o movimento do entre pelo tempo e pelo espaço, onde cada palavra é figura esburacada, e o rosto de ninguém expande ao infinito.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

1/2

Estive ali,
Naquele banco perto do sol
Entre caminhos bifurcados,
Traçando dizeres emudecidos
De ordenamento - como grito
sussurrado,
De propósito,
Pela calma em todas as coisas.

Escrevi de olhos fechados, atraída
À possibilidade do espaço branco
Me falar, em recepção,
Encobrindo outras já tantas palavras escritas
Embaralhadas,
Como se nunca acabasse,
Ou fosse pequeno para a monstruosidade necessária daquela mão que faz.
E diz.

Talvez a condição de cinzas seja inevitável
Ao sonhador,
Que ama o sol em sua bênção,
Recolhendo da luz fragmentos de furta-cores-raios
Esses que nos constroem. 
O meu
coração deseja expandir.
O meu
processo de continuidade é magnético,
Inerente à terra que reconhece o pisar
Como a folha que recusa dizer para transformar.
Só há como prosseguir não-sabendo.

Eu desejo viver para abraçar-me
A mim toda-luz,
Respirando pelo pulmão do outro adiante-sorrir
Mais à frente,
Para que eu caminhe por vontade 
Dos furiosos pés, nesta erupção
De palavra pelo fundo da floresta.

Decifrar os códigos nos sons dos bichos,
No ritmo do tronco variante invariável,
Pelo que bate,
Já nunca saberei.
- Mas bate.
E o fruto desce para o rio desde
A coragem do ato.
Pise ao chão.
Ele está te esperando.

6 comentários:

  1. francis-ídola, você disse tanto de mim naquele comentário do meu texto. eu sei, é contraditório, falei do amor e concordo/sou você. sou uma antirromântica recém assumida e em crise por isso. e pouco entende-se de mim quando falo de amor, mas é um amor morrendo. indo. todas as coisas que escrevi sobre amor são bregas, só não as despedidas que todos confundem com declarações. de qualquer jeito, fiquei tão tocada com seu comentário, porque, finalmente achei alguém que pense assim, gauche, como eu. o amor é uma merda.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. todos os processos do amor desenvolvem-se em tempos e espaços múltiplos, para além de bom e ruim, para além de qualquer dualidade ou sistema binário. faz parte querer proteger o âmago que ama, esse onde o amor é gerado, a ele, principalmente, é necessário dedicar energia de diálogo (interior), de compreensão, de cura e regeneração, de vida-morte-vida. se isso não for uma coisa auto-gerativa, toda troca se impossibilita e à morte é impossível compreender, ao abandono, aos fins de ciclo. a merda faz parte do amor, assim como tudo faz parte do amor. e o canal para essa urgência é justamente este, o nosso, o da parição dessas criaturas, que vêm à vida para que outras coisas venham à morte. cada ato gentil de cada vez, cada ato destrutivo de cada vez, revoluções e curas, e tudo se movimenta.

      grata por ter apreciado a poesia <3

      Excluir
  2. "[...] Talvez a condição de cinzas seja inevitável..."
    haha, sem palavras.
    Texto maravilhoso!

    ResponderExcluir
  3. Doce Plágio. Pela calma em todas as coisas, escreveria induzido à capacidade de o espaço em branco me guiar. Assim, um sem-número de palavras que foram geradas durante aquela fase sem luz seriam organizadas e a minha condição de cinzas seria combatida.
    Durante tal banho de Sol, recolheria desse fenômeno astronômico algumas partes do meu próprio espectro e então iniciaria milagrosas reações, todas encadeadas pelo ritmo de algum orgão pulsante.
    No final, o produto sairia de uma desdecomposição endotermica de alta entalpia, o inverso de algo irreversível. Minha nova versão organica, nascida de uma erupção em papel, não precisaria mais sonhar pra sentir e caminharia pelo chão outra vez.
    Pena que não escreví. -------------- gostei muito do seu poema xd espero n ser ofensivo

    ResponderExcluir