com os pelos que me cobriam. Já não era capaz de encontrar-me em paz. Mesmo quando longe daqueles que me indagavam a percepção aparentemente vaga, as profundas olheiras, e o cheiro de transformação, eu sabia que, paralelamente aos monumentos que me cercavam, havia outra coisa. Mais perto de mim, grudada às minhas mãos, por trás de meus ouvidos, agregada à minha pessoa, inerente a esta passagem, dentro em minhas vísceras. Os membros amputados começaram a aparecer, e eu a sentir-lhes ausência – em mim, nos outros, nos postes, nas vias e nos domingos. Certa monstruosidade rugia. Eu não podia escapar a ela; e, para ser sincera, não parecia querer. Um senso de veracidade apoderou-se de minha alma no minuto em que soltaram os tigres. Notei que já não era tempo de conservá-los enjaulados.
Estava frio. Encontrava-me nas ruas não podia medir a quanto. O tempo deslocava-se furioso, atropelando-me os passos. As ondas de um inexistente mar arrebatavam-se. Estava frio, o vento cortava, eu seguia. No entanto, nada disso era suficiente à minha lucidez. Germinando, a caça me impulsionava. Eu sabia que estava participando de um longuíssimo nascimento. Então, agredida de uma vitalidade desmedida, corri, seguindo devir-destino, em busca do perdido, inteiramente envolvida, desde o osso, nesta missão antiga que havia me encontrado. Precisamente, ocorreu. Sei, pois jamais fui enganada por minhas lembranças. Um cruzamento de esquina tomou conta daquele segundo destrutivo, que adentrou o domínio de minhas pernas.
Adanna. Mulher. Trinta e três anos. Traumatismo cervical. Mil novecentos e noventa e seis. Cinco e quarenta e dois. As vozes brancas continuavam dizendo essas palavras. Eu estava acordada, como nas últimas semanas. Porém, havia um deslocamento irreparável de minha solidez em ruína. Não sabia se estava deitada, esticada encarando o teto, ou se conseguia me mover, rastejando por entre a selvageria. Não sabia se estava morta. Permaneci ali décadas contadas para trás, esburacada, vazia, apática e insone. A catástrofe era iminente ao apito em minha consciência, mas nada podia ser feito para que mudássemos de passado. Na escuridão, porém, pela primeira vez, da janela entrou a sensação de um cheiro distante.
Desprovida de corpo, vi fiapos de luz e cor. As ondas festejavam a epidemia, as casas moviam-se em agitação febril, e uma mulher urrava na concepção de um milagre. Notei que seus gritos saiam de minha garganta, e que seu rosto me era espelho. A atmosfera turva que me cercava urgia desespero, mas não havia a escolha de ceder. Ali, tratava-se da escolha por ambos a criação e o sacrifício. Estava quente, embora os raios anunciassem uma tempestade, pois o ar mortificante comprimia-me o fôlego. Uma forte pressão sanguínea violentava-me o coração a cada segundo. No entanto, a criança que viria dependia de minha responsabilidade por respirar. O esforço por manter o oxigênio fluindo progredia com forças extraordinárias. Ao redor, muitos eram mortos para que outros sucedessem à vida. Naquele instante, porém, apenas uma vida me interessava. E minha missão era fazê-la acontecer.
Sozinha, nascia uma criança em meio à destruição. A visão, então, de mim mesma, embaçou-se ensanguentada, e eu, estendendo o frágil e novo corpo, disse a um homem que devia estar ali: Leve-a para o barco e chame-a Olga. Com um longo suspiro de espanto, segui à consciência e eu logo soube onde me encontrava. Olga era o nome de minha mãe, e eu estava no hospital para aprender as consequências da minha história.
Logo fui exposta à liberdade. Agora, movia-me com o auxílio de rodas. Os papeis guardados tornaram-se meus companheiros, e não demorou até que eu pudesse compreender. Barbados, mil novecentos e trinta, o mundo acabava para aquela gente e começava para quem me trouxe a ele. Antes, eu não podia valorizar o trabalho dos antepassados. Agora, sentada infinitamente para observar com mais atenção, contemplo os documentos envelhecidos, que sussurram: sua importância, feito a minha, depende da importância reconhecida nos olhos dos condenados.


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Loba

Ela corre por vales adentro sem medo do escuro. Seus olhos veem fundo, mas é numa percepção aguçada de sentido, na pisada firme e desconfiança necessária, que sua existência no mundo se instaura. Ela se manifesta na sensação da lua. A sabedoria, em seu arfar, expande espaços e tempos antigos, para desde o princípio da pegada. Ela veio da terra, mas segue caminho entre a água, movimentando o ar e resguardando a solidez de seu corpo pela admiração ao fogo. É verdade que sair dizendo dela parece perigoso. Mas é só o que vejo quando encaro este espelho. Vejo o reflexo de uma outra coisa que não minha pele lisa, a fragilidade de minha cor, e a tristeza imanente que escorre pelas veias. Quando esburaco estes olhos meus, e outros de mim, vejo uma velha mulher que não dispõe de palavras ou ornamentos. Ela é muda de sentido, mas canta, num sussurro audível, sobre a inteira força do espírito. Aumenta a sensibilidade em meus ossos, e sinto, através dela, minha participação na ancestralidade. Do espelho emana instinto. E de tudo aquilo que é dado importância, por experiência sinistra, horrível e sublime, recupero a antiguidade da coleção, das histórias, do ritmo, e do dar-se as mãos. A palavra coragem vem do sangue que percorre a todas as faces. E aquilo que há tanto foi criado, destruiu-se, e pede recriação. Pede novos cantos e uivos. É preciso permanecer. E dar a morte ao que dela sente sede. Também, por vezes, recorrer às cartas esquecidas, aos objetos da infância, seja para queimá-los, seja para incorporá-los ao que hoje transpira. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

despedida

O retrato que me afasta é aquele do contato com o espelhado de uma flor-de-maracujá, aquele que relembra o movimento sutil dos pés e o peso do chão que o confronta. Para além do olhar-se, mas o tato da própria pele, retorna ressurge como ínfima parte ou gota escorrendo pelo espaço. Meu ato de observação escolhe uma e torce pra que ela vença a corrida pelos vidros que repartem o quente do frio. Quanto tua casa é grande demais, com paredes e piso e teto de madeira, algumas brechas por debaixo, fechaduras complexas, a tempestade que ameaça invadir aterroriza os membros para que trabalhem, e o esforço resguardará a casa. Não se trata de uma escolha; falo aqui de sobrevivência. As partes frágeis e instintivas, os animais menores e os maiores, têm um cômodo central transparente e de única entrada. O tempo se esvai sempre na iminência do porvir, a grande água que lavará todas as coisas, queira tu apegar-se a elas ou não, pois não há critério. Cada agora insistente em permanecer torna-se epifânico quando os olhos refletem a importância de todas as coisas, morrentes, mas ainda respirando. Passa-se a encarar a casa, esburacando para a abertura de cada gesto, em estático tremer-se, à medida que cada detalhe merece olhadelas aprendidas de cor. A violência depende do limite entre a invasão e o cuidado com os seres frágeis. Encontrar-se em transbordância, para esvaziar-se de si e dar lugar ao novo, na manhã seguinte os raios solares penetrarão a casa pelos lamentos da destruição, para aos poucos secar o ambiente. Todas as coisas terão cheiro de umidade e calor, mesmo a madeira podre que segurava o chão longe do despenhadeiro. Será, então, natural respirar, e mover-se pela casa desconfigurada, sentindo sua organicidade, sem preocupar-se com o momento de reconstruí-la. O silêncio ressoará metálico pelos cantos alagados e a luz inevitável. E teu corpo, então, participando do momento complacente pós-morte, oco, rasga-se desde o entre, para ser novamente invadido, já prevendo antes mesmo de ao começo dar-se início, a vinda do perigoso futuro. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Sororidade

parceria com Beatriz Bandeira

Deste todo início, começo e retorno, dedico penas em flama, rio subterrâneo, àquele que expande braços e esburaca, gentilmente, meus olhos. Coxas pálidas, cavernosas - escrituras milenares soterradas em cavidades corporais herméticas - o transfundir centrado no âmago do movimento não-palpável, ritualizado em brancura-ausência.


Coragem.

Coragem revertida em mergulho pelo escuro-claro de cada parte absoluta e esparsa, esparramada fora da pele, aos cabelos perdidos em ventania, firmeza de cada pisada, errante por natureza, absorvendo o pulsar desenfreado das pedras.

O escorrer-se: sacrifício etéreo; o aroma das rochas que desabrocham sob as plantas dos pés. Encarar-se requer método, prática, refúgio letárgico. O espelho inundado de aberturas, portais de abismos orbitais. Olhos arregalados engolindo instantes, liquefazendo substância íntima. Urgência de sofrer em si, resplandecendo escombros.

É necessário que se toque o interior úmido da ruína, e a estes tendões conceder voz, rugido, mordida. A dedos diversos unidos pelo movimento instinto mãe e terra, mão esquerda e mão direita, dedico em brado urgente desesperado cauteloso, tua respiração desde já em frente, no entre nós e chuva e entrega, amor faísca que queima e nutre; para que se molde, fresco, o vir-a-ser feito barro e braços e corpo de homem nu e original. Voltar à origem secreta dos pulmões cansados e dispostos, face-a-face, rosto que atravessa tronco e vísceras e morte e carinho.

O teu toque não é por acaso. E os meus membros, responsáveis imprimem sentido cervical àquilo tudo que se sustenta sobre o lúcido saber-se sendo, criação primária das vértebras temporais do silêncio, refletido na translucidez do marasmo da angústia de corpo imobilizado pela lucidez do perder-se.

Caos transbordante, eminente, emergente obriga a cavar buracos terrenos para que cintilem as respirâncias.

Eis que as irmãs exprimem luto pela configurada fotografia do perdido entregue às cartas e borras, sucumbido e restante, pelo trilhar ínfimo eterno,

ruína.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

oceano

somos quase todos pobres em rosto rostidade por dentro subterrâneo na pele meu sonho esta dor lançada em passo a cada pé pegada rastro que fica saudade nostalgia de quando outro lugar descaminho no abandono da casa do corpo pelo outro seus olhos destino a rede fractal do tempo espaço combustão em raio força tempestade luz isolada expandindo por dedos nos extremos no corpo que move dança segue não é esvazia enche meu coração corajoso sua lembrança da lentidão seca em cada toque recolhido ao coral nebulosas e aurora suave medida do ar em espectro ruína carinho meu amor por ti tua verdadeira mão na minha realidade concreta do físico rebuliço braços membros invisíveis partilhados destruídos sacode a voz o grito o uivo cuidado segredo expurgando mantido na morna carne no som da música as ondas inefável acontecimento do mundo que brota germina escorre cresce morre em cinza ruína luto abraço e troca meus batimentos sua recepção seu abismo nossa vontade tanta história tanta vida o caminho o caminhar junto comigo contigo nossa existência profunda afundada afogada em redemunho convulsão turbulência necessidade urgência o meu amor erguido confiança abertura este buraco negro cósmico impossível não posso te dizer que amo seu nome suas costas os sentidos em sua parte inteira inteireza obrigada todo o tempo nenhum lugar a explosão do universo que não para expulsa não esquece fica no chão na terra correndo fluindo memória seu toque tanta verdade na lentidão miúda sorrateira arrastando demorando todo um minuto uma vida na gravidade no sol na órbita no umbigo na testa pelos seus cabelos secreções silêncios saudade da presença da perna do peito do ombro que cabe estranha decide escolhe querer estar aqui agora onde nunca só sempre junto orbitando entre ao ser este momento de afirmação do apego afago resposta a faísca o grande sentir pertencimento vazio solidão você eu nós confia confio flui água minerais molécula sustento na respiração na troca minha boca sua boca os tendões a tensão nosso vão a branquidão o dilúvio todo o verde todo o fato cada invenção minha verdade fortaleza abrigo guerra seus estranhos olhos de árvore vento folha saudade alento sono sonho ao seu lado.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Por vezes a quietude assume forma concreta
Feito o movimento das pernas
Balanço tocante em dia desimpedido
Por bocas e olhares outros, selvagens
Arvoreantes mãos a sufocar
Pois que demasiado alento,
Costurando e retalhando (sobre rosto)
Sobressol (que não há palavra)
Nunca há sibilante sonho solidão sarcófago,
Falha original
Descaminho.

Sutil desenvoltura,
Evola outro,
Chegante pelo morro - subindo, sucumbindo
Silêncio.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Toda gente mexe o traço.
toda parte movente,
feito caminho repartido
feito aquele que chega
para desmentir tormento,
desmentir falso inventar
antigo pulso em mãos,
compasso repartido,
múltipla onda.
sim.

Testemunho secular
de membro sorvente
com água gélida
e frio ar

Toda a gente
todo o entre
expurgar.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Aqui, em estático minuto, respiro para sempre este ar compreensivo de teus olhos fundos. Desacredito em tanto acreditar, rochedo, matéria, esse cruzamento em sensação, de requerer resposta. A ti, como responderei? É sempre pouco sim meu sorrir e dizer, no desdizendo destes finos tracejar, carinho demorado, não é em qualquer vida. Não é em qualquer corpo. É devido companhia, sinceridade no contato,  querência de coisas absolutas. É sempre baixo ruído, fraco rebuliço, no instante pálpebra com pálpebra, o perigo do esquecer, remorrendo em ato feito, incontrolável. Meu sonho recorre memória, requer reconhecimento, de entender o passo. Não é possível desistir para abandono, sucumbir no alagado, desaguar todo absurdo. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Do nascimento

(Biografia, parte 1)

Os caramujos dos cabelos vieram em inconstante ventania de fim de tarde, quando todas as coisas viram luz. Não há olhos com mais miudezas infinitas que estes olhos nascidos do buraco do mar, onde há terra solta e os bichos se escondem. O sorriso doce comporta palavras ditas em segredo, explosivas pelo caminho natural destes pés. Ela é filha de sereia mitológica com mago dissolvido, e existe por todos os lugares. Todos os sentidos do mundo remetem a seu abismo, aberto e invisível pela altura do peito, de onde brotam os eternos cordões tangíveis.

Pausa I

Foi destas luzes encobertas de vento que te falei. É assim que parece casa, onde o céu e os espelhos são o mesmo reflexo anterior, todas as cores se misturam para que não haja separações em diferentes planos, gestos, rostos. Cada traço de contorno e quentura com cheiro de chá pelos instantes em que vemos sem luz, mas dentro do buraco interior. Dentro das retro-projeções de abundância, essa voz solta, amarrada a si mesma enquanto fio do pano, dia escondido, corpo gelado. Os pássaros aqui e lá, ruídos de certo movimento, esse risco escorrido, vontade de encostar o sono do sol. É assim que voltamos, sempre seguindo a linha pontilhada da distância.

(De esquecimento,
traço voo, grito
ao limite das mãos
tontura, suspiro;
mesmo espelhado-abismo
momento contorcido,
escorre -
sorrateiro de inteireza
nossos passos, explodir
carinho, verdade)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Morada

O momento da escritura demorada,
lenta por cada nuvem que move a terra,
é o limite do apagamento
em virar-se sonho,
decisão do olho pelo invisível
ou pela luminosidade fechada
do dia que escolhe sucumbir.

Quando em abertura,
os pássaros do infinito rebuscam
um tempo estático e rebuliço
do enroscar branquidões e limpezas
para tal azul que só é visto
no contorno daquilo que preenche,
os espaços entre folhas,
e o silêncio das vozes escondidas,
distantes.

É a teia, fumaça carregada
de tontura, sons do vento
e todas as cores do sol aparecem
nos bichos que passam o canto,
o balançar, a qualidade daquilo
que é demasiado.

Essas vozes são presenças cruas
ou enrolam-se em desmaio
adormecido dos sentidos
quando os buracos tecem
o espaço de cada ser
e o caminho entre
devir-porvir
relance daquilo que agita
em pausa e esperança?

Como pode a finura,
fragilidade desse cheiro novo,
estar concreta em traço
e silêncio -
frente a meu rosto?

Não acesso o segredo desta árvore
outra que responde
a meus olhos baixos
com promessa e acolhimento
feito casa mantida
na memória anterior
do retorno e do inabitável.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Casa

I

Anterior à parte, ao silêncio
derroto a mim, de olhos fixos,
pálpebras cerradas no avesso
o peso do pé que se cumpre
quando sempre o chão é ele
em rosto distante à mão que distingue
o fundo do céu
que sufoca a boca.

Escorre.

Então, no tilintar inócuo de um,
submeto pele à espúria,
constante e eterna,
na propriedade do tocar
fazendo-se solidão
que carrega o peso da casa.

II

O espanto, momento em vazio total
quando o brando silêncio estala
desiste a um ninguém
e cada extensão cala ao papel.

Em tontura, se compadece
pelo preencher furado de motivo
motor de instante, porvir,
o dia amanhece falido.

Sombra por dedos, então,
a troca do caminho pelo desmaio
apagado, como palavra esquecida
desaparecida de toque, trovão

À espera infinda
o susto aguarda
sem resquício de voz
onde casa sem morada.

III

Decidi reconhecer o buraco
no crânio desta mesma
casa de operação infinita
para despejar, em esquecimento,
memória.

Dívida

Não posso, somente por verso fino, gaguejar pulmões esvaziados ou taquicardia nascida. Cada começar é desespero formado de gente, toneladas de pele, extensões infinitas de silêncio, de voz mastigada. Angústia escondida por debaixo da testa há tempos desmedidos é que me compele. E, assim, o esfacelamento da palavra surda, que vive de pé, trêmula, pronta para cumprir-se ao despenhadeiro. A nulidade infantil daquela carne, daquele único rosto tomado de rio, de quem não respira compasso puro, mas desritmo naturalizado, invasor de território ao abandono, movimenta sumiço de criança ralada, recolhida por vergonha, e então desapareço por entre o chão de terra antiga, habitação-última.

Para ocupar a boca, dou-lhe estes dedos solenes, conformados ao giro arrebatador da força original. A deformidade que lhes convém, da mastigação precoce, a eles confere maneira só de tatear.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A fita

O começo era a fita mesmo que antes houvesse gente. Desabrigada, sem teto sem casa feito passarinho azul pequeno fraco esfarelento, abandonado. Nada que houvesse nos armários servia para a verdade, não havia alimento para sinceridade exceto a carcaça triste de si mesmo, puro, indefeso. E os espectros habitavam a casa como macarrão velho na gaveta dos fósforos. O dia surgia numa casa livre de gente viva de vida entre os cabelos e o chão. Cada menino que encobria o desespero não ganhava para si as rédeas da máquina. Então um homem falava falou dentro do sol corrido falava como quem é pago, que ganha e esbanja não conta mente homem que dizia poder mostrar. E cada parte pertencia à outra feito filho inato surgido de seus ancestrais. A fita veio em sonho por debaixo dos olhos. E nela havia lembrança de fiapo de ar de coisa empoeirada. E nela havia algo de vida de veia com sangue e pulso e bombear. Enfim desperta, corri sobre o horizonte do frio em cada pedra montanha em lago e distância até desabar cair, joelho sobre terra. O rosto dela desenhado tantas e tantas tantas vezes, as pupilas pretas, a boca firme demais, orelhas no lugar errado. E o pai acusado dentro dela como dias proibidos, futuro que já se foi nunca virá. O amigo então veio e gritou com a surpresa daquele que chega. E as lágrimas dela rolaram por cima do amigo, dos braços pernas do dia da fome da cara, de toda parte. A mão colocou a fita, desenrolou, gravou os lamentos nos dedos que escorriam verdes, sofridos, e ela percebia em cada palavra o surgimento desenrolar da fita, concreta, aquela, a fita da Memória.

Branco

O movimento por preencher o céu
é eterno
branco-pérola as gotas d'água nunca se são,
mas ao azul de líquida forma.

Cada piscar é um risco
que a sutileza do caminhar
como trago devagar e constante
não deixa vestígios do passado.

O instante
é a coisa ela mesma
em sua memória, com a origem do Mundo
de chuvas e destruição.

A nuvem se dissolve, então,
em invisível motivo de vida
para ser com as partes primordiais
o dia
e o retorno.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sophia

Quando leio
de desolação sinto
abraçar o poema
acariciar as palavras
em sufoco de braços pesados
como quem se atira
se entrega
ao rosto de ninguém.

domingo, 16 de setembro de 2012

Debaixo


De pernas tremidas, agoniadas pela palavra do tempo, sinto saudades do futuro. Sem toque de mão, a infância encolhida não existe, perdeu-se em susto pelo caminho, desmoronada por história de ninguéns. Cria seu próprio riso em ressonar memória, faca, por necessidade, pés na cabeça, ombro no chão. Pois, aquela velha garganta que estrangula, floresce em eco de voz, voz da terra.
Não é pelo gosto das unhas sujas que respondo tontura com complacência, mas pelo incômodo de percebê-las em colapso. Então, afinal, se quebram em outras, e estas em mais, sem, no entanto, se multiplicarem. Não se trata de tanto, mas apenas de tudo.
História de pessoa afogada pelo tempo não é longe de pétala presa por grades inofensivas. Não... É o contrário do esconderijo quando a sensação de mar que a terra guarda desdobra-se em amarelice delicada, que o vento leva embora pelo retorno, eterno renascimento. Os minutos contam giro de gente que carrega as marcas das rochas, a exposição das nuvens e o calor de pele em transposição de chão. A cada pé, esta causa justifica-se nas pausas em cauda de peixe, fantasma que nada, ainda em ar seco, de exagero azul.